Editora 34
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Biografia de Roland Barthes trata de questões polêmicas da vida do intelectual

Biógrafa Tiphaine Samoyault fala da homossexualidade e das suas discordâncias com o Partido Comunista francês

Paulo Nogueira*, Especial para o Estadão

18 de setembro de 2021 | 15h00

Quem diria: os ativistas que tanto cancelam a França por causa da respectiva agenda são ideologicamente fertilizados por luminares franceses – Foucault, Derrida, Deleuze, Lyotard – todos já mortos e enterrados. Isso quando Paris, depois de séculos passando o rodo no glamour intelectual (com Voltaire, Hugo, Sartre, Camus, Beauvoir), hoje vê sua intelligentsia à míngua de charme, se não de massa cinzenta. 

Quando o jovem André Gluksmann promoveu a reconciliação pública entre Sartre e Raymond Aron, em 1979, o cachimbo da paz foi fumado em pleno Palácio do Élysée, sob o olhar embevecido do presidente Giscard D”Estaing. Já quando outro dia a colunista Eugénie Bastié perguntou ao historiador Pierre Nora o que achava da vida intelectual francesa, ele grunhiu: “Que vida intelectual francesa?”

Até os últimos franceses Nobel de Literatura (Claude Simon, Go Xinjan, JMG Clézio, Patrick Modiano) são pequenos se comparados aos antecessores (Romain Rolland, Anatole France, Camus, Sartre). O único ficcionista francês contemporâneo de impacto internacional é Michel Houellebecq, um misantropo cujos protagonistas adoram odiar. E tem toda razão Tiphaine Samoyault, autora da biografia Roland Barthes (a partir de agora, RB): “Quem lamenta que não existam mais ‘grandes pensadores’, ignora que a promoção desses modelos não depende apenas de suas qualidades, mas da escolha de uma sociedade em se identificar com eles.” 

Esta biografia começa pelo fim: a morte do biografado. Uma morte besta: RB vinha a pé de um almoço com François Mitterrand (outro presidente) e foi atropelado pela caminhonete de uma tinturaria. Sobreviveu um mês, sem dar um pio. Morreu em 26 de março de 1980.

Como duas de suas supremas influências, Proust (que doou a um bordel gay a mobília da mãe assim que esta morreu) e Sartre (que, também órfão precoce de pai, disse: “Não tive complexo de Édipo”), RB era apaixonado pela sua genitora, com quem morou 60 anos. Quando Marguerite Duras criticou a obra dele, “por lhe faltar a experiência mais antiga da vida, o conhecimento sexual de uma mulher”, RB rugiu: “Conheci o corpo de minha mãe doente, e depois agonizante.” De luto, Barthes fez terapia com Lacan, mas não quebrou o galho: “Éramos um velho idiota com um velho imbecil.”

RB nasceu em Cherbourg, mas lembra Clarice Lispector e a Ucrânia: “Literalmente não coloquei os pés ali, pois saí de lá aos dois meses.” Em Paris, um dos primeiros mentores de RB foi André Gide, sobre escrita e piano, “sem levar em conta o resto”. O resto era o armário – RB e a mãe jamais tocaram no assunto. Em Corydon, Gide foi um pioneiro literário na homossexualidade assumida. Como comentou estarrecedoramente o escritor François Mauriac: “Muitos desses doentes que não se conheciam, hoje se conhecem graças a Gide. Muitos, que se escondiam, não mais se esconderão.”

Depois da 2ª. Guerra, Sartre é o Zeus do Olimpo intelectual. RB dedicará a Sartre um de seus últimos livros, A Câmara Clara (em que analisa fotografias da mãe). Outros parçeiros foram Julia Kristeva e Phillipe Sollers, fundador da revista literária de Tel Quel – ambos ainda vivos e casados. É ela que apresenta a Barthes a obra do russo Mikhail Bakhtin, uma referência decisiva. 

Por fim, Michel Foucault, que RB conhece nos anos 1950 e que o convida para uma palestra na universidade de Upsala, onde o autor de A História da Loucura lecionava. Ambos eram baladeiros (RB cai na gandaia todas as noites, até o atropelamento) e consta que a estadia sueca foi uma espécie de rave com miolos – RB circulando alegremente no Jaguar bege de Foucault. Frequentaram as boates gay de Montmartre, e juntos fizeram turismo erótico em Marrocos. Foucault apadrinhou a eleição de RB para o excelso Collège de France. Os dois morrem no mesmo hospital – Foucault quatro anos depois. 

Um episódio sugestivo foi a viagem chinesa de RB. Barthes era de esquerda, mas considerava o PC francês (stalinista até à raiz dos cabelos) “desprezível”. Em 1974, RB e uma trupe de intelectuais toparam o convite de Mao, e desembarcaram em Pequim na última fase da Revolução Cultural. Uma visita seletiva: “Eles nos mantém gentilmente afastados do que se passa aqui.” No final, RB passará um pusilânime pano: “A China é tranquila.” Milhões de pessoas, muitas delas intelectuais, tinham sido perseguidas e assassinadas – e continuariam a ser, até a morte de Mao em 1976.

Em 1983, a organizadora do piquenique chinês, a italiana Maria-Antonieta Macchiochi, compareceu a Apostrophes, de Bernard Pivot, o programa cultural mais chique da TV mundial. Outro convidado era o polímata belga e um dos maiores sinólogos, Simon Leys (quando ele será editado no Brasil?), que já em 1971 publicara A Roupa Nova do Presidente Mao, denunciando os crimes maoistas e a hipocrisia dos tietes ocidentais do Grande Timoneiro. Macchiochi desandou a pontificar liricamente sobre a China. Leys respondeu na lata, espinafrando os erros factuais da interlocutora. Hoje já não se discute quem tinha razão nesse arranca-rabo. 

Apesar das derrapagens, o legado de RB é robusto. Primeiro pela paixão – correspondida – dele pela literatura. Ao comentar o livro Roland Barthes por Roland Barthes, o romancista Robbe-Grillet nota: “Barthes é diferente do crítico estrito – é um escritor.” O que recorda por um lado o mantra desconstrucionista “da morte do autor”, pois “interpretação é literatura”. E por outro o gemido de George Steiner: “Quem seria crítico, se pudesse ser escritor?” Roland Barthes por Roland Barthes é o que hoje chamamos de autoficção, como a epígrafe entrega: “Tudo isso deve ser considerado como dito por um personagem de romance.” O conceito seminal de RB é o prazer do texto” – na escrita ou na leitura, já que todo leitor é um coautor.

RB era um exímio estilista, embora às vezes patinasse no cabotinismo (mas sem o hermetismo quase histriônico de um Derrida). E craque em epigramas. Sobre a cozinha japonesa: “Nela, a única operação que os alimentos sofrem, de fato, é a de serem cortados.” Sobre o sexo: “No Japão, a sexualidade está no sexo, não em outra parte; nos EUA é o contrário: o sexo está em toda parte, exceto na sexualidade.”

E há o ethos hermenêutico de RB: prismático e irredutível, que aflora no duradouro conceito de “neutralidade”. RB postulou que guardar segredos é o próprio mecanismo de nossa vida: sermos “respeitáveis” aos olhos dos outros, e “coerentes” aos nossos. Em 1978, deu um curso no Collège de France sobre O Neutro, abordando práticas pelas quais as pessoas escapam às questões polarizadoras, e alguns lugares, reais ou imaginários, nos quais se refugiam. São momentos do cotidiano através dos quais, nos esquivando ao recrutamento para alistarmos nas fileiras altruístas, permitimos que os seres vivam decentemente uns com os outros. Não significa se empoleirar em cima do muro – uma omissão que, em Mitologias, RB reprovara como “a crítica nem, nem” (nem contra nem a favor). RB invoca “um estado intermediário”: “Pegamos educadamente o panfleto dos missionários ou murmuramos ‘hmm’ recatadamente para um amigo moralizador.”

RB realça que “a tradição ocidental torna o conflito um valor” – da competição capitalista à luta de classes marxista. Nossos heróis são o guerreiro, o empreendedor e o ativista – já a neutralidade parece fria, débil e suspeita. Preconizou o espaço neutro que o próprio Foucault (que adorava inventar palavras pomposas de origem grega) chamou de “heterotopias”. Como indicou Blake Smith, RB investiu nesse espaço o desejo e a criação, citando a ideia de Virginia Woolf: um quarto só seu. Para RB, tal introspecção era não uma patética torre de marfim, mas uma via acessível a todos, contra “o cardume de peixes” no qual as diferenças individuais são aniquiladas. É como já dizia Aristóteles: só há conceito no geral, mas só existência no particular.

Uma banana para os conflitos intoleráveis e as reivindicações intolerantes, um lugar onde os imperativos dos profetas e dos políticos podem ser pelo menos adiados. É “uma possibilidade momentânea de calar”, uma luta pela liberdade, e não uma nova demanda do mundo. E nos permitimos estar incertos – isto é, neutros – sobre o valor dos objetivos brandidos, em toda a nossa estranheza individual. 

A militância contemporânea por vezes se inspira num ideal impossível de indivíduos perenemente translúcidos e compreensíveis, que se encaixam como uma luva em lados e categorias. Para RB, fingimos ser essas pessoas, que nunca poderemos ser. Na época da viralização monetizada, dos reels e das selfies, em que se exige representação e visibilidade de cada cantinho de nós mesmos, Barthes continua da hora. Da hora H, transfigurando até o armário num playground. 

*PAULO NOGUEIRA É AUTOR DE ‘O AMOR É UM LUGAR COMUM’ (INTERMEIOS)

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