Alabama State Council on the Arts
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Bill Traylor, o ex-escravo americano que virou artista aos 85 anos

Com exposições e leilões, obra do artista vem sendo redescoberta e reavaliada

Robin Pogrebin, The New York Times

02 de novembro de 2019 | 16h00

A atriz Julia Louis-Dreyfus lembra-se de seu pai, William Louis-Dreyfus, xingando ao telefone nos anos 1990, quando um lance seu quase foi superado num leilão de um quadro de Bill Traylor, o artista do Alabama nascido em escravidão que começou a desenhar por volta dos 85 anos.

“Ele acumulou vários deles”, ela disse sobre as obras, que o artista fez usando pedaços de papelão como tela, usando tinta para cartaz, carvão e lápis. “Ele realmente comparava Traylor aos grandes - Giacometti, Kandinsky.”

Quarenta desses quadros de Traylor serão exibidos na terça-feira no espaço de David Zwirner, no Upper East Side, em uma exposição cujos lucros serão destinados principalmente à Zona das Crianças do Harlem, uma organização sem fins lucrativos que busca romper o ciclo de pobreza dos jovens no Harlem central por meio da educação.

A Fundação William Louis-Dreyfus, iniciada por William Louis-Dreyfus em 2013 com a fortuna que ele ganhou como negociante de commodities, já vendeu quadros de Traylor em leilão antes. Em janeiro, Mulher apontando para o homem com bengala custou surpreendentes US$ 396.500 na Christie's, quase 10 vezes a sua baixa estimativa de US$ 40 mil (esses rendimentos também foram em sua maior parte para a instituição de caridade do Harlem).

Mas a fundação queria ter essa venda na Zwirner para reposicionar o artista, transferindo Traylor - que morreu em 1949 - das categorias um tanto limitadas de outsider, autodidata ou folk art para os tradicionais.

“Esperamos que o mercado de arte veja isso como uma grande obra de arte contemporânea e não apenas como uma arte de um excluído, disse Jeffrey Gilman, presidente da fundação. “Dada a posição de Zwirner no mercado de arte contemporânea, esperamos que ele possa apresentar isso a um público maior".

Essa nova contextualização de Traylor já está em andamento, com museus em todo o país buscando uma visão mais inclusiva da cultura visual da América e revivendo histórias negligenciadas de muitos artistas afro-americanos que não receberam treinamento formal.

Traylor recebeu recentemente uma grande retrospectiva Entre mundos: a arte de Bill Traylor - no Smithsonian American Art Museum, que se encerrou em abril. “Ele não é um artista outsider importante", disse Leslie Umberger, curadora do Smithsonian que organizou o show. “Ele é um importante artista americano”.

No início deste ano, a galeria Betty Cunningham, no Lower East Side, apresentou sua segunda mostra de Traylor. E no Museu de Arte Moderna, que reabriu ao público depois de uma substancial renovação e reforma, agora existem cinco Traylors à vista.

Lucas Zwirner, chefe de conteúdo da galeria Zwirner, que selecionou as peças da mostra Traylor (preço entre US$ 60 mil e US$ 500 mil), disse que essa atenção renovada está muito atrasada. “Quando você olha para os azuis e as qualidades gráficas, essas coisas realçam”, disse ele. “Há gravidade, poder, intensidade e visão por trás disso.”

O show inclui exemplos de primeira do estilo de assinatura de Traylor - elegantemente sóbrio, alternadamente dinâmico e elegíaco. Apesar de seu minimalismo, os personagens de suas pinturas e desenhos têm personalidade; seus coelhos, pássaros e cães parecem se mover pelo espaço.

“Eles são quase modernos em composição”, disse Julia Louis-Dreyfus, “e têm uma alegria que me lembra o meu pai no seu melhor.”

O trabalho do artista é aprofundado por sua história singular. Após a abolição, Traylor passou grande parte de sua vida como meeiro e começou a fazer arte apenas aos 80 anos, quando morava nas ruas de Montgomery, Alabama. Seu trabalho foi descoberto em 1939 por outro artista, Charles Shannon, que trouxe suprimentos para Traylor.

Traylor fez sua arte nas costas de embalagens de doces, caixas descartadas e anúncios em vitrines. Embora suas pinturas e desenhos geralmente tenham uma qualidade extravagante, eles receberam informação de temas importantes como linchamento, analfabetismo e Jim Crow South.

“É o único trabalho existente que sobreviveu, feito por uma pessoa nascida escrava”, disse Umberger. “Portanto, é realmente um tesouro de informações dessa pessoa que foi criada para acreditar que não era uma parte legítima da sociedade americana, que na última parte de sua vida decide que fará esse corpo de trabalho que declara sua autoestima e as coisas das quais ele era testemunha.

“Ele não tinha um modelo para o que estava fazendo”, acrescentou Umberger. “Ele pegou um lápis e tentou descobrir por si mesmo o que estava vendo.”

Vários críticos questionaram a motivação por trás do status glamoroso, quase heroico, concedido hoje a Traylor por negociantes de arte, curadores e críticos, o que aumentou os preços em leilão. Observando que os “temas desenhados e pintados de Traylor exalam uma notável exuberância”, G. Roger Denson, escrevendo no The Huffington Post em 2013, acrescentou: “Também podemos considerar o mesmo bom humor a facilitar a consciência dos colecionadores liberais brancos ao oferecer nenhuma ameaça de acusação para as injustiças sociais perpetuadas contra os negros.”

As obras da exposição Zwirner estavam entre o total de cerca de 4.000 peças da coleção de William Louis-Dreyfus, incluindo exemplos de artistas como Jean Dubuffet e Helen Frankenthaler, muitos dos quais estão em um armazém de suprimentos elétricos convertido, com qualidade de museu, em Monte Kisco, Nova York, que é aberta ao público mediante agendamento.

Louis-Dreyfus, que morreu aos 84 anos em 2016, era o tipo de colecionador que comprava o que amava, e não o que o mercado ou o establishment da arte consideravam valioso, disse sua filha.

“Ele não encarou a coleção de arte como um patrimônio”, disse Julia Louis-Dreyfus, que em 2015 fez um documentário privado sobre o pai e sua coleção. “Seu motivo era buscar pela boa arte, ponto final.”

Seu pai tinha um interesse particular por artistas autodidatas, que também incluíam Thornton Dial, Nellie Mae Rowe e James Castle.

“Ele achava que era uma arte excelente que não fora descoberta nem apreciada”, disse Gilman.

Como muitos colecionadores de tais obras, William Louis-Dreyfus evitou o termo “arte outsider” considerado condescendente, disse sua filha.

“Isso tem mesmo uma conotação pejorativa”, disse Julia Louis-Dreyfus, que é mais conhecida pelas comédias de televisão Veep e Seinfeld. "Estou muito feliz que esteja atraindo a atenção para Traylor”.

Em 2015, a fundação anunciou que o produto da venda de coleções seria doado à Harlem Children's Zone, a organização que inspirou William Louis-Dreyfus. “Eu sou um patriota americano - eu amo este país - então eu odeio todas as suas nódoas, e a maneira como se trataram os homens negros tem sido uma grande nódoa por centenas de anos, que continua até hoje”, diz William Louis-Dreyfus no documentário.

“Há algo terrivelmente natural, absolutamente certo, em fazer com que a coleção de Bill Traylor se transforme em dinheiro para seus descendentes”, acrescentou, referindo-se aos alunos da Zona. “Eu acho que ele teria ficado - ou ele está - encantado com isso. E eu também estou”.

Geoffrey Canada, fundador e presidente da Zona, disse que a venda do trabalho de Traylor parecia especialmente adequada para ajudar as crianças no Harlem. “O que poderia ser mais adequado do que esse trabalho para ajudar uma geração de crianças?”, Ele disse.

"É incrível tentar imaginar o que esse homem passou, mas ele ainda produziu obras de arte que clamam humanidade, beleza e promessa de vida”, acrescentou Canadá.

Tradução de Claudia Bozzo

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