Bola com a política

‘Politizar’ as eleições significaria abrir o jogo entre interesses coletivos e particulares

Marco Aurélio Nogueira, O Estado de S. Paulo

12 Julho 2014 | 16h00

A oportuna e enigmática declaração da presidente Dilma Rousseff de que a próxima disputa presidencial será “a mais politizada da história” sugere reflexão.

Pode-se antes de tudo imaginar que a presidente quis se referir ao fato de que a disputa privilegiará a dimensão política, de modo a fazer com que as divergências entre os candidatos ultrapassem o plano adjetivo, mesquinho e superficial e se explicitem de forma substantiva, consistente. 

Há dois modos típicos de se discutir divergências políticas. Cada um se subdivide em dois, que se combinam.

Um deles privilegia o público e o que é de interesse coletivo; o outro privilegia os correligionários e o que é de interesse particular (de um partido ou candidato). O primeiro politiza bem mais que o segundo, que pouco faz além de partidarizar.

A outra polarização sugere que se pode agir para destacar o que diferencia as posições divergentes ou o que as aproxima. No primeiro caso, busca-se a preponderância, aquilo que isola e distancia um do outro. No segundo, busca-se o que os divergentes têm em comum e pode servir de base para que se atenuem as diferenças. Nesse caso, o primeiro produz tensão e exclusividade: é arrogante, digamos assim. O segundo produz relaxamento e cooperação: é mais humilde. 

São duas formas de pensar a politização. Uma politiza mais, tem qualidade superior: incorpora, agrega e educa, busca enfatizar o que é comum e mais relevante. A outra politiza menos, tem baixa qualidade: trabalha dividindo e separando, oferecendo ao público um alimento já mastigado e artificialmente universal.

No Brasil atual, todos os protagonistas - tucanos, petistas, socialistas, verdes, comunistas, liberais, conservadores, democratas - politizam buscando afirmar a própria posição e desrespeitando ou ignorando as posições alheias. Por isso, o debate político não avança, não gera interlocução. A explicação para tal situação pode ser encontrada tanto na má qualidade dos debatedores quanto na ausência, neles, de algo mais do que interesse de parte, cegueira perante o que é interesse coletivo. Tem-se dito o tempo todo: faltam projetos de sociedade, sobram projetos de poder.

Os dois modos podem ser combinados no decorrer de um embate político. Costumam ser combinados, aliás, já que política é busca de afirmação e de sedução, tentativa permanente de ser protagonista e de atrair os que pensam diferente, se possível para impedi-los de ser protagonistas. Mas um dos modos tenderá a prevalecer, na dependência da personalidade, das intenções e dos projetos dos contendores.

O modo como se pensa a politização interfere no modo como se faz política. Por mais que sofra a influência das circunstâncias históricas globais - cada época tem sua política -, a discussão política está fortemente determinada pela cultura de cada sociedade. Ocupa, aliás, um lugar central nessa cultura, tendendo a preencher muitos espaços e florescer onde menos se espera.

As manifestações dos torcedores brasileiros durante a Copa de 2014 refletiram de alguma maneira o modo como pensam e agem politicamente. A facilidade com que se passou do campo de jogo para o campo político indica com clareza isso, assim como as vaias e ofensas dirigidas à presidente e aos hinos de outros países. Quiseram indicar com isso que a culpa pelo fracasso no campo ou pelo que muitos consideram erros de organização do evento devia ser imediatamente associada à política.

Assim como esteve encharcado de política o modo como se reagiu ao cataclismo provocado pelos 7 a 1 da Alemanha. Queimaram-se bandeiras, buscaram-se responsáveis, fizeram-se acusações, falou-se que a seleção teria “obrigação de vencer” mesmo que estivesse despreparada e praticasse um futebol abaixo da média. Não se viu o jogo politicamente, quer dizer, como uma disputa entre contendores que respeitam regras e buscam fazer com que o substantivo prevaleça sobre o adjetivo. 

A derrota humilhante ainda não foi processada. Poderá ser - e é de desejar que seja - devidamente politizada, analisada com a prevalência do coletivo sobre o individual, do todo sobre a parte, assim como com a devida consideração do que há de processo e de história, de projeto e mentalidade, de preparo e improviso, de fortuna e virtù, de disciplina e organização num simples esporte popular. Sem isso, pouco se tirará de positivo do fiasco. Não se aprenderá com ele e, no dia seguinte, a vida futebolística seguirá a mesma. Despolitizada. 

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Marco Aurélio Nogueira é professor titular de Teoria Política e Coordenador do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da Unesp
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