MICAH FARFOUR/AP
MICAH FARFOUR/AP

Boko quem?

Líder nigeriano não só não age contra grupo extremista como nem sequer admite atentado

Siohbán O’Grady, FOREIGN POLICY

17 Janeiro 2015 | 16h00


Enquanto as atenções do mundo todo se concentravam em Paris, na semana passada, os militantes do Boko Haram destruíram a cidade de Baga e várias aldeias próximas, no norte da Nigéria, matando 2 mil pessoas e provocando o êxodo de milhares de outras. No sábado, pelo menos mais 16 pessoas foram mortas quando os extremistas prenderam uma bomba a uma garotinha de aproximadamente 10 anos e a detonaram num mercado lotado.

Esperávamos que o presidente nigeriano Goodluck Jonathan condenasse a carnificina que grassa no país, particularmente depois que ele definiu o massacre num semanário satírico francês como um “covarde ataque terrorista”. Estávamos errados: Jonathan ainda não admitiu sequer a ocorrência dos ataques do Boko Haram.

Na segunda-feira, um porta-voz do Ministério da Defesa da Nigéria disse que o número de mortos no massacre de Baga foi “exagerado” e o próprio tribunal do governo informou que houve apenas 150 mortos. Outros grupos estão trabalhando com um número considerável, mas o governo nigeriano costuma subestimar e minimizar o predomínio do Boko Haram. Jonathan, que tem sido amplamente criticado por não ter derrotado o grupo, candidatou-se à reeleição nas eleições de 14 de fevereiro, quando enfrentará Muhammadu Buhari, um muçulmano do norte do país que apresentou um programa em que promete aumentar a segurança. 

No domingo, o arcebispo nigeriano Ignatius Kaigama disse à BBC que o Ocidente não fez o suficiente para conter os extremistas. Mas foi Jonathan quem ordenou o cancelamento do programa do Pentágono destinado a criar um batalhão especial capaz de derrotar o Boko Haram. Os Estados Unidos vêm treinando combatentes nigerianos, mas não os armaram porque o Exército nigeriano se envolveu anteriormente em várias violações dos direitos humanos, inclusive massacres e estupros.

O governo de Jonathan e seus apoiadores tentaram culpar o Ocidente pela ascensão do Boko Haram em lugar de assumir a responsabilidade pela crescente ameaça do grupo. Mas esse é um tema espinhoso para ser tratado agora, quando funcionários de alto escalão da ONU exigem ação. No domingo, o gabinete do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, informou que ele está “alarmado” com os ataques de Baga e advertiu que o Boko Haram ameaça a estabilidade de toda a região. Leila Zerrougui, enviada da ONU para a questão das crianças e o conflito, chegou à Nigéria domingo passado para encontrar-se com líderes do governo e com parceiros locais em Abuja, antes de viajar mais para o norte, onde se reunirá com crianças refugiadas e suas famílias. A ONU não conseguiu confirmar se ela se encontraria com Jonathan, mas um porta-voz disse à revista Foreign Policy que sua viagem de seis dias foi planejada antes dos ataques de domingo e tratar o problema representado pelo Boko Haram está no topo de sua agenda de 2015.

Rona Peligal, diretora-geral da divisão da África para o Human Rights Watch (HRW), disse à Foreign Policy que, embora o fato de o Boko Haram ter usado uma criança como “suicida” seja horrendo, essa não é a primeira prova de que o Boko Haram já utiliza crianças para intensificar seus ataques. As estudantes sequestradas de Chibok, na primavera passada, não só foram estupradas como foram “forçadas a servir de chamarizes para o Boko Haram e a ferir outras pessoas”, ela explicou.

E tampouco ajuda que, do outro lado do confronto, crianças também sejam usadas para tentar conter o grupo.

De fato, como o Exército nigeriano continua não reagindo aos ataques do grupo, as crianças estão ingressando cada vez mais na Força Tarefa Conjunta Civil, um grupo de autodefesa que combate os extremistas no norte. O HRW noticiou que, quando os meninos recrutados pelo Boko Haram são apanhados pelas forças de segurança, frequentemente são violentados ou mortos, independentemente de sua idade. Testemunhas disseram ao HRW que crianças muçulmanas costumam ser visadas pelas forças de segurança nigerianas para depois desaparecerem em prisões secretas durante anos. Segundo alguns antigos presos, as condições das celas provocaram centenas de mortes por desidratação, fome e abusos.

Vizinhos da Nigéria como Chade e Camarões também sofreram em razão da incapacidade de Jonathan de repelir o Boko Haram. Na segunda-feira, soldados camaroneses informaram que o Boko Haram realizou um segundo ataque contra uma base militar do país em apenas duas semanas. O de segunda-feira visou a uma base em Kolofata, a 10 quilômetros da fronteira nigeriana. Ataques anteriores a Kolofata incluíram o sequestro da mulher do vice-primeiro-ministro, resgatada em uma operação realizada em junho na qual morreram pelo menos 12 agentes das forças de segurança camaronesas.

O porta-voz do governo camaronês, Issa Tchitoma Bakary, disse que os militares camaroneses perderam um soldado, mas mataram 143 militantes no ataque de segunda-feira. Quando os militantes atacaram uma base militar camaronesa mais vulnerável, no final de dezembro, o governo de Camarões foi obrigado a responder com ataques aéreos.

As escolas perto da fronteira nigeriana no Chade e em Camarões foram fechadas como medida preventiva para proteger os estudantes visados pelo Boko Haram, cujo nome pode ser traduzido grosseiramente da linguagem hausa como “a educação ocidental é proibida”.

E embora houvesse um momentâneo apoio à Nigéria na sequência dos sequestros de Chibok, muito pouco foi feito para garantir a segurança dos que sofrem com a violenta cruzada do grupo no norte - ou para procurar erradicar o problema, armando tropas para combater os terroristas. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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