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Biografia usa objetos pessoais de Jane Austen para revelar sua intimidade

'A Verdadeira Jane Austen' abre mão da narrativa cronológica para investigar a mente da escritora inglesa

Paulo Nogueira*, Especial para o Estado

24 Novembro 2018 | 16h00

Será Jane Austen a maior ficcionista de todos os tempos? A pergunta só é descabida porque a literatura não corresponde a uma ciência exata, e essas coisas são sempre subjetivas. Mas pedigree literário não falta à escritora inglesa, morta aos 41 anos em 1817, e da qual acaba de sair uma nova biografia. 

Austen publicou quatro romances em vida (todos assinados “a Lady”, “uma senhora”) – depois surgiram títulos póstumos. No século 20 “mitou” internacionalmente, e foi entronizada pela TV e pelo cinema – até com paródias bregas, como os filmes Razão e Sensibilidade e os Monstros Marinhos e Orgulho e Preconceito e os Zumbis. Os romances de Austen vendem hoje 6 milhões de exemplares por ano só no mundo anglófono, fazendo até Dickens comer poeira. A efígie dela adorna a nova nota britânica de dez libras, que estreou no ano passado para assinalar o bicentenário da morte da autora. A cédula inclui uma citação de Orgulho e Preconceito: “Declaro que não há prazer como ler!” E, no Instagram, Jane Austen é o quarto escritor mais citado (o primeiro é Shakespeare). 

Apesar disso, mal-entendidos obtusos ainda rodeiam a obra da autora. Um deles é de que seus romances se reduzem a uma espécie de “novela das seis”, desembocando sempre no altar, com uma noivinha feliz da vida por ter pescado um maridão. Como não há 8 sem 80, despontou um disparate oposto, depois do livro Jane Austen, The Secret Radical, de Helen Kelly, para quem as obras dela eram uma espécie de contos de fadas revolucionários. Menos, menos. E mais, muito mais.

É certo que depois da morte de Jane a família dela queimou e cortou inúmeras cartas, operando um branqueamento da imagem da autora. A intenção era impingi-la como uma típica dama vitoriana. Isso quando a própria Jane se descreveu como “selvagem”. E até a citação da nota de dez libras era mordaz, dita por uma personagem que só finge estar lendo para impressionar um homem – assim que ela consegue isso, joga o livro fora...

Não, Jane Austen não era uma dondoca nem uma perua, mas tampouco podia (se é que quereria) ser uma Simone de Beauvoir – devagar com o andor do anacronismo. Literariamente, um dos seus supremos méritos é o realismo pioneiro. Como notou Walter Scott, a prosa dela deu uma banana para a ficção feminina de então: “nada de chiliques, nem de cavalos fugitivos, nem de poodles”. E os protagonistas não se esgotavam em duques ou princesas. Como a própria autora situou sua obra: “Mais ou menos nos dias de hoje, e mais ou menos no mundo real.” Isso é que era ser revolucionário. 

Outro chavão reza que Jane era uma caipira confinada num vilarejo jeca. Nunca saiu da Inglaterra, pois as fronteiras foram assoladas pelas Guerras Napoleônicas. Mas esteve em Londres várias vezes, e era uma leitora cosmopolita e onívora. Suas “tramas galantes” incluem investigações de desigualdades econômica e social e até da escravidão – uma das espinhas dorsais do romance Mansfield Park (alusão a Lord Mansfield, um dos primeiros e mais tenazes abolicionistas da história). 

A Verdadeira Jane Austen, biografia de Paula Byrne, segue um método peculiar mas eficaz: cada um dos 18 capítulos se ocupa de um objeto real da vida da autora – um xale indiano, uma escrivaninha portátil, um cheque de direitos autorais, uma miniatura de marfim. A abordagem desafia a linearidade cronológica (a biografada morre no meio do livro), porém os itens funcionam como passaportes para epifanias existenciais e literárias. 

Jane viveu até os 25 anos num presbitério em Steventon. Filha de um clérigo tolerante e afável, que encorajava a leitura, tinha sete irmãos. Ao contrário de outro gênio literário contemporâneo, a poeta americana Emily Dickinson (uma misantropa obstinada), Jane era sociável que só: adorava dançar e possuía um senso de humor penetrante – não tem culpa de que hoje tendamos a associar a profundidade com a tragédia, e a menosprezar a comicidade como frívola e superficial.

Austen lutou com unhas e dentes para se tornar uma escritora – seja aperfeiçoando incessantemente sua arte, seja assediando editores relutantes (acabou publicada por uma editora militar!). É tocante o orgulho dela ao – no finzinho da vida – começar a ganhar dinheiro com os livros. 

A única imagem da autora é uma reciclagem vitoriana de uma gravura desenhada por sua irmã Cassandra. Mostra uma moça graciosa, mas longe de uma beldade. De novo refutando o estereótipo, Jane nunca deu muita bola para o romantismo (só há 14 beijos em seus seis romances, nenhum entre amantes). Mas isso não quer dizer que fosse gélida ou não sonhasse com um homem ideal, que descreveu com enternecedora sensatez: “Talvez existam tais seres no mundo, um em mil, nos quais graça e espírito se unem ao valor, nos quais boas maneiras ficam à altura do coração e da inteligência. Mas tal pessoa pode não aparecer no nosso caminho...” E não estava disposta a trocar sua independência só para evitar o anátema de solteirona. Ainda que o celibato ameaçasse sua segurança financeira, numa altura em que mulher não trabalhava fora de casa e a herança cabia ao varão. Além disso, a maioria das esposas eram quase galinhas poedeiras: sem contraceptivos, engravidavam sucessivamente (as sobrinhas da escritora tiveram onze filhos cada uma), só para muitas vezes perderem os bebês, ou então morrerem no parto. Apesar de sem dote, Jane teve pretendentes, porém só aceitou um pedido de casamento – apenas para dar o cano na manhã seguinte. Se, como nota Harold Bloom, “o amor entre Lizzie Bennet e Mr. Darcy é caracterizado pela consciência do alto valor mútuo”, Austen nunca encontrou seu Mr. Darcy.

Apesar da sua singularidade, ela não estigmatizava as outras mulheres mais convencionais. O casamento importava porque era a ação definidora da vida da maioria das jovens – “aceitar ou recusar uma proposta era quase a única decisão que uma moça poderia tomar por si mesma – e isto quando podia”. Daí que tenha tratado da questão com empatia, mas verve, quer quando satiriza as heroínas tontas que “desmaiam alternadamente no sofá”, ou na memorável abertura de Orgulho e Preconceito: “É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro, na posse de uma bela fortuna, necessita urgentemente de uma esposa.”

Não, não precisamos caricaturar Austen numa feminazi para saudá-la como gênio literário. Militantes escrevem panfletos, romancistas escrevem literatura. Que suas obras lidem com as circunstâncias reais das mulheres da época é audaz o suficiente. Mas ela foi mais longe, retratando gente em toda a sua falibilidade bagunçada, cômica e agridoce. Estava interessada na consciência e na responsabilidade individual, e na possibilidade ou impossibilidade de se conhecer de fato uma outra pessoa. Como diz o narrador de Emma: “Raramente a verdade completa e absoluta pertence a qualquer compreensão humana; raramente pode acontecer algo que não seja um pouco confuso ou equívoco.” Como lacrou Harold Bloom: “Apenas os grandes gênios são capazes de criar um tipo de divertimento que só ameaça as pessoas rancorosas.” Por essas e outras, Austen é a quintessência do clássico: a cada geração seus romances contam uma história novinha em folha. Afinal, o que mais podemos pedir a uma obra que conjuga razão e sensibilidade? 

*Paulo Nogueira é autor de 'O Amor é um Lugar Comum' (Intermeios) 

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