Acervo O Globo
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Biografia resgata Gustavo Capanema, mais longevo ministro da Educação do Brasil

Ministro esteve à frente da pasta de Educação e Saúde durante o governo de Getúlio Vargas

Martim Vasques da Cunha*, Especial para o Estado

15 de junho de 2019 | 16h00

Nelson Rodrigues escreve em A Menina Sem Estrela, seu livro de memórias, que um dia caminhava nas ruas do Rio de Janeiro, feliz e contente por causa do estrondoso lançamento da sua segunda peça, Vestido de Noiva (1943), quando passou por uma porta de engraxate e reconheceu alguém lá dentro. Era ninguém menos que Gustavo Capanema, então ministro da Educação e da Saúde do famigerado Estado Novo de Getúlio Vargas. Nelson sabia que o político era um apaixonado por escritores e intelectuais. Por isso, decidiu não cumprimentá-lo. Não suportava esses sujeitos fascinados por “granfinagens”. Contudo, diz a lenda que o ministro se levantou da cadeira do engraxate e se aproximou para estender a mão ao dramaturgo. Como se isso não fosse suficiente, ele estava de chapéu e tirou-o em sinal de respeito. Nelson Rodrigues não acreditou no que viu. Aceitou o aceno e foi embora, com o semblante da humildade. Anos depois, registraria em sua autobiografia: “Bom sujeito, o Capanema”.

Será que o ministro foi isso mesmo – um bom sujeito? É a pergunta que Capanema (Editora Record, 420 págs, R$ 64,90), livro de estreia do historiador Fabio Silvestre Cardoso, tenta responder aos leitores deste Brasil do século XXI. Porém, ele vai além desta questão. Sua pesquisa minuciosa – aliada a uma escrita cristalina que amarra as nuances do pano de fundo político com a trajetória pessoal do seu objeto de análise – demonstra que Capanema, nascido em 1900, foi um dos homens mais importantes da nossa História, em especial para se entender o que acontece conosco neste momento tão conturbado.

O livro divide-se em três partes. Na primeira, lemos sobre a ascensão de Capanema no mundo da política brasileira, dos rincões mineiros de Pitangui até a capital Belo Horizonte, quando se torna um firme defensor da Revolução de 1930, a reviravolta social que colocaria Vargas no topo do poder. Isto lhe deu cacife para concorrer ao cargo de interventor de Minas Gerais (leia-se: governador nomeado pelo presidente da República). Perdeu para Benedito Valadares, mas ganharia outro tipo de presente das mãos do caudilho de São Borja: o Ministério da Educação e da Saúde – o germe do atual MEC, uma das mais labirínticas construções burocráticas dos últimos tempos.

O modo como Capanema geriu esta repartição – com a ajuda de ninguém menos que seu chefe de gabinete, o poeta e amigo de juventude Carlos Drummond de Andrade – é o tema da segunda parte. É neste ponto que Silvestre Cardoso mostra, com o rigor de um entomologista, como foi estabelecido na nossa cultura o “sistema de cooptação” classificado por ninguém menos que Antonio Paim (aliás, autor do texto da orelha que convida o leitor a usufruir desta biografia). Segundo o seu clássico A Querela do Estatismo, Paim afirma que tal sistema é “um aumento do poder executivo, de uma participação cada vez mais do Estado na vida social e econômica do país, da cooptação contínua das lideranças sociais em todos os níveis, e da subordinação da vida econômica ao processo político”.

O epicentro de todo esse processo foi justamente o Ministério da Educação e Saúde comandado por Gustavo Capanema, de 1934 a 1945, tornando-se assim o mais longevo ministro desta pasta que o Brasil já teve. Silvestre Cardoso prova que a sua estratégia principal foi a criação de um projeto autoritário que, lentamente, se expandia para um totalitarismo cultural que perdura até os nossos dias. Segundo o biógrafo, Capanema foi um dos responsáveis, junto com Vargas, por “uma mudança de mentalidade, que envolvia, de um lado, a ressignificação do papel do Estado como elemento necessário para a vida brasileira; e, de outro, a ideia de que este mesmo ator podia fazer uso de quantos instrumentos fossem indispensáveis para que seus objetivos fossem alcançados – mesmo que, para tanto, as liberdades fossem invadidas”.

Esta constatação sempre foi polêmica – principalmente no nosso “círculo dos sábios”, independente de serem da esquerda ou da direita. Ela é tão perturbadora que até mesmo um Drummond no crepúsculo da vida resolveu defender a sua permanência nesta repartição do Estado Novo, alegando que praticava somente “uma mera função burocrática, destituída de qualquer implicação política ou ideológica”. Afinal de contas, a única coisa que resta a um intelectual é a ilusão de que é um desgarrado do poder. Porém, a História mostra que a verdade foi outra. Além do poeta de A Rosa do Povo, inúmeros luminares do pensamento brasileiro foram cooptados e submetidos, de uma forma ou de outra, aos grupos e às classes presentes na luta política, entre eles alguns famosos, como Mario de Andrade (que pedia dinheiro sem parar a Capanema em cartas constrangedoras), Edgard Roquette Pinto, Rubens Borba Alves de Morais, José Condé, Hélio Viana, Graciliano Ramos e até mesmo Sergio Buarque de Holanda.

Pode-se pensar que a biografia de Silvestre Cardoso revive as polêmicas teses do sociólogo Sergio Miceli, descritas em Intelectuais à Brasileira. Mas o jovem historiador não está interessado na mera denúncia de ver Capanema como um demiurgo que transformou algumas das nossas mentes brilhantes em “presas da máquina do Estado”. É importante ressaltar este detalhe, pois o próprio ministro se via como um intelectual ímpar. Aqui temos o tema da terceira parte do livro, cujo ápice dramatúrgico pratica a exigência do filósofo espanhol José Ortega y Gasset sobre qualquer livro que queira entender o que foi uma vida humana: o de que o mais importante nela é saber se o biografado cumpriu ou não a sua vocação.

Em um texto antológico intitulado Pedindo um Goethe Visto de Dentro, de 1932, Ortega medita justamente sobre um dos escritores favoritos do próprio Capanema (sabia de cor aforismos ou versos inteiros do Fausto). Ali, afirma que o sábio de Weimar, apesar da sua genialidade, não passou de uma “estátua” na sua trajetória terrena. Recusou o naufrágio da existência e preferiu a estabilidade de ser um “medalhão” num departamento burocrático da aristocracia alemã, escrevendo indiscutíveis obras clássicas, mas que lhes faltavam a razão vital de uma autêntica humanidade. No fim das contas, Goethe fugiu da sua vocação – a de ser o grande artista da nossa intrínseca incerteza.

O mesmo pode ser dito a respeito de Gustavo Capanema. Desde jovem, era reconhecido entre seus pares como um intelectual invejável – e foi infelizmente esta habilidade que o levou aos corredores do poder, de acordo com o livro de Silvestre Cardoso. A sua percepção sobre si mesmo era de que sua trajetória foi a de um “político da cultura”. Em outras palavras: o seu Ministério da Educação e Saúde não foi apenas uma revolução política ou técnica. Foi sobretudo uma revolução nos fundamentos da cultura tupiniquim, muito semelhante ao que o dono da pasta nestes tempos de Brasil acima de todos, com Deus acima de tudo – Abraham Weintraub –, quer fazer na estrutura educacional brasileira. A diferença é que, desta vez, o ministro dos nossos dias não tem ideias próprias. Somente retalhos confusos, disfarçados com a retórica apocalíptica de um marxismo ou de uma guerra culturais que, na verdade, são palavras de ordem para incitar uma militância que deseja apenas o caos.

De qualquer maneira, ambos os casos mostram como o país foi sequestrado por uma falta de autenticidade que chega às raias da loucura. E a raiz desta tragédia, em especial na educação e na cultura dos séculos XX e XXI, é que tivemos um Capanema que simplesmente não aceitou o chamado de uma existência mais verdadeira. Enquanto político, como bem observou seu colega Afonso Arinos, se deixava “empolgar pelas ideias”, criando assim um “desajuste entre a vocação política e a sua ação na política”. E foi este desajuste pessoal que se tornou o reflexo de um impasse público do qual ainda não nos libertamos. O drama de Gustavo Capanema – do seu início modesto na década de 1930, passando pela glória no Estado Novo, até o lento esquecimento na Ditadura Militar, no surgimento da Nova República e com sua morte em 1985 – é a prova de que não aprendemos o suficiente com as lições da vida. Sorte que agora temos a bela biografia de Fabio Silvestre Cardoso para recuperarmos essa vocação e sermos enfim bons sujeitos.

*Martim Vasques da Cunha é autor dos livros Crise e Utopia – O Dilema de Thomas More (Vide Editorial, 2012) e A Poeira da Glória – Uma (inesperada) história da literatura brasileira (Record, 2015)

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