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Biografia traça evolução das crenças políticas de Mahatma Gandhi

Pacifista indiano deixou um enorme volume de textos inéditos que foram usados para o livro

The Economist

20 Outubro 2018 | 16h00

O estoque de heróis nacionais flutua com o tempo. Durante décadas, Jawaharlal Nehru, o primeiro primeiro-ministro da Índia, foi venerado em seu país. Escritor talentoso, ele produziu livros impressionantes enquanto estava encarcerado em prisões controladas por britânicos. No poder, ele manteve seu país multirreligioso democrático e estável, apesar de enormes tensões. No exterior ele o guiou para longe dos envolvimentos da Guerra Fria. No entanto, hoje a admiração está fenecendo: “O clima popular na Índia se voltou ferozmente contra Nehru e seu legado”, observa o historiador Ramachandra Guha.

O encolhimento do Congresso, que já foi o partido dominante da Índia, explica em parte essa mudança. A propaganda oficial costumava honrar Nehru e seus descendentes, os primeiros-ministros Indira Gandhi e Rajiv Gandhi. Quando o Congresso estava no poder, todos os aniversários da dinastia eram celebrados em cartazes e anúncios fúnebres da imprensa. Hoje os nacionalistas hindus estão no poder e rejeitam vigorosamente esse legado. Os antigos governantes são ridicularizados por corrupção, má administração econômica e enfraquecimento militar.

Narendra Modi, o atual primeiro-ministro, reverencia outros nomes, como o vice-primeiro-ministro de Nehru, Vallabhbhai Patel, um nacionalista mais vigoroso e político pró-hindu. Patel supervisionou a incorporação às vezes violenta de estados principescos administrados por muçulmanos na Índia propriamente dita. Este mês, um monumento a ele – de 182 metros, a estátua mais alta do mundo – será inaugurado em uma área remota de Gujarat, estado natal de Modi.

Outras figuras históricas e episódios também foram reavaliados. Modi incentivou a aceitação popular do Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS), um movimento que fora banido sob Nehru depois que Mohandas Gandhi foi morto a tiros em 1948 por um extremista hindu associado a ele. Ocasionalmente, Modi celebra Vinayak Damodar Savarkar, um radical brilhante que insultou Gandhi e defendeu a violência contra os muçulmanos (e estava próximo do RSS e do assassino).

E quanto à reputação do luminar mais venerado de todos? Gandhi foi o proeminente construtor da nação Índia. Ele fez mais do que qualquer outro para garantir o fim do domínio imperial. Suas décadas de agitação, desobediência civil, marchas, jejum, lobby, aprisionamento e busca por publicidade – técnicas que ele praticou pela primeira vez na África do Sul dirigida pelos britânicos – gradualmente tornaram inevitável a liberdade da Índia.

Ele fez o Congresso crescer de um reduto elitista para um movimento de massa. Ele pressionou pela harmonia entre hindus e muçulmanos, pelos interesses dos dalits (anteriormente “intocáveis”), pela igualdade das mulheres e pela rejeição da industrialização em favor do artesanato baseado nas aldeias. Em todos esses esforços, exceto o último, ele moldou o subsequente caráter democrático da Índia. Crucialmente, ele também cultivava sucessores, mais obviamente, Nehru. O contraste com o Paquistão militarista, instável e muitas vezes repressivo sob Muhammad Ali Jinnah não poderia ser mais impressionante.

Cada geração de indianos deve revisitar Gandhi por si própria, argumenta Guha em sua magnífica nova biografia. Não é só que o clima político em mudança exige uma reavaliação. As pilhas crescentes de material relacionado a Gandhi exigem constante seleção. Às vezes ele produzia 80 cartas por semana; suas obras chegam a 97 volumes. Pesquisadores, incluindo Guha, continuam a desenterrar escritos negligenciados.

O livro de Guha – o segundo de dois volumes – começa em 1914, quando ele retorna da África do Sul. Sua narrativa é simpática, embora desnecessariamente detalhada em partes: infelizmente, pode dissuadir muitos possíveis leitores. Ele transmite a jovialidade de Gandhi, assim como seu intelecto. Dispensando intermináveis conselhos de saúde aos seus correspondentes, Gandhi referia-se a si mesmo de forma depreciativa como um médico “charlatão”. Guha celebra sua habilidade com uma caneta. Seepersad Naipaul (pai de V.S.) elogiou Gandhi por escrever apaixonada e diretamente, “a partir das entranhas e não da bochecha”.

O Mahatma, ou grande alma, não surge como um santo. Gandhi admitiu que ele poderia ser um “animal” para sua esposa, Kasturba. Ele era muitas vezes incoerente, egoísta ou irracional, como quando alegou que seu hábito de celibato poderia de alguma forma acabar com a violência religiosa. Ele era chato em sua insistência de que os outros deveriam evitar o sexo e a contracepção. Ele errou ao dizer aos judeus alemães, checos e britânicos que não resistissem aos invasores nazistas. Guha também revela um segredo saboroso e há muito mantido: na década de 1920, Gandhi teve uma paixão prolongada (embora não consumada) pela sobrinha de Rabindranath Tagore, poeta bengali que a chamava de sua esposa em algumas cartas.

O autor traça habilmente a evolução das crenças políticas de Gandhi. Por exemplo, ele foi um dos primeiros militantes contra os maus-tratos aos dalits, mas durante grande parte de sua vida manteve a fé nas divisões de castas do hinduísmo e não deu apoio aos casamentos entre castas (inicialmente ele também era contra as uniões entre hindus e muçulmanos). Só gradualmente ele rejeitou completamente o sistema de castas. “Nenhum hindu de casta superior fez tanto para contestar a intocabilidade quanto Gandhi”, conclui Guha, convincentemente. Ele rejeita críticos revisionistas e esquerdistas como Arundhati Roy, que rotularam Gandhi como traidor na questão das castas.

Muitos detalhes do livro são novos. Mais de perto do que qualquer outro biógrafo, Guha rastreia a influência esquecida do secretário de longa data de Gandhi, Mahadev Desai. Ele oferece curiosidades animadas. Gandhi, soube-se, viu apenas um filme em sua vida e não tinha ideia de quem era Charlie Chaplin quando se conheceram. Ele encantou muitos dos que encontrou. Vestido apenas com uma tanga, Gandhi teve um intercâmbio amigável com o rei George V, embora o papa tenha recusado a audiência ao indiano, por objeções à sua vestimenta.

Mas a análise de Guha é muito valiosa para as grandes questões. Ainda mais importante do que garantir a independência, considerou Gandhi, a Índia teve que buscar a paz entre hindus e muçulmanos. Contrariado pelo derramamento de sangue resultante da divisão, ele especialmente pressionou moderação aos colegas hindus, consagrando a ideia de que a Índia não deveria ser dominada por uma religião, tornando-se uma soberania hindu. Ele fez isso apesar dos primeiros esforços britânicos para colocar muçulmanos e hindus uns contra os outros, e apesar das travessuras de Jinnah, Savarkar e outros que provocaram antipatia por ganhos partidários mínimos.

Seria imprudente esquecer os alertas de Gandhi. Mas, com boas razões, Guha teme que isso esteja de fato acontecendo. Em um momento de endurecimento do nacionalismo hindu, ataques grosseiros a Gandhi revelaram-se rotineiros online: “de forma preocupante, há um amplo desencantamento com as ideias de pluralismo religioso de Gandhi”, observa Guha. Os gostos de Modi podem oferecer um apoio débil para Gandhi, mas depois “procuram diminuir sua estatura elevando seus próprios heróis”, tais como Savarkar.

Mais do que nunca, talvez, indianos e pessoas de fora se beneficiassem do reconhecimento da crença de Gandhi com o compromisso. O relato magistral de Guha sobre um homem compassivo fornece uma oportunidade oportuna. No entanto, como Gandhi sabia, no final são atores políticos, não escritores, que provocam as reais mudanças. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

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