Biomacarthismo

Biomacarthismo

Na crise do Ebola, a mídia americana espalhou um conhecido vírus caseiro: o do pânico

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

25 Outubro 2014 | 16h00

Daria um filme. Ou vários filmes. Que tanto podia ser um disaster movie (na linha de Epidemia), um documentário-denúncia (como os de Michael Moore) ou um thriller urbano (em torno da busca às pessoas com as quais o ebolaminado dr. Craig Spencer, desde quinta-feira de quarentena no Hospital Bellevue de Manhattan, manteve alguma forma de contato físico desde que chegou a Nova York, procedente da Guiné). 

Um filme sobre uma imaginária pandemia do vírus Ebola quase foi produzido na década passada, com Robert Redford, Jodie Foster e direção de Ridley Scott, mas a Fox não levou o projeto adiante. Melhor assim. Sua fonte de inspiração, o best seller de Richard Preston The Hot Zone, que vendeu mais de 3 milhões de exemplares e aqui foi traduzido pela Rocco em 1995 com o título de Zona Quente, tinha erros crassos, porém desculpáveis, de sintomatologia. O Ebola não é transmitido pelo ar, como uma gripe, nem faz com que suas vítimas chorem lágrimas de sangue. Preston pensou em corrigi-los, mas sua editora, assanhada pelo novo surto do vírus na Libéria, Serra Leoa e Guiné, acaba de enviar 150 mil exemplares da versão original para as livrarias.

Em qualquer tipo de filme sobre o Ebola caberia meia dúzia de ilações e denúncias sobre questões de segurança (dos laboratórios e do aeroporto por onde o dr. Spencer regressou ao seu torrão), de política sanitarista e de responsabilidade profissional e política. O não monitoramento da entrada do dr. Spencer em território americano foi apenas o último dos vacilos cometidos pelos seus patrícios. Outro: o engavetamento de uma auspiciosa pesquisa científica sobre o Ebola. 

Na década passada, cientistas americanos e canadenses testaram uma vacina em macacos, com êxito total, mas não puderam experimentá-la em humanos por falta de apoio financeiro. Os grandes laboratórios não se interessam pela cura de doenças que só atingem populações pobres, esclareceu uma reportagem do New York Times, publicada quinta-feira. Pode ser que agora, com o vírus “dentro de casa”, a vacina saia finalmente. 

Dinheiro não falta. O mundo empata US$ 1,7 trilhão em gastos militares e apenas US$ 27 bilhões em saúde pública, disparidade obscena que até o conservador Wall Street Journal fez questão de salientar essa semana. O continente africano é o que mais sofre com essa disparidade. Embora carregue o fardo de 24% das doenças infecciosas do planeta, dispõe de apenas 3% de profissionais da saúde para delas dar conta. Cuidar bem da saúde pública é uma utopia em países constantemente assolados por disputas tribais e guerras civis, onde os recursos para assistência médica e saneamento básico são desviados para a compra de armamentos. 

Explorada por suas reservas de diamantes, ouro, bauxita e petróleo, a África perdeu 90% de florestas virgens para atividades predatórias ligadas à mineração e ao agronegócio. A frequência e severidade dos surtos do Ebola e pestilências afins têm relação direta com essa agressão ambiental, sobremodo agravada pelos depósitos de lixo químico, drogas e agentes biológicos que lá instalaram. Populações inteiras se viram obrigadas a conviver com animais que sobreviveram ao desmatamento, como morcegos e macacos, justo os principais vetores de parasitas, bactérias ou vírus letais que há décadas dão destaque ao continente no noticiário internacional.

Acredita-se que aquele menino de 2 anos que em 6 de dezembro de 2013 morreu no vilarejo de Meliandou, na Guiné, ardendo em febre e vomitando e defecando a alma, tenha sido mordido por um morcego procedente do Congo. Mas qual a origem do vírus nele hospedado? Isso ainda é um enigma zoonosológico. 

Para o professor Francis A. Boyle, especialista em terrorismo biológico, o Ebola teria escapado dos laboratórios de guerra biológica (“bio-warfare”) montados pelos EUA em países da África Ocidental não sujeitos às determinações da Convenção Sobre Armas Biológicas, assinada em 1972. Das especulações a respeito, essa é a mais arrojada - e a mais alarmante. 

Segundo Boyle, há três décadas o Pentágono e seus centros de controle e prevenção de doenças (CDCP, na sigla em inglês) fazem experiências com vírus, supostamente para desenvolver vacinas, mas também para produzir agentes infecciosos de eventual serventia bélica. Para localizar esses laboratórios, basta consultar o mapa dos CDCPs, recomenda o professor. Um deles fica em Kenema (Serra Leoa), epicentro da atual epidemia.

Em janeiro deste ano, dois meses antes do surto do Ebola na Guiné e em Serra Leoa, o Departamento de Defesa dos EUA financiou testes do vírus em seres humanos, de parceria com a gigante farmacêutica canadense Tekmira. Cientistas de Harvard e Yale se alvoroçaram. Só o britânico The Guardian repercutiu o alvoroço, mas não me lembro se chamou a atenção para esta coincidência: cobaia, em inglês, é “guinea pig”.

A mídia americana, com as exceções de praxe, espalhou um conhecido vírus de fabricação caseira: o vírus do pânico. Ou da histeria, como preferiu qualificá-lo Robert Reich. Adultos e crianças foram segregados porque recentemente estiveram em algum país africano, ainda que bem distante de sua costa ocidental. Um professor texano teve de se licenciar porque seus alunos desconfiavam que ele havia contraído o vírus numa viagem ao Quênia, na costa oriental da África. Um autêntico biomacarthismo.

Enquanto os americanos alimentavam paranoias e a Casa Branca realejava promessas, a ditadura cubana, pragmática, enviou 165 profissionais de saúde ao triângulo epidêmico, acrescidos de mais 83 médicos na sexta-feira, demonstração de solidariedade que até mereceu um elogioso editorial do New York Times.

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