Bombardeio impessoal

Enquanto prossegue a investigação dos atentados à bomba na Maratona de Boston de 15 de abril e se reacende o debate sobre as consequências internas negativas das ações dos Estados Unidos no exterior, é espantoso como uma imensa porção da cidadania dessa superpotência internamente democrática continua desligada dos assuntos estrangeiros.

O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2013 | 02h08

A atitude decorre, em boa medida, do enorme progresso tecnológico e de uma tendência de muitos americanos ao  isolamento social.

Em 1970, em seu best-seller The Pursuit of Loneliness: American Culture at the Breaking Point (publicado no Brasil como A Busca da Solidão), o sociólogo Phillip Slater identificou essa tendência e sua relação com a guerra.

Slater descreveu a maneira como pilotos de bombardeiros americanos no Vietnã praticavam a "violência a distância".

"Bombardeiros B-52, voando de Guam, a 4 mil quilômetros de distância, ou da Tailândia, largando bombas de uma altura de 12 mil m para que não fossem vistos nem ouvidos do chão, podiam arrasar um vale inteiro", escreveu.

"Voar muito acima de um alvo impessoal e apertar alguns botões para transformar 130 km² num mar de chamas é menos traumático para o americano comum de classe média do que infligir um ferimento superficial de baioneta a um único soldado. O aviador está protegido do contato íntimo com as vítimas de suas mutilações. Ele não vê mulheres e crianças sendo horrivelmente queimadas até a morte - o que faz com que elas nada signifiquem para ele."

O que teve significado para os americanos foi o fato de que, durante a guerra, centenas de milhares de recrutas serviram no Vietnã.

A despeito da superioridade militar, os Estados Unidos perderam em ambas as frentes de guerra - na de batalha, contra um inimigo ferozmente nacionalista, e na doméstica, em que o sentimento popular se voltou contra uma guerra sem foco claro que ceifou mais de 58 mil vidas americanas.

As Forças Armadas dos Estados Unidos fizeram um profundo exame de consciência e produziram uma das menos comentadas, mas mais impressionantes, reviravoltas da história das instituições modernas, levando o país a recuperar seu poder e prestígio.

Líderes americanos idealizaram também um modo de reduzir drasticamente o papel da política na tomada de decisões bélicas ao substituir o alistamento obrigatório por Forças Armadas só de voluntários. Com isso, o país criou engenhosamente um novo método de "violência a distância", delegando a combatentes profissionais o fardo da guerra.

Como disse um fuzileiro naval veterano dos conflitos no Iraque e no Afeganistão algum tempo antes de cometer suicídio, os americanos fazem compras nos shoppings enquanto os soldados combatem nas guerras.

No incidente de Boston, a alienação, e mesmo a extrema ignorância, de novo ficaram cristalinamente evidentes.

Na falta de uma análise séria, as transmissões contínuas e ao vivo na TV da caçada aos suspeitos assumiram o tom dos dramáticos, ficcionais programas de crime que são pratos de resistência das redes.

Para corrigir comentários errados divulgados na mídia social sobre a origem dos atacantes, identificados pelas autoridades como imigrantes chechenos, o embaixador checo nos Estados Unidos fez um comunicado: "A República Checa e a Chechênia são duas entidades muito distintas - a República Checa é um país centro-europeu; a Chechênia faz parte da Federação Russa".

A tragédia só pareceu ficar mais clara quando americanos horrorizados tomaram conhecimento de como os ataques tinham matado e mutilado pessoas. Numa transmissão de TV, uma mulher relatou sua terrível decisão de permitir que os médicos amputassem seu pé gravemente ferido.

Muito poucas conexões foram feitas entre eventos no exterior e os atentados. O sistema de defesa nacional continua a proteger pessoas das atrocidades da guerra com a mais recente inovação em "violência a distância": os aviões não tripulados, drones.

O presidente Barack Obama determinou pessoalmente ataques com drones, que mataram milhares de pessoas em países como Iêmen e Paquistão. Entre os mortos há alegados terroristas (um dos quais, cidadão americano), mas também famílias inocentes. É uma lembrança horripilante da seleção de alvos no Vietnã pelo então presidente Lyndon Johnson.

Como os bombardeiros no Vietnã, os operadores de drones executam burocraticamente as ordens de matar sem noção da dor e da destruição causadas.

A menos que tenham mergulhado nas notícias, a maioria dos americanos está desinformada sobre esse novo tipo de guerra nas sombras que está silenciosamente se transformando em um setor-chave da economia.

No entanto, a morte de um americano e a crescente publicidade sobre a existência dessas armas invisíveis provocaram protestos em que os drones foram considerados uma ameaça às liberdades civis.

Em março, o senador republicano Rand Paul, do Kentucky, denunciou a inconstitucionalidade dos ataques com drones contra cidadãos americanos e pediu uma investigação sobre seu uso. No fim de abril, pequenos grupos de manifestantes também denunciaram a situação.

Enquanto isso, com o objetivo de estimular a responsabilidade cívica e moral dos jovens, alguns líderes pediram um retorno do alistamento militar e/ou o estabelecimento de um programa de serviço social nacional obrigatório.

Com a busca contínua da "violência a distância" perfeita, o alistamento pode se tornar um meio necessário para reduzir as distâncias sociais perniciosas entre as pessoas nos Estados Unidos - e entre os americanos e as vítimas de ações americanas no exterior. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.