Tasso Marcelo/Estadão
Tasso Marcelo/Estadão

Bloco carnavalesco mais tradicional do Rio completa cem anos

Cordão do Bola Preta foi fundado como uma forma de enfrentar a proibição dos grupos de 'perturbavam a ordem pública'

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

10 Fevereiro 2018 | 16h00

Sempre me intrigou a fixação dos velhos cronistas carnavalescos do Rio pela letra k. No início do século, praticamente todos os jornais cariocas possuíam o seu cronista carnavalesco, o mais das vezes dublê de cronista esportivo. Chamavam-se Antonio, Alvaro, Norberto, João, mas, talvez por que julgassem seus nomes demasiado prosaicos, adotaram trocadilhescos pseudônimos que deles jamais desgrudaram. Todos com a letra k. Antonio Velloso, por exemplo, assinava-se K. Noa. Havia ainda K.K. Reco, K. Peta, K. Rapeta, K. Tuca. 

Nunca soube o por quê dessa fixação. Influência de Kafka, decerto não foi. Atração estética? É possível. K é uma letra imponente, embora 100% forasteira – um c fidalgo. A última flor do Lácio não a trouxe no sangue porque os romanos a roubaram do kappa grego e um dia a baniram do seu alfabeto. 

Boêmios de escol, os integrantes da folclórica konfraria começavam a pôr lenha na fuzarca ali por volta de outubro, quando as primeiras festas pré-carnavalescas juntavam o profano e o sagrado no arraial da igreja de Nossa Senhora da Penha. Durante o chamado tríduo momesco, bombavam nas gazetas. Nenhum deles mais do que K. Veirinha. 

Antes de virar K. Veirinha, o jornalista Alvaro Gomes de Oliveira era conhecido por outro apelido, Trinca Espinha, gozação à sua magreza somaliana, a sequela mais visível que a gripe espanhola lhe deixara. Alvaro pertencia, desde a adolescência, ao Democráticos, o concorrente alvinegro dos Fenianos, Tenentes do Diabo e outros menos votados. Ou seja, era um “carapicu” de raiz. Seria um “gato” se filiado aos Fenianos e um “baeta” se ligado aos Tenentes. Ainda era um “carapicu”, mas já K. Veirinha, quando, em 1918, realizou a maior façanha de sua vida: afrontar a polícia e fundar um grupo carnavalesco da pesada. 

O poder repressor do Estado vivia há décadas implicando com os carnavalescos e reprimindo os pândegos mais animados. Com o jurista Aurelino Leal nomeado pelo presidente Venceslau Braz para impor a lei e a ordem no Distrito Federal, o panorama, se mudou, foi para pior. Político baiano, filho de “coronel” e hoje nome de município, rua e escola, Leal é o autoritário chefe de polícia aludido no histórico samba Pelo Telefone, lançado por Donga e Mauro de Almeida em 1917. 

Ao tomar conhecimento de uma portaria baixada por ele, ameaçando cassar as licenças de “grupos e cordões que perturbassem a ordem pública” e proibindo “a fundação de grupos similares”, K. Veirinha reuniu sua patota no Bar Nacional da Galeria Cruzeiro (onde hoje fica o Edifício Central), e juntos, arrotando chope e rebeldia, fundaram um novo cordão. “Ele disse que ia fechar todos os cordões, mas o nosso ele não fecha!”, desafiou K. Veirinha. “O nosso é da bola preta”. E não fechou mesmo. O podestade da capital da República morreria seis anos depois, antes de chegar aos 50. O Cordão do Bola Preta está festejando seu centenário este ano.

A rebeldia sempre bateu bumbo na folia carnavalesca. Os clubes da segunda metade do século 19 engajaram-se nos movimentos cívicos latentes na época, participaram da campanha abolicionista e colaboraram com a implantação da República. Seus préstitos crítico-alegóricos debochavam dos escravocratas e da monarquia. Quatro anos antes da criação do Bola Preta os fenianos acrescentaram ao seu repertório de provocações a questão da emancipação feminina, incentivando a mulher brasileira a “trabalhar fora” e deixar de ser “a deusa do lar”. 

O Bola Preta manteve a tradição. E até a radicalizou, ao entronizar uma Rainha Moma, dois anos depois da instituição do Rei Momo, dito primeiro e único, o comandante supremo da fuzarca. O Rei não gostou da concorrência. Mas o fato é que, no Carnaval de 1935, Frederica 1ª (ou Eulália Sebastiana Theodorica Hortência Frederica, vulgo “Coração de Leoa”) desfilou pelo centro do Rio num feérico cortejo patrocinado pelo jornal A Noite, o início de uma série que se estenderia até 1943. 

Vestida em estilo rococó, empunhando um esnobe lornhão, e seguida por uma pequena guarda pretoriana formada por K. Veirinha, Chico Brito, Vaselina, Pato Rebolão e outros próceres bolapretenses, Frederica 1ª sequer se furtou a dar umas alfinetadas em seu rotundo rival. Após saudar o “povo da cidade mais carnavalesca do mundo”, mandou ver: “Aqui estou, disposta a farrear e esquecer aquele paquiderme, que não merece, um só dia, o meu puro e santo amor!”

Era uma caricatura, uma figura grotesca, o oposto das beldades que há décadas enfeitam os desfiles da agremiação mais antiga, célebre e animada do carnaval da cidade. Sua porta-bandeira cativa é a atriz Leandra Leal, que no ano passado puxou uma multidão de mais de 1 milhão de foliões, a entoar a plenos pulmões o hino do cordão: “Quem não chora não mama, segura, meu bem, a chupeta. Lugar quente é na cama ou então no Bola Preta”. Composto em 1937 por Vicente Paiva e Nelson Barbosa, até os turistas gringos aprenderam a cantá-lo. Em português. Como antes aprenderam outro hit internacional de Paiva, Mamãe Eu Quero. A chupeta, pelo visto, era a letra k de Vicente Paiva.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.