Obras-primas do Cinema
Obras-primas do Cinema

Box reúne filmes clássicos do diretor chileno Alejandro Jodorowsky

'Fando e Lis', 'El Topo' e 'Santa Sangre' acompanham um curta raro do cineasta

Donny Correia*, Especial para o Estado

06 de julho de 2019 | 16h00

Autor de obras marcantes do cinema, como A Dança da Realidade (2013) e Poesia sem Fim (2016), Alejandro Jodorowsky chega aos 90 anos de idade com uma obra perturbadora. Além disso, recentes declarações a respeito do tema do estupro deram margem a diversas especulações impossíveis de serem de fato constatadas, uma vez que o cineasta é especialista em contradizer a si próprio.

Jodorowsky nasceu no Chile e foi mágico e marionetista de circo, experiência que marcaria toda sua filmografia. Na década de 1950, mudou-se para Paris, para aperfeiçoar seus estudos das artes circenses, levando junto seu fascínio pela taromancia, simbologia e outros saberes místicos. Por fim, radicado no México, deu forma a obras cinematográficas muito singulares, criando uma estética própria e uma visão de cinema peculiar. Seus primeiros trabalhos agora voltam ao mercado num box lançado pelo selo Obras-primas do Cinema, integrado por de três de seus longas polêmicos e um curta insólito.

Fando e Lis (1968), primeiro filme da caixa, baseado na peça surrealista de Fernando Arrabal, é um exemplar do cinema transgressor dos anos 1960. Poderia bem ser comparado com trabalhos dos brasileiros Maurice Capovila e Andrea Tonacci, pela forma como renega o cinema tradicional e abre mão da lógica narrativa. No filme, Fando e sua amante paraplégica, Lis, perambulam em busca da mítica cidade de Tar, enquanto se deparam com figuras estranhas.

Com esse trabalho, Jodorowsky ganhou intimidade com a câmera, voltando-se em seguida para a estética do spaghetti western com toque particular. El Topo, de 1970, nos apresenta um pistoleiro errante que leva em seu cavalo o filho de dez anos, como se o quisesse iniciar na arte da violência e nos insondáveis segredos metafísicos de um México desolado. Ao chegarem numa vila, que fora dizimada por um chefe de milícia, o pistoleiro conhece uma beata escrava sexual, que o ajuda a descobrir seu verdadeiro destino: El Topo, o pistoleiro, deverá errar pelo deserto em busca de quatro outros pistoleiros místicos. Se conseguir matá-los, poderá ver revelada sua real missão de vida. O filme já apresenta a estética e a narrativa esotéricas que marcariam a carreira e a vida do diretor. A busca por transcendência é patente em Jodorowsky.

Santa Sangre, de 1989, traz um Jodorowsky que persegue um diálogo íntimo com Psicose de Alfred Hitchcock. À época, o cineasta já era um nome discutido por trabalhos como A Montanha Sagrada (1973) e Tusk (1980), e quase dirigiu sua versão cinematográfica de Duna, o que poderia mudar completamente a história do cinema de ficção científica.

Portanto, a liberdade criativa que lhe era permitida o fazia ousar sem medidas. No filme, Fênix é um jovem que foge do manicômio onde cresceu, para reencontrar sua mãe, cujos braços foram arrancados pelo marido, um dono de circo, o que a fez mergulhar na beatice de uma seita no mínimo estranha. Ao se reencontrar com a mãe, ele passa a agir como um fantoche da mulher. Passa a ser, literalmente, seus braços e suas pernas, que obedecem incondicionalmente sua loucura.

É neste ponto que as semelhanças entre Fênix e o Norman Bates de Psicose dão as mãos. Tal qual o personagem hitchcockiano, o rapaz tem um profundo desejo de se libertar das amarras maternas, mas a culpa, a atração incestuosa e o senso de obediência incondicional frustram sua vontade própria. Assim como Bates, ao tentar inverter o jogo de poderes familiares, o Fênix de Jodorowsky também passará por um processo traumático e criminoso.

Há na caixa, por fim, um exemplar raro e exclusivo dos primeiros passos cinematográficos de Jodorowsky. É o curta-metragem A Gravata, realizado ainda na França, em 1957. O filme, profundamente influenciado pela estética da mímica, que aprendeu diretamente com o gênio Marcel Marceau, é um exemplar genuíno de um visual marcado pelo expressionismo.

Seu enredo, sobre um rapaz que vai a uma barbearia que troca as cabeças dos clientes, ao invés de aparar barba e cabelo, oscila entre o absurdo dadaísta e surreal de Man Ray e Germaine Dulac ao lirismo quase infantil de Chaplin.

Seja pelas polêmicas de seu possível estupro da atriz Mara Lorenzio, de El Topo, seja pelo estranhamento de suas criações, Alejandro Jodorowsky permanece uma das mais inusitadas figuras do cinema, cuja vida e obra são indissociáveis e cujo poder de surpreender seu público renova-se a cada nova obra. 

O lançamento do box pelo selo Obras-primas do Cinema oferece uma boa amostra da gênese desse estilo, e serve para preparar o espectador curioso e ainda não iniciado num cinema alquímico de difícil classificação.

*DONNY CORREIA É CRÍTICO DE ARTE E DOUTOR EM ESTÉTICA DE HISTÓRIA DA ARTE PELA USP, AUTOR DE ‘CINEFILIA CRÔNICA’ (DESCONCERTOS EDITORA, 2019)

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