Filip Miller/Reuters
Filip Miller/Reuters

Biografia exalta pensamento livre da poeta polonesa Wislawa Szymborska

Vencedora do prêmio Nobel de Literatura integrou uma fabulosa geração de autores poloneses como Czeslaw Milosz, Zbigniew Herbert, Tadeusz Rózewicz

Paulo Nogueira, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2020 | 16h00

Na esplêndida biografia de Sylvia Plath, Janet Malcolm confessou que o biógrafo é como o ladrão profissional: invade uma casa, vasculha gavetas onde acha que estão as joias e a grana, e dá no pé com o butim. Para Malcolm, biógrafos e leitores de biografia são igualmente culpados de voyeurismo: se esgueiram na pontinha dos pés pelos corredores alheios e espiam pelo buraco da fechadura. 

Ora, Quinquilharias e Recordações, a biografia da poeta polonesa Wislawa Szymborska (Z), por Anna Bikont e Joanna Szczęsna, é casta mas não puritana (embora a biografada salivasse por “malícia espirituosa”). A primeira frase do livro já põe os pingos nos is: “Szymborska não gostava de intromissões, mesmo que elas fossem do Além”.

A poeta nasceu em Kornik, em 1923, morou em Torun (terra natal de Copérnico) e a partir dos oito anos viveu em Cracóvia. Publicou a primeira obra em 1952, um ano antes da morte de Stalin. Integra uma fabulosa geração de poetas poloneses, como Czeslaw Milosz (Nobel 1980), Zbigniew Herbert, Tadeusz Rózewicz. 

Talvez por aquela linhagem ilustre, talvez por pirraça ideológica, quando Z ganhou o Nobel em 1996 houve dois tipos de picuinhas na Polônia. Segundo uns, o prêmio não era tanto para ela como para aquele timaço de bardos (quando o espanhol Vicente Alexandre foi nobelizado, também resmungaram que o mérito era da Geração de 27). Para outros reclamões, Z nem merecia a distinção, por causa dos panegíricos de juventude a Stalin (como no caso do também espanhol e Nobel, Camilo José Cela, acusado de benevolência com o Franquismo). 

Ao ser informada do Nobel, Z foi Z. Reconheceu a proeminência dos seus pares, e ciciou: “Assim como todos meus excepcionais predecessores, não tenho prática no recebimento do Nobel.” E, no agradecimento oficial em Estocolmo, perante o rei da Suécia: “Ao que parece, a primeira frase de um discurso é sempre a mais difícil. Pois bem, essa já deixei para trás...”

A discrição em pessoa, Z nunca fez uma contrição política bombástica como a de Gunter Grass (para continuar com nobelizados). Só se desligou do Partido Comunista em 1966, quando da expulsão do PC do filósofo Leszek Kolakowski, banido da Universidade de Varsóvia e proibido de lecionar no país. Por sua vez, Z foi imediatamente demitida da revista Vida Literária, cuja seção de poesia editava há 14 anos. Depois, evocou: “Todos nós desperdiçávamos nossa imaginação (nossos melhores anos no desenvolvimento de um autor) produzindo panfletos de propaganda, sem perceber que destruíamos alguma coisa dentro de nós”.

Z recolheu-se a uma espécie de individualismo compassivo mas crítico (que esta biografia evoca com minúcias de ourives) – que a impediu, por exemplo, de se filiar ao sindicato Solidariedade na década de 80. Mas, como ela frisou, já desde 1956 não escreveu nenhum poema do qual teria de se envergonhar. “Reabilitação”, por exemplo, não é uma expiação virtuosa, mas uma amargura pungente: “A mentira não tem pernas curtas. É célere como uma gazela. É a verdade que se arrasta atrás da mentira com suas perninhas de tartaruga, com seus documentos, retificações e nuances.”

O período stalinista foi trágico, mas não inútil: “Não considero aqueles anos como perdidos. Eles acabaram por me proteger para sempre de todas as doutrinas que libertam as pessoas da obrigação de ter pensamento independente. Sei como é isso: perceber só aquilo que se deseja perceber, ouvir apenas aquilo que se deseja ouvir e suprimir todas as dúvidas. Quando eu ainda achava que sabia e compreendia tudo, era muito mais vulnerável e instável do que hoje, quando o que sei com certeza posso contar nos dedos de uma só mão.»

Um antídoto de Z, na vida e na obra, foi o humor (autores favoritos: Montaigne, Thomas Mann e Mark Twain). Teve tempo de repudiar a obscenidade narcisista das redes sociais: “Ao contrário da moda atual, não considero que todos os momentos vividos juntos sejam apropriados para venda. Afinal, apenas metade deles é de minha propriedade.” Na Rússia, foi traduzida pela grande Anna Akhmatova (no Brasil, por Ana Cristina César). E outro tradutor russo definiu Z na lata: “Uma prodigiosa poeta, mas uma pessoa normal.”

Z era uma poeta culta, mas nunca obscura. Como ela observou a respeito de outro escritor: “Há pessoas que são viciadas em mau humor. Graças a este autor, estão se reabilitando.” Podia ser Woody Allen, a quem admirava: “Gente com quem gostaria de conviver: Václav Havel e Jane Goodall e Woody Allen”. Z até desferiu uma canelada nas memórias de Mia Farrow: “Admito que esperava mais classe da parte dela.” 

A “normalidade” desta escritora genial mas jamais cabotina incluía o apreço por filmes de terror, e, talvez ainda mais horripilante, a novela “Escrava Isaura”. Tanto Z como seu parceiro, o estupendo contista Kornel Filipowicz, eram tietes da sofrência excruciante protagonizada por Lucélia Santos: “Todos em Cracóvia sabiam que não se podia marcar nada com eles na hora da novela. Quando ela acabou, ficavam dizendo que ‘a vida perdeu o sentido’”. 

Esta biografia reproduz tantos poemas que é quase uma antologia. A poesia de Z destila uma sensibilidade de sismógrafo, porém nunca sentimental, por vezes de uma angústia serena. Uma lírica enganosamente simples, de versos livres (sem restrição métrica), irônica e cotidiana, decantando mais a perplexidade e o assombro do que convicções e pirotecnias retóricas. Celebrava (mas também temia) o imponderável heraclitiano: “Nada acontece duas vezes/nem acontecerá. Eis nossa sina/Nascemos sem prática/e morremos sem rotina.”

Ela própria forneceu a receita da especialidade da casa: "O poeta pode ter completado sete faculdades — no momento em que se senta para escrever, o uniforme do racionalismo começa a apertar nas axilas. Ele se remexe todo e bufa, desabotoa botão por botão, até que por fim salta da sua roupinha, revelando-se para todo mundo como um selvagem nu com uma argola no nariz. Sim, um selvagem, pois como é que podemos chamar uma pessoa que conversa com os mortos e não nascidos, com as árvores, os pássaros e até com o lustre e a perna da mesa. O poeta não consegue manter o passo, o poeta vem se arrastando na retaguarda. Em sua defesa, pode-se dizer apenas isto, que afinal alguém precisa vir se arrastando na retaguarda. Ainda que apenas para recolher as coisas pisoteadas e perdidas na triunfal marcha das verdades objetivas". 

E a poesia deve ser missionária e militante? “Não creio que ela possa mudar o mundo. É claro que é preciso fazer de tudo para isso, mas o cosmos se governa por leis que não têm nada a ver com os poetas. Os verdadeiros autores do mal, que existem e continuarão a existir na Terra, não leem poesia.”

Z não se considerava feminista: “Sei que é uma corrente necessária, mas preferia não seguir nenhuma corrente. Sinto empatia também pelos homens, eles também têm seus estresses, medos e coerções, e às vezes, esposas venenosas em casa.” Porém não confundia alhos com bugalhos: “Os anos de terror stalinista introduziram uma igualdade temporária para as mulheres, mas exclusivamente no cadafalso. Depois, novamente, as antigas vantagens masculinas faziam acompanhamento à ‘fraqueza’ feminina. O homem tinha pontos de vista — a mulher tinha apenas seus caprichos; a contrapartida de sua vontade forte era sua teimosia de mulher, sua precaução — seu interesse calculista, e em situações nas quais o homem era reconhecido como um tático capaz, a mulher permanecia sendo uma intrigante.”

Z morreu em 9 de fevereiro de 2012. Anos antes, havia escrito um pseudo-epitáfio: “Antiquada como uma vírgula, aqui jaz a autora de uns versos. A terra se apraz em lhe dar o descanso, apesar de a finada de grupos literários não ser afiliada.” Nos alto-falantes soava a canção Black Coffee, com Ella Fitzgerald, que Z amava e sobre quem conseguiu escrever apenas em seu último livro: “Rezava para Deus/rezava com fervor/ para que fizesse dela/uma menina branca feliz.”

Pergunto-me o que Z diria da pandemia, e da ideia de que a calamidade nos tornará mais sensatos e honestos. Aposto o pescoço que duvidaria disso, mas ficaria satisfeita se com a Covid 19 pelo menos assumíssemos a fragilidade da existência. Pois, como escreveu, “Não há vida/que pelo menos por um momento/não tenha sido imortal.”

*PAULO NOGUEIRA É AUTOR DE 'O AMOR É UM LUGAR COMUM' (INTERMEIOS)

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