Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Bernardo Carvalho narra o pós-pandemia em 'O Último Gozo do Mundo'

Era inevitável que a pandemia, com a rapidez da sua expansão e a capacidade inesperada de alterar tudo na vida de todos, provocasse o surgimento de relatos sobre os meses de confinamento

Júlio Pimentel Pinto*, Especial para o Estadão

04 de setembro de 2021 | 15h00

Era inevitável que a pandemia, com a rapidez da sua expansão e a capacidade inesperada de alterar tudo na vida de todos, provocasse o surgimento de relatos sobre os meses de confinamento. Mais do que isso: que a pandemia virasse objeto e até obsessão da produção artística. Aquilo que experimentamos no ano e meio de isolamento, de resto, oferece imenso repertório temático – medos, angústias, insegurança – e um enquadramento social totalmente distinto daquele a que estávamos acostumados: os personagens que somos mudaram suas ações e reações, construíram estratégias improvisadas para (sobre)viver, numa espera que devasta. O presente continuou a ser, para a maioria, a dimensão principal do tempo, mas perdeu sua volatilidade e suposta unicidade: tornou-se pastoso, fragmentário, repetitivo e aparentemente estático.

Quem se dispõe a transformar em arte a fixidez da vida na pandemia enfrenta, porém, um dilema: como fazê-lo sem repetir o que todos já sabem, sem emular o que se lê diariamente nos jornais ou ouve de parentes e amigos distantes, também eles isolados? Como narrar o que todos atravessam, e de forma semelhante?

“O desfecho tem sempre algum poder de revelação retroativa”, explica um personagem de O Último Gozo do Mundo, sintetizando a opção de Bernardo Carvalho no seu livro mais recente: narrar o pós-pandemia, quando a vida não retomou qualquer normalidade e prossegue em suspenso. Na contramão do presentismo a que o confinamento nos condena, o romance privilegia a perspectiva externa, distante, deslocada.

A escolha do futuro como lugar do olhar traz, no entanto, o risco de supor que a narração se resuma ao esforço da lembrança, que contar uma história só seja possível por meio da evocação do vivido, da memória. Mais: que a narração retroativa se acredite de fato reveladora e trate o passado como algo pronto e acabado, unificado e uniformizado. Tal risco é objeto, inclusive, de um dos diálogos mais intensos do livro, entre a socióloga que busca saber o paradeiro do pai de seu filho e o escritor que se isola num hotel para escrever “sobre o que sobrou”. Ele precisa lembrar, mas sabe que literatura não é só memória: seu território (e compromisso) é o da imaginação, e a imaginação pena para brotar num mundo tão reduzido quanto o que a pandemia criou e legou aos sobreviventes.

Bernardo Carvalho contorna também essa armadilha. No romance, tudo é tensão, tudo é indefinição. Algumas pessoas celebram irrefletidamente o fim da pandemia ou optam pelo cinismo. Outras imergem em valores simplistas e absolutos, tão categóricos quanto irracionais, belicosos e incapazes de admitir diferenças: só escutam, no outro, a contradição de suas crenças superficiais. Há ainda aqueles que desejam desfrutar sozinhos do mundo, num anseio incontido de prazer e brutalidade: são simultaneamente pais e filhos da pandemia, levados pela combinação do individualismo atroz com a incapacidade de reconhecer o próximo; sob retórica falseada – tantas vezes religiosa – mantêm-se refratários a todo princípio de humanidade e solidariedade.

Os personagens principais do livro, por sua vez, vagam em busca de respostas. São personagens sem nome – o escritor, a socióloga, o filho, o enfermeiro, o bigodudo, a mãe, o sobrevivente. Tem compulsão de falar, mas lhes falta a voz que permita narrar o horror, o desespero face à morte ubíqua, o desamparo e a orfandade – tanto a real quanto a provocada pela omissão dos poderes públicos. Procuram o tom, o ritmo, a sintaxe, a estrutura e o desenvolvimento do relato. Devem narrar para compreender o vivido, coordená-lo na linguagem para articulá-lo na vida.

Para tanto, querem conhecer o futuro – não o futuro-pós-pandemia em que estão, mas o futuro do futuro, temporalidade que talvez possa libertá-los –, mesmo com a consciência de que precisam compreender o passado e superar o paradoxo de viverem tão encerrados; a consciência de que a vida banal do pré-pandemia assumiu feição de fantasia: um mundo perdido e inacessível, irrealidade cotidiana que insiste em se manifestar.

Por isso, O Último Gozo do Mundo é, a rigor, uma história dos tempos – não o Tempo uno, que Borges chamou de substância formadora dos homens, mas tempos plurais que dialogam entre si, nos formam e transformam ininterruptamente. Tempos pulverizados como as histórias que são contadas ao longo do livro: diferentes umas das outras, episódicas e descontínuas, “capítulos, flashes e cenas que não chegavam a compor um todo.” Cabe ao narrador do romance cruzar esses relatos e organizar suas falas entrecortadas, compor uma lógica e uma linha do tempo, conectar palavras às coisas, proporcionar a quase impossível leitura do mundo. 

O Último Gozo do Mundo talvez seja o primeiro grande romance brasileiro sobre a pandemia, inclusive porque, além de uma história dos tempos, é uma história da literatura, da necessidade, da urgência e dos percalços de narrar. Uma história de todos nós, que compartilhamos aflições e vontades dos personagens e percebemos, afinal, que o que resta – aquilo que pode garantir a sobrevivência – é encontrar uma forma de expressão em meio ao torpor e ao caos. Pela arte, alguma salvação.

*JÚLIO PIMENTEL PINTO É PROFESSOR DA USP E AUTOR DE ‘A PISTA E A RAZÃO: UMA HISTÓRIA FRAGMENTÁRIA DA NARRATIVA POLICIAL’ (E-GALÁXIA, 2020)

 

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