Bem-vinda, China, à ordem liberal mundial

Em lugar de resistir aos pedidos dos chineses por maior peso no cenário internacional, nós mesmos deveríamos fazer-lhes a oferta

Timothy Garton Ash*, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2009 | 22h18

O 2 de abril de 2009, data da reunião de cúpula do G-20 em Londres, pode entrar para a história como o dia em que, na catálise da crise econômica mundial, a China emergiu definitivamente como potência mundial do século 21. Até poucos meses, a conversa nas capitais ocidentais ainda era sobre convidar descompromissadamente a China a se unir ao grupo ocidental do G-7 mais Rússia. Agora, o G-20 é aceito por todos como a nova mesa de negociações da política internacional e a China já é vista como um de seus principais participantes. A pergunta é: que tipo de potência mundial a China será?

Até recentemente, a política oficial chinesa era uma ostentação de modéstia: o dragão agia como mero lagarto. Sim, a China buscava nada menos que um "mundo harmonioso", mas a melhor contribuição que podia dar para isso era garantir o próprio desenvolvimento interno pacífico. A China se pronunciava apenas em questões relacionadas a seu desenvolvimento econômico e interesses de Estado imediatos. Agora, o país parece mais disposto a superar o paradigma de modéstia desenvolvimentista. Nesta crise, conforme o mundo solicita uma maior participação da China, também a China pede mais do mundo.

O exemplo mais notável dessa tendência é um artigo recente de autoria do presidente do banco central chinês que sugere a criação de uma moeda supranacional para as reservas mundiais, "desligada de países individuais". Em outras palavras, algo diferente do dólar americano. A ideia de ampliar o modelo dos Direitos Especiais de Saque do FMI com base numa cesta de moedas é debatida amplamente, inclusive por um painel da ONU chefiado por Joseph Stiglitz. Mas essa ideia adquire características próprias quando é o presidente do banco central chinês quem sugere apear do trono o dólar americano. Gordon Brown e o presidente Hu Jintao debateram em Londres a possibilidade de conferir maior peso à China dentro do FMI, em troca de uma contribuição financeira mais generosa. Uma sugestão eminentemente razoável.

Em fevereiro, no México, o vice-presidente, Xi Jinping, provável herdeiro de Hu Jintao, falou a uma plateia chinesa sobre países ricos e poderosos que "brincam" com o destino de países mais pobres. Em que países ele estaria pensando? No ano passado, um alto funcionário do Ministério da Defesa chinês disse que o mundo não deveria se surpreender se a China construísse um porta-aviões próprio. Pequim e Washington chegaram a um impasse público em relação ao nível dos gastos da China com a defesa nacional. Ao mesmo tempo, os chineses são fascinados pela ideia, proposta originalmente por um estudioso americano, da existência de um G-2 dentro do G-20. China e Estados Unidos, esse Grupo dos Dois, deve ser para o mundo aquilo que a dupla franco-germânica costumava ser para a Europa.

A China também está aumentando seu investimento na diplomacia pública, com a abertura de cerca de 300 unidades do Instituto Confúcio em todo o mundo, uma maior difusão internacional de suas telecomunicações e a publicação de editoriais escritos por líderes chineses nos jornais do Ocidente. O soft power, ou poder brando, está a caminho de se tornar um termo associado à China. Assim, nas três principais dimensões do poder - econômica, militar e branda - a China está aumentando suas apostas.

Mas o sucesso não é garantido. Até o momento, a China suportou a crise financeira melhor que os EUA. Os milhões de trabalhadores migrantes subitamente desempregados ainda não abalaram o sistema. Mas provações maiores ainda estão por vir. Stephen Roach, experiente observador americano da economia chinesa, disse que o crescimento econômico chinês no último trimestre de 2008 foi "próximo do zero", em comparação ao trimestre anterior.

No longo prazo, perdura diante da China a pergunta das perguntas: será o país capaz de combinar uma política de comando com uma economia de mercado? Ou, posto de maneira mais positiva: será possível chegar a uma evolução desse sistema político, controlada passo a passo, até transformá-lo num sistema mais transparente, responsável, eficaz e, portanto, durável?

Cheios de otimismo, vamos supor, para prolongar o debate, que a China supere esses desafios domésticos e prossiga em sua ascensão pacífica. Que acontecerá então? Que tipo de potência mundial a China vai querer ser? Ninguém sabe, nem mesmo os próprios chineses. A resposta depende de uma geração de líderes que ainda não chegou ao poder e de uma população de jovens chineses que ainda não formou opinião própria. Não se pode simplesmente adivinhar o futuro extrapolando as atitudes de gerações anteriores marcadas pelas memórias do colonialismo, da guerra civil e da Revolução Cultural.

Parece provável que, no futuro próximo, a China continue a valorizar muito a soberania inquestionável (do tipo que a maioria dos Estados europeus não pratica mais, nem prega), a unidade da pátria mãe (incluindo o Tibete), uma exigência de respeito extremamente sensível a qualquer coisa que sugira uma humilhação ao estilo colonial e os requisitos de seu desenvolvimento econômico. Enquanto as relações com Taiwan puderem progredir por meio da economia e da política, a China, diferentemente da Rússia, não mostra sinais de se pretender uma potência revisionista e, menos ainda, expansionista. Seu estilo atual de política externa, apesar de teimoso, é pacífico, cauteloso, pragmático e evolutivo.

Entretanto, além desse ponto ninguém sabe como a China vai se comportar como uma das protagonistas do sistema mundial quando for chamada a desempenhar esse papel, querendo ou não, diante de questões que ultrapassam muito as próprias preocupações domésticas. Diferentemente dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e França, os últimos 200 anos da história chinesa não apresentam um painel de tradições em política externa - como as de Jefferson, Jackson, Hamilton e Wilson, detectadas na política exterior americana por Walter Russel Mead - que sirvam como referência para as futuras ações de uma superpotência. Alguns analistas, tanto ocidentais quanto chineses, tentam mergulhar cada vez mais fundo na história da China, nas tradições do confucionismo e do chamado legalismo, para desvendar referências culturais esquecidas. Apesar de intrigante, trata-se de um grande salto.

Assim, me parece plausível supor que os governantes chineses estabelecerão durante o percurso a própria tradição. Se a receita pragmática de Deng Xiaoping para a reforma doméstica era como "atravessar o rio tateando nos seixos", a China atravessará os oceanos experimentando as águas conforme avança. Isso significa que serão muito importantes as boas-vindas das potências que ainda determinam atualmente boa parte da pauta da política mundial, especialmente os Estados Unidos e a União Europeia. Em resumo, o processo que definirá o tipo de potência mundial que a China se tornará será profundamente interativo.

Qual é, por exemplo, a atitude dos chineses diante de uma política externa europeia mais unificada? "Depende", é a resposta que recebo de alguns dos especialistas chineses mais bem informados a respeito da Europa. Depende, acima de tudo, da atitude política da Europa diante da China. Isso é ainda mais verdadeiro em se tratando da nova geração da elite chinesa, que está ansiosa para estudar no Ocidente e aprender com os ocidentais - antes de tentar fazer as coisas à própria maneira.

Acredito, portanto, que a próxima década, de 2010, será formativa. Em Londres, nós ocidentais, deveríamos dar as boas-vindas à China como protagonista e participante plena da ordem liberal internacional construída desde 1945. Longe de resistir aos pedidos chineses por um maior peso nas organizações internacionais, nós mesmos deveríamos fazer-lhes essa oferta. Então devemos argumentar, paciente e consistentemente, durante toda a década, que os princípios fundamentais da ordem liberal internacional refletem valores não apenas ocidentais, mas universais. Essa foi a proposta do Iluminismo, e eu acredito em sua veracidade. Não será uma tarefa fácil, especialmente no que se refere aos temas mais sensíveis dentro das fronteiras da China. Mas a China de hoje está cheia de mentes aguçadas e abertas. O jogo mal começou.

*Professor de estudos europeus da Universidade Oxford, sênior fellow da Hoover Institution, da Universidade de Stanford, e autor de Free World (Penguin UK), seu último livro

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