Bicho homem

Sentando diante da fera, de um vinho português e uma pescada cambucu num restaurante fino de São Paulo, pergunto a Araquém Alcântara, frequentemente tomado como "o maior fotógrafo de natureza do Brasil", que bicho ele seria se não fosse homem. "Talvez eu desejasse voar", diz, entre mastigadas, embora minutos antes tivesse se definido como um cão indomado. "Mas sinceramente não faço ideia." Eu faço. Araquém seria um híbrido de tatu com pavão. Atarracado, pele torrada de sol, andarilho silente, cavucador obstinado. Majestoso, exibidor de sua imensa cauda em leque feita de fotografias grandiosas e inescapáveis.

Christian Carvalho Cruz, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2013 | 02h11

Aos 62 anos de idade e 43 de carreira, esse peregrino quer é continuar caminhando. "Rondon, irmãos Villas-Boas... Perdoe a imodéstia, mas é a pura verdade: já andei mais do que todos esses caras. Só à Amazônia fui 200 vezes." Tanta andança invariavelmente deságua em livro. Neste fim de ano, ele está lançando dois: Araquém Alcântara (Ipsis), uma pequena joia da Coleção Ipsis de Fotografia Brasileira, e Santos (Terra Brasil), homenagem à cidade onde cresceu, ele que é de Florianópolis, e se iniciou, entre outras coisas, na fotografia. As imagens destas páginas foram retiradas dessas obras.

Como começou sua caminhada fotográfica?

1970, 18 anos, Santos. Eu tinha fumado uma bela maconha santista na praia. Entrei no cinema para uma sessão da meia-noite: A Ilha Nua, do Kaneto Shindo, história de uma família que resolve viver numa ilha estéril. Aqueles remos grandes e vagarosos, aquela faina diária de ir buscar água no continente, o filho que morre afogado... E eu chapado... Foi minha epifania: "Meu Deus, eu posso dizer as coisas que sinto assim, com imagens maravilhosas!". Naquela mesma madrugada peguei uma câmera emprestada e fui com um amigo pra zona. Saindo do Scandinavian Bar, vi uma prostituta num ponto de ônibus. Atravessei a rua erguendo a câmera, naquele gesto típico de fotógrafo suplicando permissão pra clicar. Ela me viu, levantou o vestido e gritou: "Quer fotografar? Fotografa aqui, ó, seu filho da puta". Aí eu cliquei. Essas fotos não existem mais, perdi tudo. Eu era muito doidão...

Você caminha pra fotografar ou fotografa pra caminhar?

Sou um cantador do Brasil. Pego Caymmi, Suassuna, João Cabral, Rosa, Manoel de Barros, ponho essas histórias na alma e ando. A fotografia é a ponte. Quanto mais eu amadureço como ser humano, mais minha fotografia cresce em energia, luz. Ela é um caminho de autoconhecimento. E tem ideologia, utopia. A fotografia é a corda que jogo para atravessar o precipício. A travessia é tudo pra mim.

Parece que hoje as pessoas se interessam mais pelo fim...

Vivemos uma Disneylândia de egos. E quase sempre com imagens pobres. Precisamos acabar com essa era de certos curadores que pensam ter a exclusividade de estabelecer o que é fotográfico ou não. Eu vendo pra caramba. Vendo porque minha fotografia é cativante. Mas alguns críticos desdenham do meu trabalho, dizendo "ah, essas imagens de jacaré de boca aberta, essas revoadas, essas borboletas...", como se fosse uma obra menor porque é "mais fácil". Quando a gente fotografa coloca pra fora o que é, o que come, o que sente, o que dói. E não é só pelo experimentalismo que se faz isso. O Cristiano Mascaro é quem brinca: "Araquém, estamos por fora, completamente ultrapassados. Ficamos nessa de composição, definição, nitidez. Nós temos que desfocar, Araquém! Temos que desfocar!".

Há 43 anos você fotografa bichos e homens. O que eles têm de parecido?

Nada. Os bichos são perfeitos e habitam um território perfeito - ou que era perfeito antes de o homem chegar. O homem é um projeto que não deu certo, não passa de um criador de desertos e insiste em habitar um território feito de poluição, violência e caos. O homem é bruto com a sua espécie, veja o genocídio que cometemos contra os índios. Em vez de buscar harmonia, o homem impõe seu poder e posa no Facebook com as armas na mão e o escárnio de vencedor na cara.

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