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Bicentenário de Clara Schumann passa sem festa

Os 200 anos de nascimento da compositora e pianista rendem poucos tributos à mulher que se sacrificou pelo marido Robert

João Marcos Coelho, Especial para o Estado

07 de setembro de 2019 | 16h00

Acreditei que tinha talento criativo, mas desisti desta ideia; uma mulher não pode desejar compor – nunca houve nenhuma capaz disso. E eu serei a primeira? Seria arrogância minha acreditar nisso. Meu pai tentou me influenciar neste sentido. Mas logo desisti. Que Robert possa sempre compor, isso sempre me fará feliz”. Esta confissão foi feita por Clara Wieck pouco antes de se casar, em 1840, com Robert Schumann (1810-1856). A desesperança desta mulher, consciente de que tinha igual talento ao piano e compondo, transformava-se na amarga certeza de que não teria a menor chance de se afirmar como compositora. Estava condenada a sustentar com recitais os oito filhos e o marido (ironia, limitado à composição por causa do mau uso de uma engenhoca que prometia melhorar seu desempenho como pianista). Ela nasceu em Frankfurt em 13 de setembro de 1819, há exatos 200 anos. E hoje é lembrada apenas como pianista, mulher de Robert e pivô de um triângulo amoroso platônico envolvendo o jovem Johannes Brahms (1833-1897). A maior parte das econômicas comemorações mundo afora são de pianistas, que acabam misturando, em novas gravações, peças dela com as de Robert. Por aqui, nada.

Com absoluta razão, Charles Rosen (1927-2012), o dublê de pianista e musicólogo, é taxativo em seu monumental livro A Geração Romântica (Edusp, 2000, pg. 864/6): “Clara foi sem dúvida um grande talento, talvez a principal vítima do preconceito do século 19 contra os compositores do sexo feminino, que tem se mantido até os nossos dias (...) suas ambições enquanto compositora foram refreadas por Robert depois do casamento”. E completa: “Ninguém lhe ofereceu propriamente um estímulo, nem mesmo Brahms” (que sempre foi apaixonado por Clara: após a morte dela, em maio de 1896, ele sobreviveu menos de um ano, morrendo em 3 de abril do ano seguinte).

Quando conseguiam colocar no papel suas composições, as mulheres encontraram – e ainda encontram hoje em dia – obstáculos tão grandes para vê-las executadas que historicamente se conformaram com os ditos gêneros menores. Anna Beer, 54 anos, no recente e excepcional livro Harmonias e Suaves Cantos – As Mulheres Esquecidas da Música Clássica (2016, e-book da edição inglesa no Kindle), diz que quando a norte-americana Rebecca Clarke (1886-1979) ganhou um concurso londrino importante de composição com uma sonata para violino e piano em 1919, o júri e muitos especialistas homens especularam se a obra não teria sido enviada com pseudônimo por Ernest Bloch ou Maurice Ravel: “Como era possível que uma mulher fosse autora de uma obra tão consistente e formalmente rigorosa?”

Talvez porque sinta na pele um preconceito semelhante ao de Clara, a jovem pianista negra Isata Kanneh-Mason, 23 anos, dedica-lhe seu recém-lançado CD Romance (Decca), interpretando o único concerto para piano e orquestra da compositora (que deve muito a Chopin) e várias peças para piano solo, incluindo uma encorpada sonata em quatro movimentos. Outro CD recém-lançado, Clara & Robert (Paraty, 2019), da pianista francesa Marie Vermeulin, 35 anos, inclui o ciclo que Rosen considera um dos triunfos de Clara como compositora: as seis peças intituladas Soirées Musicales, opus 6.

É certo, por outro lado, que a convivência do casal com Félix Mendelssohn (1809-1847) levou-a, por exemplo, a compor romances sem palavras. Mas ela dialogava musicalmente em igualdade com todos os famosos acima citados. Só que suas obras só eram tocadas por ela mesma, em suas turnês. Mesmo a publicação era bissexta. Ou seja, devidamente recalcada. 

Um detalhe dá conta das dificuldades de Clara para se impor até em casa como artista (e olhem que ela sustentava a família): apenas em 1853, quando eles se mudaram para Düsseldorf, Clara teve direito a desfrutar de um quarto-estúdio exclusivo. Até então, apenas Robert tinha esta primazia. E tome preconceito. No início de 1842, Clara fez uma turnê por cidades europeias. E levou-o a tiracolo. Robert ainda era mais conhecido como crítico que compositor. Sentiu isso na carne quando foi excluído do coquetel em homenagem a Clara em Oldenburg, após o concerto. Ela foi sozinha à confraternização. Sentindo o golpe, anotou no diário: “Isso me faz pensar se eu deveria colocar meu talento em segundo plano para servi-la como companheiro de viagem. E ela também, será que deveria abandonar a carreira por causa da minha revista e do meu piano?” Noutra anotação, constatou a “situação indigna” de mero acompanhante da esposa pianista. Solitário, abusou do álcool, teve insônia, entrou em depressão.

O diário conjunto que mantiveram desde o casamento funcionava, para ambos, como divã de analista. Ele anotava freneticamente suas sombrias sensações. Clara, por sua vez, passava-lhe pitos severos: “A ideia de que você precisa trabalhar por dinheiro é repugnante para mim”. Clara, ao contrário de Robert, gostava da frase de Goethe segundo a qual a vida de casado não é feita só de poesia, mas também de prosa. Levou o mote tão a sério que parou de compor após o casamento. Sucumbiu ao preconceito.

 

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