National Maritime Museum
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Biografia de Galileu Galilei mostra o perigo do obscurantismo

Vida do fundador da ciência moderna é um exemplo de como a oposição entre razão e fé é perigosa

Stephen M. Barr*, The Washington Post

27 de junho de 2020 | 16h00

O “processo Galileo” continua a fascinar e a provocar depois de 400 anos. Sob um aspecto foi um caso simples e, ao mesmo tempo, muito complicado. Simples quanto ao seu resultado. O grande fundador da ciência moderna foi julgado, declarado culpado e condenado à prisão domiciliar perpétua pela Igreja Católica por defender a ideia de que a Terra gira em torno do Sol, e foi forçado a se retratar sob juramento. Este crime contra a liberdade de pensamento, pesquisa e consciência nunca deixou de chocar.

A questão complicada é como e porque isso ocorreu. Não foi inevitável. Santo Agostinho já alertava eloquentemente no século 4 contra a interpretação das Escrituras contrariamente ao que se sabia com certeza por meio da razão e da experiência. Este era um princípio bem estabelecido, aceito pelo Cardeal Bellarmine, o maior teólogo da igreja, que reconheceu numa famosa carta a um dos amigos de Galileo que “se houvesse uma real demonstração de que a terra gira em torno do Sol, então seria necessário explicar com muito cuidado as Escrituras que pareciam mostrar o contrário, e é preferível afirmar que não as entendemos em vez de dizer que o que está demonstrado é falso”.

O processo de Galileo envolveu uma interação de ideias científicas antigas e novas, exegese bíblica, posições filosóficas e teológicas arraigadas, batalhas intelectuais, rivalidades acadêmicas, personagens falaciosos, choques de personalidade e política eclesiástica e secular, tudo isto transcorrendo por duas décadas no clima febril da disputa entre a Reforma e a Contrarreforma e a Guerra dos 30 Anos. 

Poucos episódios históricos são mais repletos de sutilezas, ironias e ambiguidades como este. Para relatá-lo adequadamente é necessário possuir um conhecimento fora do comum e o dom de um grande narrador. Felizmente Mario Livio está bastante equipado para realizar a tarefa. Em Galileo: And the Science Deniers, seu domínio não só da ciência, o que é esperado de um astrofísico, mas do contexto histórico e cultural, é impressionante. E impressiona ainda mais é a sua compreensão relativamente sofisticada dos argumentos e temas teológicos.

Para dar um exemplo, ele identifica cuidadosamente como um erro crucial a interpretação abrangente do Cardeal Bellarmine de uma regra estabelecida pelo Concílio de Trento para enfrentar o desafio do protestantismo. A regra proibia a interpretação de passagens da Escritura de maneira contrária ao consenso dos primeiros pais da igreja “em assuntos de fé e moral”. Galileo, de modo muito racional, argumentou que, como a astronomia não pertence à fé ou à moral, a leitura literal pelos pais fundadores da igreja de algumas passagens não precisava ser seguida. 

Mas Bellarmine rejeitou esta afirmação, usando um argumento circular. Simplesmente adotou a interpretação mais literal daquelas passagens, que logicamente sugeriam que as noções astronômicas implícitas nelas eram interpretadas oficialmente pela Escritura e, portanto, “eram questões de fé”, e isto exigia que fossem interpretadas literalmente nos termos do decreto de Trento. Livio corretamente qualifica este equívoco de Berllarmine de uma “bomba” teológica. O literalismo extremo que ele forçou não constava de uma regra da igreja anteriormente e nem depois.

Mesmo assim, uma prova do movimento da Terra teria forçado uma leitura menos literal, como Bellarmine reconheceu. Infelizmente ela era inviável naquela época. Galileo tinha prova, a partir das suas descobertas telescópicas, de que a teoria geocêntrica de Ptolomeu, no século 15, estava errada, o que foi rapidamente confirmado pelos astrônomos jesuítas do Collegio Romano e outros, e a teoria de Ptolomeu foi abandonada. Mas as descobertas de Galileo não foram suficientes para provar que a tese de Copérnico era correta e que a Terra movia porque havia uma terceira teoria respeitável no mercado, proposta anos antes pelo grande astrônomo dinamarquês Tycho Brahe.

No modelo de Tycho, os planetas giram em torno da órbita do Sol, mas o Sol gira em torno da órbita de uma Terra parada. Este modelo era perfeitamente coerente com todas as observações daquela época. Ele evitava não apenas problemas com a Escritura, mas também era uma objeção importante à teoria de Copérnico, ou seja, a falha em ver a “paralaxe estelar (os leves deslocamentos aparentes de estrelas distantes que seriam causados pelas mudanças de posição da Terra à medida que orbita em torno do sol). Este efeito só foi observado em 1838.

O debate científico entre os defensores dos modelos de Copérnico e Tycho continuou muito tempo depois da morte de Galileo e envolveu argumentos científicos sofisticados de ambos os lados. Um consenso científico definitivo de que a Terra se movimenta só ocorreu quando Isaac Newton descobriu as leis da gravidade e do movimento no final do século 17.

Quase no final do seu livro e em muitos parágrafos, Lívio traça paralelos entre os oponentes de Galileo e os “negadores da ciência”, que é o subtítulo do livro, que são os antievolucionistas. os fundamentalistas e os céticos do aquecimento global. E, ao contrário dos que hoje negam a tese evolucionista, dos que estão fechando bem os seus olhos para evidências irrefutavelmente científicas, os defensores da tese de Ptolomeu a abandonaram imediatamente quando confrontados com as descobertas de Galileo, que passaram a adotar. A teoria de Tycho, que era bastante viável e cientificamente respeitável até Newton, foi abandonada.

O fato de Livio enveredar ocasionalmente para a didática, mesmo para a homilética,  pode desviar a atenção ou irritar alguns leitores. O que não diminui o valor do livro, que narra a história de Galileo de uma maneira perceptiva, esclarecedora e equilibrada.

Tradução de Terezinha Martino

Barr é professor emérito de física de partículas na universidade de Delaware e presidente da Sociedade de Cientistas Católicos

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