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Bonito lhe parece

2014 foi o ano que chutou o balde dos dogmas estéticos e anatômicos. Tudo indica que 2015 vá aprofundar seu legado

Paulo Nogueira, O Estado de S. Paulo

10 Janeiro 2015 | 16h00

Uma menina argentina de 4 anos foi uma santinha o ano inteiro. Não deu outra: neste Natal, o Papai Noel lhe trouxe a boneca Fashion Happy, vestida de tule e seda como uma fada. Só que, quando a criança foi brincar com a boneca, encontrou nela um inconfundível pipi. 

A mãe da menina, a jornalista Nancy Pazos, lançou em seu programa de rádio o debate que inflamou o país: “É ir longe demais ou é a representação no mundo infantil do que já mostra a TV?” Houve quem considerasse os genitais um defeito de fábrica (chinesa). Outros acharam intencional: “O melhor erro de sempre”. Os especialistas pontificaram, mas bateram de frente. Para o psicólogo Ricardo Rodulfo, “a ideia perturba mais os adultos que as crianças”. Já seu colega Miguel Espeche crê que “uma boneca transexual pode confundir numa idade em que se está diferenciando as coisas”. 

Ora, tudo indica que 2015 vá aprofundar o legado de 2014, um ano que deu um bico no balde dos dogmas estéticos e anatômicos com formatações camaleônicas. Por exemplo, com a Lammily, criada pelo designer russo Nicolay Lamm, que vem com tudo que uma boneca tradicional evita: quilos a mais, estrias, celulite e adesivos que simulam acne. Por outro lado, a Matell decidiu produzir de modo permanente a Barbie Quimioterápica, de que havia sido lançada apenas uma edição limitada. Além dos acessórios convencionais, a Barbie careca trará um jogo de perucas. 

Não é de hoje que noções clássicas de beleza são espinafradas. Para efeitos práticos, oxidou o verso marmóreo do inglês John Keats, de que “uma coisa bela é uma alegria eterna”. Em sua História da Beleza, Umberto Eco tem um capítulo intitulado A Vanguarda e o Triunfo da Feiura. E alerta: “O Belo nunca foi absoluto ou imutável, mas assumiu diferentes aspectos de acordo com o período histórico ou o país”. 

Porém, o século 21 bagunçou ainda mais o coreto dos cânones, multiplicando seus naipes. Quarenta anos depois de a capa da revista Vogue estampar pela primeira vez uma modelo negra (Beverly Johnson), a diversidade lembra a definição de Pascal do universo: uma esfera em que o centro está em toda parte, e a circunferência, em lugar nenhum. 

A empresa espanhola Desigual contratou a manequim canadense Winnie Harlow para a campanha outono/inverno. Harlow ficou famosa porque sofre de vitiligo: “Há gente que tem pele negra e gente que tem pele branca - eu tenho as duas”. Jillian Mercado foi outra que causou. De origem dominicana, sofre de distrofia muscular e desfila numa cadeira de rodas. Fechou um acordo com as grifes Diesel e Nordstrom. Também nos EUA, Cassandra Bankson assinou com a Explore Modeling. Ela tem acne cística crônica e seu vídeo no YouTube já registrou 25 milhões de visualizações. Já a americana Rebekah Marine nasceu sem o antebraço direito, desfila para a Model Mayhem e foi nomeada embaixadora do Lucky Finn Project.

A transexual brasileira Lea T continua bombando. Estrela da Givenchy, entrevistada por Oprah Winfrey, é a nova rainha da linha de coloração Chromatics (a maior do mundo no setor). Outro ícone fashion é Andrej Pejic: ele/ela se define como “vivendo entre os gêneros” e foi descrito pelo New York Times como “o rapaz mais belo do mundo”. Pejic desfilou tanto roupas femininas quanto masculinas para Jean-Paul Gaultier. Sem papas na língua, ele subscreveria a perplexidade do teatrólogo brasileiro Paschoal Carlos Magno (gay assumido e espirituoso) com um jovem candidato a ator: “Mas meu filho, por que precisa de mulher, se você já nasceu?”.

No final de 2014, Conchita Wurst - travesti e cantora austríaca barbuda que ganhou o festival da Eurovision, se reuniu com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. E agendaram um encontro para fevereiro próximo para rediscutir “os direitos da comunidade gay”. Com aquela barba hirsuta, aposto que Conchita leu Millôr Fernandes: “Numa vida média de 70 anos, de 100 a 120 dias são empregados pelos homens só no ato de fazer a barba. Ignora-se o que as mulheres fazem com esse tempo”. 

Enquanto isso, no Ceará, alunos da Universidade da Lusofonia Afro-Brasileira lançaram uma campanha (“Luma Lá”) para que a professora Luma Andrade seja nomeada reitora da instituição. Luma é o primeiro travesti brasileiro a fazer doutorado. Como existem outros doutores no país, o jeito é torcer para que o travestismo não seja nem proscrição nem prescrição para o cargo. 

Feministas proeminentes criticaram o transexualismo. A australiana Sheila Jeffrreys acha que “o transgênero reforça preconceitos sexistas”. Camille Paglia encara o transexualismo como “uma moda midiática”, e diz que transexuais “mutilam seus corpos com doses cavalares e diárias de hormônios masculinos”. Outras feministas, como Judith Butler, acreditam que os transexuais desafiam normas repressivas e são aliados do feminismo. 

Enquanto isso, nos EUA, um americano lançou autobiografia intitulada Minha Vida com dois Pênis. A condição que o afeta é a difalia, uma anomalia congênita identificada pela primeira vez em 1069. Muito rara, ela afeta um em cada 6 milhões de homens. O autor, que alega já ter sofrido discriminação, se professa bissexual e “namora um casal”. 

Voltando à Argentina e às bonecas: a exposição Barbie, The Plastic Religion, com inauguração prevista para este mês em Buenos Aires, foi cancelada. Motivo: pressão de clérigos fundamentalistas. O evento, com 33 peças de dois artistas plásticos argentinos, incluía bonecas Barbie e bonecos Ken representando imagens religiosas. Para evitar provocações, abrangiam ícones de várias confissões: a Virgem de Guadalupe, Kali, Jesus e figuras budistas, iorubás e pagãs. Não rolou.

Moral da história: como demonstrou tragicamente o atentado ao Charlie Hebdo, no caso de genitais (seja de bonecas ou humanos) e do senso de humor talvez seja sempre melhor sobrar que faltar.

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