Alonson Nichols/Tufts University
Alonson Nichols/Tufts University

Biógrafo de Beethoven lança introdução à música clássica para leigos

Livro de Jan Swafford tenta reduzir o abismo entre ouvintes e neófitos

João Marcos Coelho*, Especial para o Estadão

17 de abril de 2021 | 15h00

“Gosto, mas não entendo”. A frase tão repetida por quem frequenta concertos e mesmo por quem jamais entrou numa sala de concertos soa sincera. E é, porque não é fácil nem imediato o processo de nos aproximarmos da música dita clássica. Afinal, como no Brasil infelizmente não se estuda música na escola, é natural a falta de conhecimento de compositores de nomes às vezes complicados, como Shostakovich ou Takemitsu, e mesmo devido ao complicado sistema de opus e ao modo quase esotérico como as obras são qualificadas, com indicação de tonalidade, maior ou menor. 

Acrescente-se a este paredão de obstáculos o “modus vivendi” do melômano (como são qualificados os frequentadores de concertos), que faz da familiaridade com este universo uma espécie de escudo protetor. Num concerto, quando alguém aplaude entre um movimento e outro – por um motivo simples: gostou, curtiu, apaixonou-se por aquela música –, é logo censurado pelos que estão a seu lado, autoinvestidos como guardiões do ritual engessado dos concertos tal como se fixaram durante o século 19.

Assim, de um lado, temos um público que nem sabe que gosta ou pode adorar a música clássica; e de outro, os ditos “connaisseurs”. Um fosso que tende a aumentar, não fossem alguns livros preciosos que ao longo das últimas décadas vêm corajosamente tentando furar este bloqueio, falando de música clássica sem empolação, numa linguagem ao mesmo tempo tecnicamente consistente, mas sem passar enciclopedicamente conhecimentos técnicos a quem não necessita deles para se encantar, por exemplo, com a Pequena Serenata Noturna de Mozart, a Sonata ao Luar de Beethoven, o Noturno opus 9, no. 2 de Chopin (olha aí, já tive de colocar o opus e o número, já que ele compôs muitos noturnos) e a canção de ninar de Brahms, que os doutos adoram chamar de “Wiegenlied” só pra espantar os comuns mortais.

É curioso que dois livros pioneiros tenham sido lançados com uma diferença de sete anos: o primeiro tornou-se um clássico da iniciação à música clássica: Como Ouvir e Entender Música, publicado em 1939 pelo compositor norte-americano Aaron Copland (1900-1990); e sete anos depois, em 1946/47, o poeta mineiro Murilo Mendes (1901-1975) publicou 40 encantadores artigos no jornal carioca A Manhã com o título geral Formação de Discoteca.

Em ambos, a preocupação de evitar jargões técnicos sem renunciar ao convite a uma escuta mais atenta, capaz de perceber as estruturas e formas da música clássica, como sinfonia, sonata, concerto, etc. Houve outras tentativas nas décadas seguintes. Nenhuma delas tão bem-sucedida quanto o ora lançado Linguagem do Espírito – Uma Introdução à Música Clássica, do compositor, musicólogo e escritor norte-americano Jan Swafford. A caminho dos 75 anos, que completará em setembro próximo, ele já acumula três biografias musicais que se destacam pela linguagem acessível e rigor técnico. Duas delas da década de 1990: a de Charles Ives, pioneiro da música norte-americana no século 20; e a de Johannes Brahms. Em 2017, foi lançada no Brasil a tradução de seu projeto mais ambicioso, a biografia de Beethoven, com cerca de mil páginas deliciosas. Com o tempo, sua linguagem despiu-se ainda mais de hermetismos, está ainda mais acessível e despreocupada com engessamentos acadêmicos. 

Swafford estava pronto para este livro original de 2017 que é uma privilegiada e divertida introdução à música clássica, na linhagem de Copland. Logo na introdução, ele coloca os termos de sua proposta: “A música é para curtir, amar, fascinar, emocionar, instruir, divertir, amedrontar e exaltar”. E acrescenta: “Creio que a missão de um compositor é nos oferecer essas experiências. Se e quando os ouvintes da música clássica estiverem dispostos a se deixar emocionar por miríades de vozes, e de linguagens, quando as plateias ficarem tão comovidas ao ouvir algo novo quanto ficaram na época de Mozart – então a música vai prosperar. As obras compostas hoje são parte de um experimento contínuo nessa direção”.

Longe de qualquer pretensão esnobe, diz que só quis escrever “uma breve história da música em forma de narrativa. Uma introdução ao neófito, uma referência para o repertório familiar”. É a proposta ideal para edificar uma ponte segura e compreensível, eliminando o fosso entre os conhecedores e os que “gostam mas não entendem”.

A introdução é, como o habitual em autores norte-americanos, um strip-tease pessoal. Swafford mostra como foi sua relação com a música clássica desde a meninice, adolescência, até a escolha de dedicar sua vida a ela – como compositor mediano (ele mesmo reconhece), pesquisador e professor de História da Música. O livro é o resultado de suas aulas ao longo de quase quatro décadas. Chega a pedir desculpas pelas “ocasionais incursões na técnica musical”: “Espero que o leitor obtenha uma compreensão básica da mecânica da música, pois ela se traduz em arte”.

Ele nos captura a cada página, não nos deixa largar a leitura. Tropeçamos com tiradas que são resultado de muita pesquisa e que não nos incomodam com notas de rodapé. Como a justificativa que Beethoven deu para ser compositor: “Fora a música, tudo que faço é mal feito e estúpido”. As indicações de audição estão todas nos serviços de streaming (Spotify).

É uma introdução, mas ele exerce espírito crítico. “Schubert, um dos maiores gênios que a música viu nascer, passou muito tempo escrevendo ópera, gênero em que ele não é nada bom”. Deixa claro seu gosto pessoal (“quando era jovem, fazia questão de nunca desgostar de nada, mas este feliz abraçar tudo – happy e hippie- -- já se foi há muito tempo”).

As primeiras 37 páginas são dedicadas ao período mais obscuro da música, seu início nos tempos pré-históricos e uma panorâmica rápida da música na Grécia e da Idade Média. As demais partes abrem com um texto geral e em seguida oferecem textos enxutos porém preciosos sobre os grandes compositores do período. Assim, no barroco merecem verbetes Monteverdi, Bach, Haendel e no final textos de 10/15 linhas sobre compositores menores do período. Sempre com indicações de audição. Seguem-se Classicismo (com a tríade Haydn-Mozart-Beethoven),, Romantismo; e Modernismo e Além. Estes dois últimos mais suculentos, com em torno de cem páginas cada. As escolhas são pessoais. No romantismo, eu não reduziria Bruckner a meras 12 linhas. Uma curiosidade: ele inclui Jean Sibelius entre os românticos (tardio, esclarece),

A parte mais discutível – porque mais pessoal, pelo simples motivo de que aqui ele lida com seus contemporâneos -- é a final: Modernismo e além. Aqui a visão anglo-saxônica mais inclusiva e palatável prevalece. Menos afeito a radicalismos, Swafford se esparrama num capítulo sobre Copland, esquece que o maior compositor das Américas no século 20 pode ter sido Villa-Lobos e dá apenas 13 linhas a Olivier Messiaen; ridiculariza Boulez (“surgiu cuspindo fogo”) e Stockhausen (“um tanto fanático, declarou que toda peça deve ser uma revolução por si mesma”). Até com seus compatriotas Swafford não esconde suas idiossincrasias. E faz bem. Não fica em cima do muro. Assim, dos minimalistas, gosta e destaca Terry Riley e Steve Reich, mas concede 5 magras linhas a Philip Glass. 

É ruim que seus gostos – e preconceitos injustificáveis, como com relação a Glass – aflorem justamente num universo em que é ainda mais difícil a tarefa de construir pontes entre criadores e o público em geral. Das 15 linhas dedicadas a Stockhausen, 5 são gastas rememorando o fato de que seu rosto está estampado na capado álbum Sgt. Peppers dos Beatles, além das duas para a citação corrosiva. No verbete sobre John Cage, um pouco mais extenso (28 linhas), afirma que “a estética de Cage teve vasta influência, especialmente útil para compositores sem talento, entre os quais ele se incluía. Contudo, sempre conseguiu expressar isso com mais brilho malicioso do que qualquer um”. 

Maldades que beiram a fofoca, tamanha a idiotice. Seriam pecadilhos num livro excepcional, mas fico particularmente chocado porque um livro desses teria como missão – até porque Swafford é ele mesmo compositor – tentar aproximar o público da música do nosso tempo.

Ao menos nas últimas dezessete páginas, ele infelizmente não seguiu o conselho que dá a seus leitores: receber novos compositores e obras “com uma abertura absoluta e esperar que seu próprio gosto vá se formando à medida que se aprofunda mais nesse terreno. Se alguma peça nova o surpreende, ou choca, ou deixa perplexo, sugiro que volte a ela. Certas obras vão se tornar suas favoritas, outras irão aprimorar sua percepção sobre o que é música e o que ela significa; algumas vão aprimorar sua percepção daquilo que diz respeito a você”. Direto ao ponto: a música nos torna melhores. As músicas contemporâneas por um motivo a mais: escancaram em nossos ouvidos a dura realidade de hoje em dia.

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