The Economist
The Economist

Bienal de Arquitetura de Veneza explora a função do vazio na arte

Pavilhão vazio remente a exposições anteriores realizadas no evento

The Economist

12 Maio 2018 | 16h00

Na Bienal de Arquitetura de Veneza, que começa em 26 de março, o pavilhão britânico será um espaço vazio. Um peculiar mural e a parede de alvenaria farão alusão a mostras passadas, mas haverá muito menos para agradar aos olhos do que as esculturas de metal e as rochas protuberantes de Phyllida Barlow vistas na Bienal passada. Mas longe de oferecer ao visitante uma autonomia interpretativa total, os artistas e curadores se dispuseram a dar ideias sobre o que o esse vazio significa.

A estratégia de desertar o espaço de exposição foi aplicada pela primeira vez por Yves Klein, um dos pais da arte conceitual. Em sua exposição em Paris em 1958 – intitulada concisamente The Specialization of Sensibility in the Raw Material State into Stabilised Pictorial Sensibility (A Especialização da Sensibilidade no Estado da Matéria Bruta em Sensibilidade Pictorial Estabilizada) – a galeria estava vazia, exceto com algumas cortinas requintadas que criavam uma entrada dramática, e um armário. Cada superfície no espaço vazio no interior estava pintada de branco. Klein sustentava que o espaço estava saturado com um campo de força tão tangível que algumas pessoas não conseguiam entrar na exposição “como se um muro invisível as impedisse”.

+++Livros fazem passeio arquitetônico pelo centro de São Paulo

O mais provável é que não conseguiam entrar porque Klein havia feito uma enorme campanha publicitária e três mil pessoas se acotovelaram na rua na abertura da exposição, e até a polícia foi chamada. Como o artista registrou mais tarde em seu diário: “a polícia exigiu uma explicação porque era cobrada a entrada das pessoas para não verem nada. (Algumas pessoas, furiosas por terem comprado ingresso haviam apresentado queixa). E as notícias atraíram visitantes durante todo o tempo em que durou a mostra e o caminho para a celebridade se abriu para Klein. Lembrando hoje da galeria vazia, vemos que há algo presente nela: o perfil midiático de Klein. O único campo de força presente era o gerado pelo seu desejo de notoriedade.

Seu precedente incentivou várias indagações sobre a relação entre o espaço vazio e o artista. Em 1975, Chris Burden desenvolveu um trabalho que chamou de White Light/White Head, em que construiu uma plataforma triangular três metros acima do chão e ali ficou deitado durante 22 dias. Como explicou, “durante o tempo todo não comi, não falei e nem desci. Não via ninguém e ninguém me via”. A ideia, possivelmente, era testar a teoria de que uma galeria pode se tornar magicamente sugestiva com a presença de um artista. O vazio concentra a atenção do espectador no artista, ausente ou não.

+++Arquitetura da Japan House mescla tradição japonesa e modernismo brasileiro

Nos pavilhões de Veneza o espaço vazio tem estimulado o espectador a avaliar as intenções políticas do artista. Em 1993, Hans Haacke e Nam June Paik foram encarregados do pavilhão alemão que fica próximo do parque de exposições Giardini, em Veneza E eles decidiram consignar a origem do próprio pavilhão como uma mensagem codificada da história alemã. Construído em 1938 no estilo neoclássico por Ernst Haiger, arquiteto do Terceiro Reich, o pavilhão foi alvo de ataque e depois ignorado. Haacke e Paik usaram uma britadeira e quebraram todo o piso de mármore, deixando os detritos jogados no chão em desalinho; depois colocaram a palavra Germania na entrada, e em seguida abandonaram o prédio. Como diz Okwui Enwezor, crítico e diretor da Haus der Kunst, um museu de Munique, “o trabalho colocava em dúvida a noção de uma Alemanha como um organismo nacional constitutivo... numa época em que as duas Alemanhas foram reunidas”.

Em 2005, Daniel Knorr, artista romeno, foi contratado para criar uma obra para o pavilhão do seu país. Ele produziu o que chamou de European Influenza, que nada mais era do que fachos de luz e traços de exposições anteriores nas paredes. Como observou a crítica Raluca Voinea, “a primeira sensação que dava era de melancolia, de expectativa, de olhar em duas direções opostas”. A exposição era acompanhada de um livreto que examinava a expansão da União Europeia e seu efeito sobre a cultura romena, incluindo a maneira como a cultura romena iria interagir com a imposição de valores preestabelecidos de fora. Havia no vazio do espaço da mostra uma espécie de impotência diante dessas forças históricas.

No caso do pavilhão britânico, a ideia é que a estrutura temporária seja uma plataforma onde as pessoas podem tomar chá e meditar sobre o significado do espaço vazio. Mas os curadores da mostra, Adam Caruso, Peter St. John e Marcus Taylor prefeririam orientar essa contemplação: eles já listaram vários conceitos que o vazio pode ter, como de “desamparo, reconstrução, refúgio, isolamento do Brexit, colonialismo e mudança climática. Um vazio carregado de significado.  / Tradução de Terezinha Martino

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.