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Box reúne filmes de Fritz Lang e Joseph Losey sobre serial killer

'M, o Vampiro de Dusseldorf' e 'M, o Maldito' retratam assassino de crianças e pedófilo caçado por justiceiros e quase linchado

Donny Correia*, Especial para o Estado

19 de outubro de 2019 | 16h00

Já é bem conhecida a história da suposta visita de Fritz Lang (1890-1976) ao Reichstag, em 1933, para ter com o Führer, recém-empossado, e seu Ministro da Propaganda, Josef Goebbels. Na ocasião, Goebbels afirmava sua admiração pelas colossais produções de Lang, e ambos os líderes nazistas o convidavam para ser o cineasta oficial do Terceiro Reich. Diante de um dilema, o diretor de Os Nibelungos (1924) e Metrópolis (1927) teria declarado que, embora suas obras deixassem resvalar alguns laivos de exaltação ao orgulho ariano e à fé na predestinação histórica, por ter sangue judeu em suas veias, não poderia aceitar tal incumbência, ao que Goebbels respondera assertivo: “Aqui, nós decidimos quem é ou não judeu!”. Diante dessa postura, e após uma longa conversa regada a promessas de regalias vindouras, o cineasta teria pedido algum tempo para se decidir. No dia seguinte, se evadiu para a França, deixando para trás as propostas e sua ex-esposa, a escritora Thea von Harbou (1888-1954), colaboradora de uma década, que acabara de abandoná-lo para se casar com seu amante, um ator indiano. Mas, sua leitura sobre os ânimos de uma Alemanha humilhada ao longo dos anos 1920 e sua impressão sobre o estado de coisas que se avizinhava já estavam impressas na película cinematográfica.

A Versátil Home Video traz, em edição especial, a caixa M, composta de duas versões da história de um assassino de crianças. A primeira, o clássico restaurado de Fritz Lang, realizado em 1931, no auge das convulsões políticas e sociais no ocaso da República de Weimar.

A trama de M, o Vampiro de Düsseldorf é conhecida. Após o assassinato da garotinha Elsie Beckmann, as autoridades locais armam um intenso esquema para capturar um serial-killer, cujas vítimas eram todas crianças. Enquanto os pais exigem providências imediatas e a polícia parece incapaz de promover um cerco eficiente, as comunidades do submundo do crime resolvem se adiantar na captura do assassino, identificado como Hans Beckert (Peter Lorre), antes que as investigações oficiais acabem desmantelando o harmonioso ecossistema da marginalidade. De fato, Beckert acaba detido por um grupo de meliantes, que decide julgá-lo e executá-lo sumariamente. É nesse momento que Peter Lorre desempenha um dos monólogos mais intensos do cinema até os dias de hoje, no qual roga por misericórdia e pede que seja entregue às autoridades competentes, alegando que sua sanha por molestar e matar crianças vem de uma força maior e incontrolável, que o toma de assalto e o impele a atos horrendos. Antes que sua sentença seja cumprida, as autoridades oficiais invadem o tribunal improvisado, detendo Beckert e os outros criminosos. Embora a ordem tenha sido restabelecida, as sequelas do desajuste nas relações daquela sociedade já se mostram patentes.

Originalmente batizado O Assassino Entre Nós, o filme teve seu título alterado porque àquela altura, no início da década de 1930, a insinuação de que haveria um mal oculto pairando indistintamente por sobre a vida coletiva poderia ferir suscetibilidades de uma sociedade já em vias de ser completamente arrestada pelo pensamento nazista. Era preciso, desde então, um cuidado redobrado com a escolha dos termos a serem ditos e propagados pela classe artística, que seria, em grande parte, ela mesma marginalizada e perseguida com ferocidade ao longo dos anos seguintes. 

Para o teórico Siegfried Kracauer, o M de Lang encerra um discurso subliminar que versa sobre a necessidade de se extirpar os fantasmas da fraqueza psíquica. No limite, o personagem de Peter Lorre seria a representação da covardia e do retrocesso, frutos de uma compleição inferior. Portanto, nada mais legítimo do que identificar e destruir as sementes de uma moral malformada e anárquica com todo o peso da mão autoritária. 

Vinte anos depois, nos Estados Unidos da Guerra Fria e do fantasma comunista, a metáfora observada por Kracauer ressoou em M, o maldito, de Joseph Losey (1909-1984). O enredo permanece idêntico – com algumas cenas filmadas exatamente à maneira do original –, porém transposto para um pacato subúrbio americano. Mesmo assim, estamos em outra época, em outra cultura. Losey aproveitou a estética do cinema noir para fazer um comentário velado a respeito do infame Macarthismo, do qual ele mesmo vinha sendo vítima à época – o que colaborou para que seu filme fosse sumariamente ignorado. Em sua releitura, assim que os crimes ganham os noticiários locais, uma histeria coletiva assola a população. Diferente da versão de Lang, Losey enfatiza os efeitos da paranoia nos cidadãos comuns, “pessoas de bem” que passam a enxergar o assassino procurado em todos os adultos que estejam em companhia de uma criança. Numa cena, alguns valentões espancam um velho que tentava ajudar uma garotinha ferida numa queda de patins. Em outro momento, transeuntes agridem um senhor que apenas tentava repreender, em público, um mau comportamento de sua própria filha. As sequências seguintes trazem uma enxurrada de suspeitos levados à delegacia local onde várias depoentes insistem em relatar suas certezas de terem identificado o verdadeiro assassino.

Com a evolução da trama, logo fica claro que tanto as autoridades, quanto os meliantes engajados na captura do psicopata são representações explícitas da truculência inquisidora naqueles anos do pós-guerra, de caçada às bruxas, em que interrogadores não poupavam recursos asquerosos para terem de seus interrogados respostas moldadas aos seus próprios interesses.

Em M, o Maldito, há também maior ênfase no perfil psicológico do criminoso. Uma cena particularmente essencial para compreendermos o personagem acontece em seu próprio quarto. Pressentindo a iminência de outro surto psicótico que o levará à caça de mais uma criança, agita-se de um lado para o outro e só encontra um pouco de calma ao degolar com um cadarço a cabeça de uma boneca grosseiramente esculpida em argila. Ao fundo, repousa sobre a escrivaninha do criminoso a fotografia de uma simpática senhora, sua mãe. Saberemos, ao final que, a figura materna tem papel protagonista no ímpeto de seus crimes.

A caixa reúne, ainda, mais de duas horas de material extra inédito no Brasil, que oferece amostras comparativas da restauração da obra original, comentários sobre a refilmagem de Losey e entrevistas raras com Lang. Traz, também, cards com reproduções dos pôsteres originais em vários idiomas.

Em tempo, a versão de M, o Vampiro de Düsseldorf, aqui oferecida reconstitui sua apresentação original, com longos momentos de silêncio, para enfatizar a tensão própria do cinema mudo, que ainda convivia com a novidade do filme sonoro. Ao longo de décadas, o público brasileiro conheceu apenas uma edição bastante diversa, sonorizada à revelia de Lang e com ampliação do negativo original equivocada.

*Donny Correia é doutor em Estética e História da Arte pela USP. Autor de Cinefilia crônica – comentários sobre o filme de invenção (2018)

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