DAVID BUTLER II /USA TODAY
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Bola murcha

Hoje só se fala no Deflategate, escândalo que envolveu o mais famoso quarterback americano

Kenneth Serbin, O Estado de S. Paulo

01 Agosto 2015 | 16h00

Na terça-feira, o veterano repórter de televisão Scott Pelley começou o Evening News, noticiário noturno da rede CBS, um dos programas de notícias mais vistos dos EUA, em tons lúgubres: a NFL (liga nacional de futebol americano) havia mantido a decisão de suspender Tom Brady por quatro jogos. O quarterback teria participado dos esforços de seu time para esvaziar as bolas que ele arremessava a fim de ganhar vantagem durante as semifinais do campeonato em janeiro deste ano.

O escândalo é conhecido como Deflategate, um jogo com as palavras “deflate” (esvaziar) e Watergate, o local invadido por arrombadores que causou a queda do presidente Richard Nixon, em 1974.

Na última semana, o Deflategate ganhou igual atenção de outras emissoras, como tem acontecido desde que a equipe de Brady, os New England Patriots, venceu o Super Bowl, a final do campeonato.

Como quarterback, Brady, marido da supermodelo brasileira Gisele Bündchen, joga na posição mais importante do time. Ele arremessa a bola para “recebedores” que tentam correr até a linha de gol para marcar pontos. Brady presumivelmente poderia arremessar com mais facilidade uma bola “murcha”, que também seria mais fácil de ser apanhada por seus colegas.

Vencedor por três vezes do Super Bowl, ele se tornou um ícone dos esportes - mas, com sua punição pela liga, também está sendo chamado de embusteiro. O Deflategate é só o mais recente de uma série de escândalos de trapaça envolvendo os Patriots que se estende por várias décadas.

O comissário Roger Goodell da NFL confirmou a suspensão de Brady depois da revelação de que ele disse a um assistente para destruir seu telefone celular - e com ele o conteúdo de 10 mil torpedos - no dia em que se reuniu com investigadores contratados pela NFL para avaliar o caso.

Durante todo o escândalo, Brady negou qualquer transgressão - apesar de os Patriots terem suspendido os dois homens envolvidos no esvaziamento das bolas.

Ninguém perguntou por que a NFL não aplicou uma punição mais dura - como uma suspensão de um ano ou um banimento de Brady do esporte.

Em 1989, o comissário de beisebol baniu permanentemente do esporte Pete Rose, um dos maiores jogadores da história, por suas atividades em apostas. No caso de Brady, não poderia ter saído uma punição mais dura. A NFL, ele e a mídia precisam uns dos outros.

Os Patriots são o segundo time mais valioso da NFL, com o valor aproximado de US$ 2,6 bilhões. Brady é um dos jogadores mais ricos da liga, tendo ganho quase US$ 15 milhões em salário regular na temporada de 2014, mais bônus de campeonato e milhões de dólares em endossos de produtos.

A CBS (e outras redes) transmite os jogos da NFL que todo ano atrai algumas das maiores audiências da televisão.

Como a NFL aparenta ser uma grande instituição americana - aliás, assistir aos jogos no domingo se tornou mais importante do que frequentar serviços religiosos - Goodell precisava punir Brady para manter uma aparência de lisura.

Mas Brady é valioso demais para a liga para desaparecer de cena. E o próprio escândalo acabou proporcionando uma maneira para Brady, o time, e a liga ficarem no centro das atenções, realçando a dramaticidade da próxima temporada, que começa em agosto. Como escreveu um comentarista esportivo, referindo-se às criticas públicas a Goodell, feitas pelo dono dos Patriots, Robert Kraft: “Isto é uma guerra civil”.

Torcedores e anunciantes apoiam toda a empreitada e é de se pensar se Goodell, Kraft e Brady não estarão rindo à socapa da situação. Assim, os EUA continuam a sofrer de uma farsa jornalística ilusória. Os noticiários de televisão tipicamente começam com a matéria mais importante. Não é preciso ser nenhum gênio para escolher uma mais significativa que o Deflategate.

Não surpreende que Donald Trump também esteja dominando as manchetes. Como Brady e a NFL, ele é um showman. O país que teve Arnold Schwarzenegger como governador de um de seus Estados mais importantes, a Califórnia, está cercando de atenção um bufão político.

Às vezes, a melhor metáfora para descrever o país parece ser um circo. Olhando de fora, pode-se imaginar a seguinte manchete, que revela o grau de farsa envolvido: “Americanos preocupados com pressão de ar em bolas de futebol americano”.

Enquanto isso, a história passa. A maioria dos cidadãos americanos continuará desinformada sobre assuntos noticiosos cruciais - tanto negativos como positivos - porque a mídia está empenhada em ignorá-los.

/ TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

KENNETH SERBIN É HISTORIADOR E PROFESSOR NA UNIVERSIDADE DE SAN DIEGO

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