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Bem melhor do que a encomenda: por que gênios da música sempre faziam mais do que se exigia deles?

Diante de encomendas simples, Bach, Beethoven e Rzewski entregaram obras-primas – um aceno político que os tirou da vala comum, diz crítico

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2016 | 16h00

A questão é simples. Alguém te encomenda algo, e você deve entregar aquilo pelo qual o comprador pagou. Nem mais nem menos. Essa é a lógica do mercado. Hoje, mais do que nunca, ela permanece como vetor máximo da era da “leveza” hiperconsumista. Nas artes, esse formato funcionou por séculos. Mecenas encomendavam retratos, e recebiam... retratos; nobres “compravam” pacotes de quartetos, sonatas e música camerística pagando preços módicos aos compositores.

Há, no entanto, três radicais exceções no domínio da música que desafiaram essa lógica perversa. Três compositores, distantes dois séculos e meio entre si, entregaram muito mais do que lhes foi pedido. Ou melhor, enfiaram o melhor de sua invenção goela abaixo de seus financiadores. Dois muito conhecidos – Johann Sebastian Bach (1685-1750) e Ludwig van Beethoven (1770-1827) – e um contemporâneo, o norte-americano Frederic Rzewski, hoje com 78 anos.

Esse trio maravilhoso me veio à cabeça numa tarde-noite recente de domingo, enquanto assistia ao excelente primeiro musical erudito montado no Brasil, no Teatro Nair Bello, em São Paulo. 33 Variações de Beethoven, do venezuelano Moisés Kaufman, 52 anos, combina em dois planos narrativos as histórias da musicóloga Katherine Brandt, obcecada em descobrir por que Beethoven escreveu 33 variações em vez de uma, como lhe encomendara o editor vienense Anton Diabelli; e o processo de criação dessas variações na vida do compositor entre 1819 e 1824.

É musical mesmo, e o que assim a caracteriza é a presença emocionante da pianista Clara Sverner, 80 anos recém-completados, interpretando as Diabelli passo a passo, na medida em que a trama progride, da marcha inicial até a arrebatadora fuga dupla e o minueto finais. Um espetáculo arrebatador, com direito a um madrigal de 14 vozes entoando, a título de postlúdio, o tema do Kyrie Eleison da Missa Solemnis, obra contemporânea exata das variações. Isso sem contar as atuações notáveis de Nathalia Timberg (que também traduziu a peça) como a musicóloga e de Wolf Maya como Beethoven e diretor da montagem impecável. Kaufman recria o impacto das Diabelli no século 21. Mesmo a quem nunca ouviu falar em Beethoven, nas variações ou em música clássica.

A peça estreou em São Paulo no último dia 9. Seis dias depois, a revista inglesa especializada em música clássica Gramophone anunciou o vencedor do disputado título de “melhor gravação do ano”: Igor Levit, pianista russo de 28 anos que, em sua segunda gravação, ousou registrar em três CDs os três mais celebrados ciclos de variações da história da música: as 30 Goldberg de Bach, as 33 Diabelli de Beethoven e as 36 Variações sobre O Povo Unido Jamais Será Vencido, de Rzewski. Interpretações fulminantes, desafiadoras, inovadoras. E, ao agregar Rzewski aos dois sacrossantos ciclos de Bach e Beethoven, fez um gesto político importante como intérprete que também olha para a música do seu tempo.

Mas o que teria levado Beethoven, Bach e Rzewski a entregar mais, muito mais do que lhes foi pedido? Um pouco de informações históricas para embalar minha dupla hipótese: eles devolveram as encomendas com o melhor de sua invenção; e, ao fazer isso, acenaram com gestos políticos.

A invenção é o segredo da música de Bach, segundo o pesquisador Lawrence Dreyfus. Ela é “a ideia temática essencial subjacente numa composição (...), ideia por trás da peça, um tema musical cuja descoberta precede a composição inteira”. É isso. A ideia por trás da música posta na pauta. Bach quebrou a prática musical vigente até o final do século 18 na Europa. Goldberg, seu aluno, pediu-lhe em 1740 um sonífero musical para “driblar” a insônia de seu patrão, o conde Keyserling. O compositor, em vez de lhe dar um Stillnox, mandou-lhe um ecstasy. Em vez de 5 minutos, uma hora de música. Durma-se com um barulho desses.

No caso de Beethoven, o componente político é claro. Ele recebeu em 1819 a encomenda de Diabelli para escrever uma variação curta sobre uma valsinha de 32 compassos de sua lavra. Diabelli publicaria a sua junto com a de outros 49 compositores (Schubert e o então meninote Franz Liszt, com 11 anos, entre outros hoje esquecidos). A antologia, intitulada Associação Artística Patriótica, seria um brinde musical à nova ordem conservadora que a Europa viveu a partir de 1815. Beethoven, que naquele momento trabalhava na Missa e na Nona Sinfonia, enrolou-o por quatro anos, até lhe mandar um catatau de 33 variações – de novo mais de uma hora de duração. Em vez de “Variationen”, usou a palavra “Veränderungen”, que quer dizer “metamorfoses”. Recusou-se, portanto, a integrar uma antologia que só queria adular um regime conservador que chegou a prender Schubert por suas noitadas regadas a vinho, mulheres, música e resistência política. Com o gesto, saiu da vala comum. Diabelli teve de fazer duas publicações: uma com as pecinhas dos 49 compositores restantes; e outra só para suas “metamorfoses”.

No caso de Rzewski, a atitude política é escancarada. Em 1975, o governo norte-americano selecionou artistas para criar e/ou encomendar obras comemorativas dos 200 anos da revolução americana de 1776. A pianista Ursula Oppens escolheu Frederic Rzewski e recebeu um ciclo mamute de 36 variações. Rzewski acabara de assistir a um show do grupo folclórico chileno Quilapayún. Lá, ouviu a canção de luta de Sérgio Ortega O Povo Unido Jamais Será Vencido, que embalou a resistência durante os anos de chumbo na América Latina. A pecinha que deveria afagar a independência americana virou um petardo desmontando a tese da abstinência dos EUA em relação às ditaduras latino-americanas.

A música politicamente engajada está inscrita no seu DNA. O diferencial é que, nessas variações, ele não abdica do melhor de sua invenção. Habitualmente, os compositores engajados na luta política separam suas criações: de um lado, a invenção experimental; de outro, as peças fáceis engajadas. Rzewski conseguiu o impossível. Criou uma obra instrumental que tem o poder de uma granada política. E colocou suas variações como uma das mais qualificadas criações musicais do século 20 – no mesmo patamar elevadíssimo das Goldberg e das Diabelli.

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