Bavaria Film
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'Berlin Alexanderplatz' ganha reedição em seus 90 anos

Romance épico do alemão Alfred Döblin, que narra a derrocada de um ex-presidiário na República de Weimar, parece tragicamente atual

Gutemberg Medeiros, Especial para O Estado

07 de setembro de 2019 | 16h13

Rainer Werner Fassbinder madurou anos a adaptação fílmica de um romance que mudou a sua vida. O resultado foi a minissérie para a TV alemã com 15 horas de duração (lançada em DVD no Brasil pela Versátil) Berlin Alexanderplatz. Aos 90 anos da primeira edição alemã, esta prosa central do século 20 é republicada dez anos depois da primeira edição pela Martins Fontes em tradução direta do alemão por Irene Aron.

Em texto dos anos 1950 publicado no Suplemento Literário do Estadão, Anatol Rosenfeld fez marcante ensaio sobre romance Berlin Alexanderplatz, a História de Franz Biberkopf, de autoria do médico berlinense Alfred Döblin, com séria ponderação. Pela presença de inúmeros registros entre o alto alemão e o berlinense, a obra é uma polifonia intensa a expressar as amplas proporções da metrópole moderna, mas que, dificilmente, poderia ser vertida ao português. Pena que Anatol não viveu para ler a tradução da professora da USP Irene Aron.

Esta versão tem sabor dos mais relevantes por aludir exatamente à catástrofe da guerra e seus refugiados ao Brasil. Os pais de Irene eram berlinenses e ela cresceu com a linguagem da capital alemã – um dos principais registros linguísticos de Berlin Alexanderplatz, ápice do Expressionismo alemão. O alemão falado em sua casa pelos pais, que deixaram a Alemanha em 1937, e passado às filhas como única língua de comunicação familiar, é o que compõe a obra de Döblin. A linguagem coloquial, as canções, o jeito de falar berlinense com o emprego peculiar de pronomes, as gírias, as expressões em iídiche ou hebraico de uso corrente, tudo isso foi muito familiar, daí certa “facilidade” em transpor para o português.

Esta reedição tem outra característica, negativa, por omitir em seu título a extensão A História de Franz Biberkopf, detalhe preciosista. A segunda metade do título foi proposta pelo editor primeiro – Samuel Fischer, um dos mais importantes da história alemã – e Döblin o adotou prontamente. A sugestão cumpriu o caráter de síntese absoluta da obra: o conflito entre a praça símbolo da metrópole e o personagem – ambos protagonistas e antagonistas ao mesmo tempo. Praça onde o indivíduo é esmagado pela urbe contemporânea, diluído em suas existência e experiências. 

Na Berlim dos anos 1920, Franz Biberkopf cumpre quatro anos de prisão. Berlim se apresenta como pandemônio caótico, completamente hostil. A vertigem das transformações urbanísticas já antecipa a condição social do ex-presidiário na zona de exclusão, o seu “não lugar”. A sua origem é justamente a Praça Alexander, coração da metrópole e povoada de marginais e prostitutas – mundo repleto de sordidez.

O protagonista busca viver sem complicações com a lei, ter pequenos prazeres ou golpes de sorte. Simplesmente não consegue fugir da zona de exclusão social e sempre é emparedado no mundo do crime. O sobrenome Biberkopf pode ser traduzido como “cabeça de castor”. Metáfora do roedor condenado a promover o grande esforço em fazer barragens destruídas pela força da natureza em relação ao “não cidadão” em quedas várias na tentativa inútil de ser alguém “de respeito”.

Walter Benjamin escreveu a resenha A Crise do Romance: sobre Alexanderplatz, de Döblin em jornal diário berlinense quando do seu lançamento. Tornou-se um ensaio canônico sobre a prosa contemporânea. Nele, resume um dos aspectos centrais desta prosa: “O livro é um monumento a Berlim, porque o narrador não se preocupou em cortejar a cidade, com o sentimentalismo de quem celebra a terra natal. Ele fala a partir da cidade. Berlim é seu megafone”.

Benjamin descreve a importância simbólica da Praça Alexander como “o lugar onde se dão, nos últimos dois anos, as transformações mais violentas, onde guindastes e escavadeiras trabalham incessantemente, onde o solo treme com o impacto dessas máquinas, com as colunas de automóveis e com o rugido dos trens subterrâneos, onde se escancaram, mais profundamente que em qualquer outro lugar, as vísceras da cidade, onde se abrem à luz”. A partir daí, enumera os outros ingredientes deste logradouro: os cortiços, a calçada das rondas noturnas das prostitutas e, ao mesmo tempo, bairro comercial habitado pela pequena burguesia. Alexanderplatz é a geleia geral desse país bem como ostenta a marca da modernidade, o eterno construir e destruir de si mesma em moto contínuo.

Este romance avança a tradição da modernidade cujo palco é a metrópole. Tradição construída por Balzac, Baudelaire, Dostoievski, Proust e Joyce. Döblin traz as vozes da modernidade no efeito de colagem com recortes de jornais com noticiário político, artístico, esportivo, local, estatísticas demográficas e econômicas, panfletos de propaganda política, anúncios publicitários, itinerários de transportes coletivos, entre outras do espírito da época, amalgamado com a narrativa e os monólogos interiores dos personagens. O que ficou evidente desde Benjamin é como a linguagem cinematográfica – a montagem – foi importante para compor a tessitura narrativa com estas vozes da cidade moderna. 

Acredita-se que Döblin iniciou a escrever o texto em 1927 e o chamou, desde o início, de “romance berlinense”, sendo lançado em 1929 com tiragem de 10 mil cópias. A crítica reagiu de forma muito negativa, especialmente os marxistas. Mas obteve farta cobertura jornalística e quase virou best-seller. Cerca de 50 mil exemplares foram vendidos em 1933 e, entre 1931 e em 1936, vieram as traduções em holandês, inglês, italiano, espanhol, francês e russo.

O cinema era uma das grandes paixões de Döblin. Ele estava entre os primeiros espectadores dos pioneiros ‘cinematographos’ berlinenses e escreveu sobre eles em jornal diário em 1909, intitulado O Teatro dos Jovens. Em 1924, virou roteirista de filmes. Döblin colaborou com Hans Wilhelm na elaboração do roteiro da adaptação fílmica de Alexanderplatz sob direção de Phil Jutzi, uma das mais bem sucedidas produções do cinema alemão até 1933. A atração do escritor se alastrou também ao rádio, sendo um dos autores alemães que mais contribuíram para a mídia. Por exemplo, trabalhou na adaptação de Alexanderplatz como épico radiofônico.

Cabe destacar que esta tradução histórica não se deve apenas à ascendência da tradutora. Irene Teodora Helena Aron tem sólida trajetória a partir da graduação pela USP nos anos 1960, onde trabalhou por 25 anos, além de vários estágios e estudos desenvolvidos na Alemanha. Entre os autores que traduziu estão Peter Schneider, Bertolt Brecht, Peter Handke e Max Frisch. Grande desafio de sua trajetória foi a versão da parte alemã de outra obra capital do século 20, Passagens, de Walter Benjamin

GUTEMBERG MEDEIROS É JORNALISTA E PESQUISADOR, MESTRE E DOUTOR EM CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO PELA ECA/USP.

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