Bênção e maldição de Kennedy

'Mística de JFK' ajuda Obama, mas que ele não confunda sua biografia com a do líder assassinado

Daniel P. Erikson*,

14 de setembro de 2009 | 08h57

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Em janeiro de 2008, a última filha viva do ex-presidente John F. Kennedy publicou um artigo no New York Times que contribuiu muito para o embalo político de Barack Obama em sua campanha para a Casa Branca no final daquele ano. Sob o título Um Presidente como meu Pai, Caroline Kennedy escreveu: "Ao longo dos anos, fiquei muito comovida com as pessoas que diziam querer sentir a mesma inspiração e esperança em relação aos Estados Unidos compartilhadas pela população na época em que meu pai era presidente. Essa sensação é ainda mais forte hoje. É por isso que decidi apoiar um candidato presidencial nas primárias democratas, Barack Obama... Nunca tive um presidente que me inspirasse como as pessoas dizem ter se sentido inspiradas por meu pai. Mas, pela primeira vez, acredito ter encontrado o homem que poderia ser esse presidente - não apenas para mim, mas para toda uma nova geração de norte-americanos".

 

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Com essa declaração, somada ao robusto apoio do lendário senador de Massachusetts Ted Kennedy, morto recentemente, Barack Obama recebeu tanto a bênção quanto a maldição da "mística de Kennedy". De fato, sendo um senador jovem e carismático, de estilo poderoso com as palavras e com um ponto de vista cosmopolita, Barack Obama fez de si mesmo o modelo do verdadeiro sucessor do legado de Kennedy - superando Bill Clinton, que fizera tentativa semelhante durante sua campanha presidencial de 1992. Esse foi um elemento crucial para o sucesso de Obama.

 

A eleição de Barack Hussein Obama para 44º presidente dos Estados Unidos foi muito celebrada no país e no mundo como um acontecimento essencial, possivelmente capaz de marcar época. Ao longo dos últimos quatro anos, Obama passou de astro ascendente do Partido Democrata a um formidável candidato à presidência, tornando-se então um fenômeno político quase impossível de se deter - até finalmente atingir o ápice da política americana como primeiro presidente negro dos EUA. Em todo o mundo, a eleição de Obama foi celebrada como exemplo da possibilidade norte-americana de renovação, além de uma guinada muito bem-vinda em relação à impressão de unilateralismo estridente que atormentara o governo de George W. Bush. Assim, a recepção entusiasmada que o mundo dedicou a Obama foi mais bem compreendida como duas celebrações em uma: as boas-vindas a um novo e dinâmico presidente americano, cujas medidas propostas estão em maior sincronia com a opinião mundial, e um profundo alívio ao ver Bush - e de maneira mais ampla, o Partido Republicano representado por ele - deixar enfim a Casa Branca.

 

Os 33 países em desenvolvimento do Hemisfério Ocidental receberam de braços abertos a eleição de Obama. De fato, não há região do mundo, com exceção da África, em que a eleição de um presidente negro nos EUA guarde maior valor simbólico. A América Latina, com sua própria história de escravidão e racismo, abriga uma grande diáspora africana e até um terço dos 550 milhões de habitantes da região são descendentes de africanos, incluindo uma grande parcela da população brasileira, a maioria dos habitantes do Caribe e comunidades menores nos países andinos e centro-americanos. Somando-se isso ao fato de os países latino-americanos preferirem, em geral, presidentes democratas nos EUA, por motivos tão relacionados à memória de Nixon e Reagan durante a Guerra Fria quanto a qualquer outra agenda política, é fácil ver como a ascensão de Obama foi vista em toda a parte como um acontecimento muito bem-vindo.

 

Obama foi o primeiro senador dos EUA a ser eleito diretamente para a Casa Branca desde a eleição de John F. Kennedy em 1960, e a mística de Kennedy contribuiu para a vitória de Obama. Mas há diferenças importantes entre eles. Apesar de Obama ser três anos mais velho do que era Kennedy quando tomou posse, sua experiência em questões de política externa era consideravelmente menor, com boa parte de sua carreira política dedicada a questões locais de Chicago. Kennedy era um herói de guerra que apoiava o envolvimento no Vietnã, enquanto Obama teve pouco contato com o Exército e foi um dos primeiros críticos da guerra do Iraque. Kennedy era filho de uma família numerosa e de grande poder político, cujos descendentes eram todos preparados para liderar, enquanto Obama era filho único de um casal mestiço e foi criado longe dos corredores do poder. Kennedy era de Massachusetts, um dos Estados mais antigos da união, enquanto Obama cresceu no Havaí, o mais jovem Estado americano. Mas eles partilharam o mesmo talento para a expressão escrita e oral, a mesma paixão pela política progressista e a mesma habilidade natural para liderar - características que lhes permitiram cativar o país e derrotar candidatos mais velhos e experientes.

 

Apesar de a eleição de Obama ter sido celebrada por virtualmente todos os presidentes da América Latina e do Caribe, as respostas específicas refletiram as idiossincrasias de cada país - principalmente no Brasil, onde seis candidatos participando de eleições municipais mudaram seus nomes na Justiça para Barack ou Obama numa tentativa de se aproveitar da popularidade do candidato americano. O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, esquerdista que lustrou suas credenciais de pragmático ao se aproximar do governo Bush, interpretou a eleição de Obama num contexto regional, dizendo: "Assim como o Brasil elegeu um metalúrgico, a Bolívia um indígena, a Venezuela um Chávez e o Paraguai um bispo, acredito que será extraordinário se a maior economia do mundo eleger um negro como seu presidente". Lula propôs depois duas mudanças específicas que ele gostaria de ver implementadas por Obama: o fim dos subsídios americanos à agricultura e a revogação do embargo dos EUA a Cuba. O presidente venezuelano, Hugo Chávez, disse de Obama: "Não pedimos a ele que seja um revolucionário nem um socialista, mas que corresponda às expectativas do momento mundial", acrescentando: "Esperamos que o próximo governo encerre o agressivo embargo e as agressões contra Cuba".

 

Parece irônico que um dos mais duros desafios enfrentados por Obama nas Américas hoje seja como lidar com o regime dos Castros em Cuba - o mesmo que tanto atormentou John F. Kennedy. Cuba representou o local da maior derrota de Kennedy, o fracasso da invasão da Baía dos Porcos em 1961, e também da sua vitória mais conhecida, a solução pacífica para a crise dos mísseis, no ano seguinte. Até o momento, Obama tentou mostrar maior abertura em relação a Cuba, mas continua preso ao embargo americano instalado pelo presidente Kennedy em 1962, apenas um ano após o nascimento de Obama. Fidel Castro, o enfermo ex-presidente cubano de 83 anos, elogiou Obama como "inteligente, educado e ponderado", mas mostrou temer que "preocupações com os problemas mundiais mais urgentes não ocupem um lugar de importância na cabeça de Obama".

 

Hoje, Obama tenta enfrentar uma ampla gama de problemas de importância crítica nos EUA, entre eles a economia cambaleante, as reformas no sistema de saúde e as guerras estrangeiras no Afeganistão e Iraque. Conforme o brilho da mística de Kennedy começa a mostrar seus limites, esperamos que a presidência de Obama se mostre mais duradoura e bem-sucedida para que ele seja capaz de criar a própria magia.

 

*Membro sênior para questões de política americana no centro de estudos Diálogo Interamericano

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