Museu Nacional de Belas Artes
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Biografia do pintor Guignard é quase um romance

Livro do jornalista Marcelo Bortoloti reconstitui trajetória do pintor a partir de migalhas, pois grandes obras suas sumiram ou foram destruídas

Matheus Lopes Quirino&, Especial para o Estadão

11 de setembro de 2021 | 15h00

A vida do mestre da pintura Alberto da Veiga Guignard não merecia menos que um romance. É justamente esse cruzamento de gênero que marca sua recente biografia, Guignard – Anjo Mutilado, do jornalista Marcelo Bortoloti. Embora muitos registros dessa vida tenham se perdido com o tempo, a narrativa triunfa, mesmo quando episódios nebulosos são reconstituídos a partir de migalhas do passado, pois até grandes obras do pintor sumiram ou foram destruídas. A biografia de Bortoloti reconstitui essa trajetória nos períodos anteriores a Minas Gerais, terra em que viveu até o fim. Pensa-se em Guignard sobretudo como um artista mineiro pelas famosas telas das montanhas de Minas, em que o pintor flertava com o onírico. Mesmo sua fala mansa e o amor por Ouro Preto contribuem para uma imagem popular não muito fiel, desconsiderando as dificuldades pelas quais passou como artista visto como marginal – ele era dependente de álcool.

O esmero para conseguir preciosidades envolveu cenas muitas vezes incertas pertencentes a um passado recente, o início do século 20. No livro, se vêque a juventude nômade e os ecos da infância ressoam na pessoa de Guignard até sua morte, em 1962. Nascido em Nova Friburgo, região serrana do Rio de Janeiro, Guignard morou, por pouco tempo, na mansão vizinha dos fundos do Palácio Imperial de Petrópolis. É da cidadezinha que o pintor levou consigo uma das cenas mais representadas em suas telas, as festas juninas.

Das lembranças que ficaram do pai, se impõe a dos balões coloridos que cortavam o céu limpo de Petrópolis. Uma cena prosaica, de rara beleza, que impressionou o menino com vocação para a pintura.

Resquício provável, como sugere o autor, do tronco paterno. Seu avô, o francês Charles Guignard, era uma espécie de “coiffeur” da aristocracia na então capital federal. Nascido com lábio leporino, ele preservou o afeto e atenção do pai e o amor materno de Leonor, antes das aventuras da mãe no segundo casamento. Guignard foi uma criança solitária, que logo cedo aprendeu com a dor, sendo submetido a operações medievais que pouco adiantaram na correção da deformidade no lábio. Ao longo da vida, o traço físico tomou contornos dolorosos em suas relações, principalmente com as mulheres.

Rejeitado no campo sentimental, com um traumático e breve casamento na Alemanha, Guignard desenvolveu um ideal platônico de contemplação do sexo feminino, também realçado em suas pinturas, principalmente quando se nota os lábios avermelhados das garotas que posaram para o pintor em sua fase mais madura.

Consciente de suas limitações na fala, ele se acanhava diante das musas que elegeu, revelando na pintura reflexos desse estado de amor não declarado. Manteve correspondência com amigas, dando-lhes desenhos, telas e por vezes inserindo a veia sentimental em suas composições, como quando homenageou a jovem Amalita, vizinha que morava ao lado do Palácio do Catete, em uma das cenas bíblicas em que pintou. No livro, Bortoloti reconstitui com habilidade de um cronista social da época a amizade ambígua que teve com a poeta Celina Ferreira.

Não é exagero dizer que Anjo Mutilado, epíteto a ele atribuído por Manuel Bandeira, faz justiça tardia a Guignard. Tendo em vida atingido a glória já de cabelos brancos, a trajetória do pintor que trafegou entre o luxo e a miséria humana – sempre com ingenuidade – ganha contornos profundos, a partir de análises do comportamento do artista por amigos e admiradores.

Contemporâneo de Portinari, Guignard viveu à sombra do pintor modernista, mas não era homem de rancores. Do burburinho e festa, claro, preferia a bebida. Aprendeu a viver na penúria, morou por muito tempo nos fundos de uma pensão e chegou a pintar em troca de bebida. Na contramão do pedantismo academicista, Bortoloti mescla uma narrativa romanceada para tratar a pintura do mestre, sempre amparado na crônica social.

*MATHEUS LOPES QUIRINO É JORNALISTA E EDITOR DA REVISTA DIGITAL DE LITERATURA 'FINA'

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