Companhia das Letras
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Biografia mostra como W.G. Sebald transformou suas vivências e leituras em ficção

Sebald mascarava sistematicamente quase todos os aspectos de sua vida e trabalho

Dwight Garner, The New York Times

22 de outubro de 2021 | 15h00

É provável que W.G. Sebald seja o escritor alemão mais reverenciado da segunda metade do século XX. Seus livros mais conhecidos, Os emigrantes, Os anéis de Saturno e Austerlitz, publicados nos Estados Unidos entre 1997 e 2001, são conhecidos pela dificuldade de categorizá-los.

Carole Angier, autora de uma nova biografia, Speak, Silence: In Search of W.G. Sebald, gosta de se referir a eles, tomando de empréstimo a expressão do escritor Michael Hamburger, como “semificção ensaística”. De minha parte, prefiro o comentário de um dos alunos de Sebald, que disse que suas frases etéreas nos fazem pensar na maneira “como os mortos escreveriam”.

Seus temas – o fardo do Holocausto, a mortal opressão da história, o fim da natureza, a importância da solidão e do silêncio – se esquadrinham em livros desesperançados que às vezes se assemelham a diários de viagens existenciais.

Suas ficções são enevoadas e não raro recebem críticas por tédio e pretensão. É tentador chamá-lo de “expressionista catatônico”, como Slab, o artista itinerante do romance V. de Thomas Pynchon.

Mas Sebald tem um élan filosófico e transmite uma melancolia mundana; seus livros parecem longas alucinações. Ele soa como ninguém, o que é interessante, porque uma das lições da biografia de Angier é o quanto Sebald tomou coisas de empréstimo de outras pessoas, muitas vezes insuspeitas.  

Speak, Silence é a primeira biografia completa de Sebald (1944-2001). Não deve ter sido fácil escrevê-la. Angier, que publicou vidas de Primo Levi e Jean Rhys, não teve permissão para se referir a muitas cartas de Sebald e outras fontes particulares. Além disso, enfrentou limites ao citar diretamente a obra de seu objeto de estudo.

A viúva de Sebald, Ute Rosenbauer, se recusou a cooperar. Em represália, Angier não escreve seu nome no livro até a página de agradecimentos e não a lista no índice remissivo. Ute e a filha (sem nome no livro) que ela teve com Sebald em 1972 essencialmente não existem nessa biografia, o que exagera a sensação que temos de Sebald como um ser isolado.

Mas não deve ter sido um livro fácil de escrever também por outros motivos. Sebald mascarava sistematicamente quase todos os aspectos de sua vida e trabalho. Um exemplo: ele gostava de ser chamado de “Max” na vida adulta e dizia às pessoas que era seu apelido ou nome do meio. Não era. Ele o inventara.

Ele assaltou implacavelmente Kafka, Wittgenstein e inúmeros outros, a ponto de alguns de seus livros serem quase colagens. A exemplo de Montaigne, parecia não contar seus empréstimos, mas pesá-los. Retratou pessoas que conhecia em seu trabalho e enfureceu muitas delas, o que fez, para mencionar apenas um caso, com que sua mãe perdesse alguns amigos. Ainda mais problemático: Sebald passou por cima dos riscos morais inerentes a um escritor alemão que se apropriava de histórias judaicas.

Para criar o personagem de Jacques Austerlitz – o historiador da arquitetura de Austerlitz que mais tarde descobre que é judeu e que, aos 4 anos de idade, fora levado a Londres pela Kindertransport – Sebald tirou muitos detalhes importantes de um livro de memórias intitulado Rosa’s Child, de Susi Bechhofer.

Ela respondeu publicando o ensaio “Stripped of My Tragic Past by a Best-Selling Author” [algo como “Despojada de meu passado trágico por um autor best-seller”, em tradução livre]. Ela queria que Sebald reconhecesse sua dívida para com o livro. Não está claro se ele o teria feito, pois ele morreu antes que a questão pudesse ser resolvida.

Angier, filha de refugiados judeus que escaparam do nazismo, anda na corda bamba com as apropriações de Sebald. Ele foi, nas suas palavras, “o escritor alemão que mais profundamente assumiu o fardo da responsabilidade alemã pelo Holocausto”. E transmutou seus empréstimos em arte duradoura.

Sebald nasceu na aldeia alemã de Wertach, nos Alpes da Baviera. Seu pai combatera no exército de Hitler, e o jovem Winfried, como era conhecido à época, o desprezava.

Seu pai valorizava a ordem e a limpeza. Winfried cortava intencionalmente a ponta de um pedaço de manteiga só para enfurecê-lo. Olhava para o pai e passava os dedos sob o nariz, como a paródia do Hitler de Charlie Chaplin.

O jovem Winfried era bonito e carismático, mas ali já se encontravam as sementes de sua melancolia. Ainda na adolescência, descobriu que tinha um problema cardíaco. Ele se envolveu com teatro e jornalismo estudantil enquanto estava na faculdade e seguiu carreira acadêmica.

Gostava de dizer aos alunos que pensassem bem antes de se fazerem escritores, “porque você se sentirá infeliz se escrever – e ainda mais infeliz se não o fizer”. Só começou a trabalhar séria e sistematicamente em seus escritos não acadêmicos depois dos 40 anos.

Escrever era difícil para Sebald: ele se sentia esgotado depois de um dia à máquina de escrever. Mas tendia a se sentir cansado o tempo todo. Sofria de psoríase, dores renais, enxaquecas, problemas nas costas e perda temporária de visão. Parecia mais velho do que era.

Mesmo que as indicações de morte fossem constantes, às vezes ele as encarava com senso de humor. Já perto do fim da vida, escreve Angier, chegou a dizer a uma amante “que, se ligasse alguém desconhecido”, para dizer que “ele estava ocupado cometendo suicídio”.

Tinha muitas fobias. O fogo era uma delas. A primeira coisa que fazia nos hotéis era verificar a localização das escadas de incêndio. E também tinha fobia de ser chato.

Sebald se tornou uma figura internacional depois que Susan Sontag elogiou sua obra. Relendo seus livros recentemente, encontrei muitos momentos valiosos, mas me lembrei do amigo que me disse que a biblioteca do inferno será composta exclusivamente pelos livros que Sontag defendeu.

Sebald era um motorista terrível, muito distraído. Saía da estrada sempre que se entusiasmava contando uma história ou olhando as flores na beira do caminho. O livro compila listas de seus acidentes. O que finalmente o matou, alguns sugeriram, pode ter sido suicídio.

O livro de Angier às vezes parece meio desajeitado, com uma estrutura estranha. Sem dúvida, escapa daquilo que o biógrafo Michael Holroyd chamou de “a prisão da cronologia”. Os leitores que ainda não estão familiarizados com a obra de Sebald terão dificuldade de compreender as sinopses de seus livros. Mas a biografia tem uma dignidade teimosa.

Quando Sebald era criança, seu querido avô gostava de lhe dizer, com cara séria, que um caminhão estava vindo para entregar os buracos do queijo Emmental. Angier olhou para um escritor cuja vida, em muitos aspectos, continua sendo um monte de buracos.

Pode ser que as futuras biografias tenham mais a dizer, mas Angier persistiu e escreveu um livro inteligente e intuitivo sobre um escritor que, assim como certas montanhas, tem seu próprio clima e cuja carreira continua sendo um território em disputa. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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