Photo Courtesy Warner Bros/Reuters
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Biografia mostra como Stanley Kubrick era maníaco por controle

Livro de David Mikics não se interessa tanto em contar a vida do cineasta, mas analisa sua filmografia

Dwight Garner, The New York Times

15 de agosto de 2020 | 16h00

Pauline Kael não era fã dos filmes de Stanley Kubrick. Ela criticava seu "caráter ártico". Ela comparou Laranja Mecânica ao trabalho de um professor teutônico. Em sua crítica de 2001: Uma Odisseia no Espaço, ela escreveu: “É um mau, péssimo sinal quando um diretor de cinema começa a considerar a si mesmo como um criador de mitos”.

Não faço parte daqueles que veneram Kubrick, mas o animus de Pauline sempre me surpreendeu. Afinal, ela é a crítica que escreveu, em uma rejeição ao filme de Rob Reiner de 1986 Conta Comigo, "Se há algum teste que pode ser aplicado a filmes, é que os bons nunca fazem você se sentir virtuoso." Uma pessoa que se sente virtuosa depois de assistir a um filme de Kubrick deve ser proibida de possuir instrumentos cortantes.

Stanley Kubrick: American Filmmaker (Stanley Kubrick: o cineasta americano, em tradução livre) de David Mikics é um livro interessante e cerebral sobre um talento interessante e cerebral. Esta não é uma biografia completa - já há várias a respeito de Kubrick - mas um estudo rápido de seus filmes, com o suficiente da vida do cineasta inserida para adicionar contexto, bem como brilho e frescor.

Mikics é um professor de inglês na Universidade de Houston e colunista da revista Tablet. Seu livro faz parte da série de curtas biografias de judeus, que nos deu (para citar apenas duas) a de Emma Goldman escrita por Vivian Gornick e a de Sarah Bernhardt escrita por Robert Gottlieb.

Kubrick (1928-99) nasceu no West Bronx e era filho de pais judeus imigrantes. Seu pai era médico. A família morava no Grand Concourse, perto de um grande cinema com decoração barroca artificial chamado Loew’s Paradise, com nuvens projetadas que flutuavam pelo teto. Esta se tornou a segunda casa de Kubrick. Como Binx Bolling no romance The Moviegoer, de Walker Percy, ele ficava feliz em um cinema, mesmo que fosse um cinema ruim.

Ele era inteligente, mas um aluno pobre. Um descontente natural, ele parecia um beatnik sujo antes que houvesse beatniks imundos. Xadrez e fotografia eram seus interesses. Mais tarde, falido e na casa dos 20 anos, ele sobreviveria jogando xadrez por salões no Washington Square Park. Kubrick não frequentou a faculdade. Ele se casou e se tornou fotógrafo da revista Look, uma alternativa mais corajosa à Life.

Kubrick assistiu a aulas na Universidade Columbia e conheceu a turma da Partisan Review. Na época, havia poucas escolas de cinema, se é que havia alguma. Ele disse a um entrevistador: “Por um período de quatro ou cinco anos, vi todos os filmes feitos. Eu sentei lá e pensei, bem, não sei porcaria nenhuma sobre filmes, mas sei que posso fazer um filme melhor do que isso.”

Ele pediu dinheiro emprestado à família para ajudar a financiar seu trabalho de aprendiz como diretor. Fez dois filmes noirs em meados da década de 1950 (A morte passou por perto e O grande golpe) que atraiu a atenção da crítica. O filme que o colocou no mapa como um talento maduro foi Glória Feita de Sangue (1957), uma história carregada moralmente da Primeira Guerra Mundial e estrelada por Kirk Douglas.

Os nove filmes que se seguiram foram vistos por qualquer pessoa que esteja viva e goste de cinema, provavelmente mais de duas vezes: Spartacus (1960); Lolita (1962); Dr. Fantástico (1964); 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968); Laranja Mecânica (1971); Barry Lyndon (1975); O Iluminado (1980); Nascido para Matar (1987); e De Olhos Bem Fechados, que foi lançado logo após sua morte em 1999.

Mikics é um estudante adepto da arte incomum de Kubrick. “Seus filmes são sobre o controle que falha”, escreve ele. “Esquemas perfeitamente controlados são prejudicados por erro humano ou acidentes estranhos, ou apoderados pela ira masculina.” Ele desvenda a forma como os filmes de Kubrick, carregados como são com impiedades, desafiam, enfurecem e divertem.

Escrevendo em relação ao desempenho estranho de Tom Cruise em De Olhos Bem Fechados, ele nos lembra o que fisga quanto a isso: “O tormento interior nunca é glamoroso ou sexy em um filme de Kubrick. Em vez disso, parece um uma anomalia.” Ele observa que Kubrick, enquanto sonhava com um possível elenco muitos anos antes de realmente filmá-lo, considerou Bill Murray para o papel.

Mikics tem um dom para capturar uma performance. Em uma cena de Lolita, Sue Lyon é “uma malcriada e hábil mascadora de chiclete, cujos olhos lançam dardos de desdém”. Aqui ele fala a respeito de Malcolm McDowell em Laranja Mecânica: “Ele tem um estilo matador: confiante e perspicaz com seu chapéu-coco chaplinesco, um alegre jovem que nunca perceberá o quão burro ele é.”

Apesar do subtítulo deste livro, Kubrick foi em muitos aspectos o menos americano dos diretores americanos. Ele passou grande parte de sua vida adulta no interior da Inglaterra, a uma hora de distância de Londres. Ele descobriu que era mais barato fazer filmes lá e odiava viajar de avião.

Ele manteve contato com os Estados Unidos. Gostava de fofoca - “análise de personagem”, como chamava Elizabeth Hardwick - e estava sempre ao telefone para falar com Los Angeles. Tinha fitas de vídeo de jogos de futebol profissional enviadas para ele. (Admirava a edição dos comerciais da Michelob.) Lia o New York Times todas as manhãs. Quando entediado durante um filme, era conhecido por abrir um jornal no cinema.

Este livro captura seu lado maníaco por controle. Também captura por que as pessoas queriam trabalhar com ele. Ele tinha uma noção de cada aspecto do que fazia um filme funcionar.

Sua leitura voraz lhe serviu bem. “Eu literalmente entro nas livrarias, fecho meus olhos e tiro algo da prateleira”, disse ele a um entrevistador. “Se eu não gostar do livro depois de um tempo, eu não o termino. Mas gosto de ser surpreendido.”

Seus filmes podem diminuir a temperatura em uma sala, mas Mikics rejeita que eles se limitem a isso. Kubrick criou algumas das imagens mais indeléveis do cinema. Mikics cita o crítico musical Alex Ross, que escreveu acerca dos filmes de Kubrick: “Eles me fazem feliz, me fazem rir”, disse Ross. "Se isso era frio, então Fred Astaire também era." / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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