Hazel Thompson/The New York Times
Hazel Thompson/The New York Times

Biólogo Richard Dawkins combate pensamento supersticioso em livro

'Ciência na Alma' reúne 42 textos do britânico que é uma espécie de profeta do ateísmo e da razão

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2018 | 16h00

O título de Ciência na Alma, que reúne 42 ensaios e palestras do etólogo britânico Richard Dawkins, soa como uma contradição em termos graças à antiga oposição entre razão e fé. Em vez de relativizar esse antagonismo, como muitos pensadores contemporâneos, o autor faz questão de realçá-lo com uma citação de Carl Sagan sobre as superstições: “Você pode procurar o curandeiro para desfazer o feitiço que causa a sua anemia perniciosa, ou pode tomar vitamina B12. Se quiser poupar seu filho da pólio, pode rezar ou vaciná-lo.”

Se o autor parece hostil às religiões, há uma explicação. Desde sua obra-prima, O Gene Egoísta (publicado em 1976, e tido por Ian McEwan como o livro que “iniciou uma era de ouro da literatura científica”), Dawkins sempre foi um polemista. Ele é um dos principais expoentes do Novo Ateísmo, movimento surgido nos anos 2000, ao lado do escritor inglês Christopher Hitchens, do neurocientista americano Sam Harris, da ativista somali-holandesa Ayaan Hirsi Ali e do filósofo francês Michel Onfray. Uma das principais críticas a esses intelectuais é justamente a maneira como se posicionam contra as religiões, comparados a fundamentalistas anti-fé. No entanto, esse ateísmo não é tão “novo” assim, remontando ao matemático inglês Bertrand Russell, autor de Por Que Não Sou Cristão (1927), e ao biólogo  Thomas Huxley (avô de Aldous), um dos primeiros darwinistas e responsável por cunhar o termo “agnóstico”. 

O tom provocativo do autor de Deus, um Delírio, embora denote sua clareza de pensamento (John Maynard Smith afirmou que ele “aparentemente pensa em prosa” ao apresentar seus argumentos mais incisivos), é também uma desvantagem para Dawkins, uma vez que o etólogo se arrisca a pregar para convertidos (ou para não convertidos, no caso de seu público majoritariamente ateu). Muitos dos leitores podem não passar da primeira página ao se deparar com a definição dele para as religiões abraâmicas, “os três cultos rixentos que, por acidente histórico, ainda afligem o mundo”. Quem superar esse início agressivo, todavia, encontrará um compilado de ideias preciosas e até mesmo um ou outro mea culpa por conta de sua escrita ferina, como em A Teologia do Tsunami, texto que aglomera suas respostas às críticas de leitores ofendidos.

Em tempos de pós-verdade, terraplanismo, polarização política e desconfiança em relação às vacinas, Ciência na Alma é um bálsamo. Contra a acusação de que os postulados científicos “não passam de teorias”, falácia que ganhou força nos últimos anos devido à ignorância geral quanto à natureza de uma teoria, Dawkins reconhece que as leis de Newton, por exemplo, são apenas uma aproximação e que a Relatividade de Einstein pode ser suplantada algum dia. “Mas isso não as rebaixa ao nível da bruxaria medieval”, rebate. “São aproximações nas quais você pode apostar a sua vida, e é isso o que fazemos regularmente. Quando viaja de avião, o nosso relativista cultural deixa sua vida a cargo da levitação ou da física, do tapete mágico ou da fabricante de aeronaves McDonnel Douglas?”

Do mesmo modo, em O Adendo do Alabama, discurso proferido no estado americano cujas escolas públicas eram obrigadas a questionar abertamente a veracidade da Evolução para os alunos, Dawkins reconhece que as ideias darwinianas são uma teoria, mas “que tem tanta probabilidade de ser refutada quanto a teoria de que a Terra gira em torno do Sol ou a teoria de que a Austrália existe”.

Analisados pelo viés biológico, debates prementes de nossos tempos ganham contornos diferentes, e é a partir dessa visão alternativa que os leitores afastados pelo discurso áspero de Dawkins poderiam repensar suas convicções: “Os ativistas contra o aborto afirmam categoricamente que a ‘vida’ é preciosa enquanto devoram um bife gordo sem a menor preocupação. (...) Não é nada evidente que o aborto de um feto de um mês seja assassinato e abater um elefante adulto ou um gorila-das-montanhas plenamente senciente não o seja.” 

Em A Mão Morta de Platão, Dawkins demonstra como a filosofia essencialista do pensador grego influencia nosso pensamento ainda hoje. Para ele, essa é a origem do problema que ele chama de “mente descontínua”, uma dificuldade que o senso comum impõe para se compreender transformações pequenas e graduais. “Em que momento uma vítima de acidente com morte cerebral é definida como ‘morta’? Em que momento de seu desenvolvimento um embrião se torna uma ‘pessoa’? Só uma mente infectada pelo essencialismo faria essas perguntas.” Assim, Dawkins mostra que pautas em discussão atualmente, como aborto e eutanásia, são tratadas de forma rasteira quando se leva em conta apenas as convicções religiosas, sem o ponto de vista científico.

A mente descontínua, para Dawkins, dificulta a compreensão da evolução das espécies como um processo gradual que se dá ao longo de um período muito grande de tempo: “Se uma máquina do tempo pudesse trazer para você o seu ducentésimo milionésimo bisavô, você o comeria com molho tártaro e uma fatia de limão. Ele foi um peixe.”

Como os grandes divulgadores científicos, ele nos faz enxergar a realidade por ângulos incomuns, distante das lentes empoeiradas da banalidade cotidiana, e reavaliar conceitos há muito impregnados na sociedade. Afinal, a natureza, como Dawkins escreve, “é indiferente a algo tão pouco abrangente como os valores humanos.”

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