Christian Harmann/Reuters
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Biógrafo de Beethoven volta com livro sobre a vida de Mozart

Jan Swafford já escreveu biografias de Ives, Beethoven e Brahms, e considera Mozart 'o mais saudável, o mais sociável, o menos autoflagelante dos seus biografados', fundamentalmente um homem feliz

Tim Page, The Washington Post

26 de dezembro de 2020 | 16h00

Quando pessoas que amamos morrem jovens é difícil pensar nelas sem pesar. Eventualmente nos lembramos de entes queridos como eles eram em vida e não da dor da sua partida. Mas isso leva um longo tempo e, no caso de Mozart, o público há séculos é fascinado pela tragédia sentimental de um menino prodígio desventurado, traído pela vida, mal compreendido por seus contemporâneos e que foi enterrado como indigente numa “vala comum”.

Jan Swafford deixa claro na introdução do seu admirável livro Mozart: The Reign of Love que as coisas não foram de todo ruins para o compositor. “Acho que a única profunda tragédia na vida de Mozart foi sua morte prematura, quando estava prestes a chegar a um novo auge em sua arte e, indiretamente, prestes a alcançar a prosperidade de fato”, observa o autor.

Swafford, um compositor que já escreveu biografias de Ives, Beethoven e Brahms considera Mozart “o mais saudável, o mais sociável, o menos autoflagelante dos seus biografados”, fundamentalmente um homem feliz.

E um homem divertido também, como se observa em sua correspondência, que Swafford cita generosamente. Vitorianos de todas as eras ficaram chocados com as cartas de Mozart e muitas foram suprimidas ou censuradas até recentemente. Entretanto são maravilhas de prosa que poderiam ter sido criadas por Henry Fielding; Swafford as qualifica como “efervescentes, hilárias, às vezes tão obscenas que conseguiriam desobstruir seu nariz”.

Não surpreende o fato de o autor afirmar que “diverti-me mais quando escrevi este livro do que no caso de outros, e na maior parte do tempo com as coisas que o próprio Mozart escreveu”.

Todos os prodígios aprendem por imitação, mas a absorção de Mozart foi tão imediata e inexplicável que seu pai anotou a data. Sentado diante do piano numa noite de 24 de janeiro de 1761, três dias antes de completar cinco anos de idade, ele surpreendeu sua família ao tocar uma peça que sua irmã mais velha vinha estudando há dias. Em meia hora tocou a composição novamente de memória. Antes de completar sete anos, Mozart se apresentou para a realeza em Munique, Praga e Viena. Escreveu sua primeira sinfonia com oito anos de idade.

A figura central no livro é Mozart, naturalmente, mas o autor é um narrador bastante hábil em criar o mundo no qual o compositor viveu. Para aqueles que costumam olhar para outros tempos como assépticos, aristocráticos e praticamente tudo o que o século 21 não é, o autor faz uma nítida correção: “Todas as cidades fediam naqueles dias, o esterco deixado pelos milhares de cavalos e as dezenas de milhares de cães nas cidades muradas causava um odor fétido penetrante. Um visitante escreveu que cada rua tinha seu odor distinto e todos eram ruins. Acrescentava-se a isto a desgraça da nuvem de poeira por todos os lados e o tempo todo, uma mistura de sujeira e o esterco seco que entrava na sua roupa, na sua casa, nos seus olhos, na sua boca, às vezes na sua alma."

E, contudo, Mozart prosperou dentro desse mundo, compondo música de uma graça e elegância sempre retumbantes. Na verdade, é a sua própria obra que inspira nossa visão rósea da sua era. Quando ainda era um adolescente, escreveu uma meia dúzia de óperas, duas delas ainda são parte do seu repertório. Antes dos 30 anos de idade concluiu seus quartetos de cordas, dedicando os últimos seis dos 23 compostos a seu mentor Franz Joseph Haydn, que reconheceu que o jovem já o tinha superado. E depois as sinfonias e os concertos e - nunca esquecidos - as impressionantes óperas compostas no final tão diferentes, mas imediatamente reconhecíveis como criações que só poderiam ser de Mozart.

Referindo-se a Bodas de Fígaro, Swafford escreve: “No final há somente amor. Para Mozart, o amor sempre impera no final, um amor de corações, mentes e corpos (Mozart “nunca esqueceu as camas e os corpos apesar do problema que causam”, acrescenta o autor ironicamente).

Segundo o autor, “em todas as suas dimensões, do inspirado libreto à inspirada partitura, na harmonia do personagem, ação e realização musical, em sua vasta comédia e sua amarga sabedoria humana, Figaro é o mais próximo da perfeição que Mozart chegou, ou seja, o mais próximo da perfeição que a própria ópera já chegou.

Este é um livro excelente sobre Mozart para músicos e para o leitor em geral. A história é narrada num estilo vívido, informativo, sem exemplos musicais, mas impregnada de uma discussão desapaixonada e erudita da obra do compositor. Somente quase no final do livro sentimos a enorme ausência que foi deixada pela morte dele - e a evocação do autor do momento em que Mozart soube que estava morrendo é apropriadamente aterradora.

E de fato, Mozart foi enterrado numa “vala comum”, mas isto estava de acordo com o costume vienense da época. Ninguém teria acompanhado o funeral, que se realizou fora dos muros da cidade (o que também era um costume da época) - a cinco quilômetros de uma estrada acidentada a caminho do Cemitério de St. Marx. Mas sua sublimidade já era reconhecida e sua música tocada em Viena, depois na Europa e em todo o mundo, onde, esperamos, mesmo nestes tempos atribulados, que sempre será tocada.

Tradução de Terezinha Martino

Mozart: The Reign of Love

Autor: Jan Swafford

Editora: Harper

810 pág. - US$ 45 

Tim Page é professor de música e jornalismo na universidade do Sul da Califórnia e autor de vários livros. Recebeu o Prêmio Pulitzer em 1997 por seus artigos sobre música para o The Washington Post.

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