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Box reúne quatro filmes que refletem sobre Maio de 1968

'Maio de 68 no Cinema' conta com obras de Jean-Luc Godard, Louis Malle, Chris Marker e Patrick Rotman

Donny Correia*, Especial para o Estado

05 Maio 2018 | 16h00

Ao completar 50 anos, as convulsões sociais e políticas de maio de 1968, ganham uma revisão em perspectiva com o lançamento de Maio de 68 no Cinema, box com quatro filmes que examinam as ocorrências que culminaram nas primeiras manifestações estudantis na Universidade de Nanterre e rapidamente se alastraram pelos quatro cantos do planeta.

Focada na produção francesa sobre o assunto, a seleta oferece um longo e reflexivo panorama daquele conturbado ano por meio de poéticas bastante distintas entre si, o que confere uma pluralidade de pontos de vistas e exames históricos. Evidencia, também, a série de contradições internas que se referem aos ideais revolucionários, cristalizada no rescaldo dos eventos. Do ponto de vista de nosso tempo, é pertinente a observação desta questão específica, pois critica no afã daquele momento um desalinhamento ideológico de base, verificado em nosso cotidiano por meio da superexposição em redes sociais e meios alternativos de comunicação.

A primeira obra do volume é, talvez, esteticamente a mais palatável, mas não se engane o espectador. Loucuras de uma Primavera (1990) é uma comédia que se passa durante os primeiros acontecimentos de maio de 68. Milou, o personagem central, precisa sepultar sua mãe, dona de uma vila no interior da França. Reunido com as três gerações da família para velar a matriarca, ele começa a entender a dimensão dos protestos estudantis quando todos se veem isolados e estagnados pela greve geral no país e pelo bloqueio a estradas e vias. Conforme o tempo transcorre, cada membro da família passa a mostrar seus reais valores e contradições.

A preocupação de Louis Malle, o diretor do filme, parece repousar no exame que faz de quão distante estão os almejos pessoais frente a um evento coletivo de grande monta. Malle realizou um cinema polêmico desde seus primeiros trabalhos. Em 1974 foi bastante afrontado pela classe artística e pelos críticos franceses por Lacombe Lucien, filme que toca numa questão espinhosa: o colaboracionismo francês junto ao exército de ocupação nazista durante a 2.ª Guerra. Menos interessado na reprovação da atitude de alguns colaboracionistas, Malle optou por examinar os motivos que levariam alguém a trair sua pátria. Sua comédia de 1990 coloca na balança, assim, a questão delicada em torno das convicções burguesas e da legitimidade das causas defendidas pela juventude e foca, sobretudo, as pequenas mesquinharias humanas que se extravasam para os fatos sociais.

Derivado da linguagem documentária, os filmes-ensaios tornaram-se instrumento de compreensão e expressão em torno dos assuntos relacionados a grandes eventos coletivos. O soviético Dziga Vertov já havia chamado a atenção para o potencial que o cinema apresenta em se tratando de fazer e discutir política. Os “Kinocs”, nome que Vertov dava aos cineastas de sua vanguarda, deveriam estar alinhados com seu tempo e a política em torno dele, ratificando o sistema socialista da União Soviética e incitando o espectador a fazer reflexões sobre aquilo que via na tela. Não à toa que Jean-Luc Godard batizou seu coletivo de cinema político Groupe Dziga Vertov, logo após maio de 68. É deste coletivo o mais emblemático filme do box, Tudo Vai Bem (1972), dirigido por Godard e Jean-Pierre Gorin.

O filme é o mais ambicioso projeto do coletivo, já que contou com investimento da poderosa Gaumont, o que possibilitou Jane Fonda e Yves Montand, ambos engajados na luta contra a Guerra do Vietnã, as revoluções da classe operária e a renovação da classe política. Aqui, Fonda vive uma jornalista americana correspondente em Paris. Montand vive seu marido, um veterano cineasta da nouvelle vague que não consegue financiamento para seus trabalhos autorais e precisa viver de inconvenientes comerciais para a TV.

No início do filme, ao tentar uma entrevista com um executivo de um frigorífico cujos funcionários se rebelaram e tomaram todo o local, a jornalista e seu marido acabam reféns dos manifestantes e passam a assistir didaticamente uma sorte de contradições da esquerda revolucionária. Logo, os próprios rebelados passam a agir com o autoritarismo contra o qual pensam lutar. Godard se vale de um humor ácido em cenas didáticas, como no momento em que o diretor apreendido precisa urinar com urgência, mas seus algozes o impedem de usar o banheiro para pagarem na mesma moeda o fato de que aliviar as necessidades naturais durante a jornada de trabalho era, ali, considerado um ato de procrastinação. Na realidade, os revolucionários transparecem uma imensa falta de organização, de unidade ideológica e moral, e os diretores do filme nos mostram este detalhe crucial nas várias discussões partidárias que quase colocam a perder o projeto verdadeiro da ocupação.

Godard pertence a um espectro de cineastas de vanguarda em que a prepotência estética muitas vezes foi tomada por uma genialidade aferida. Em Tudo Vai Bem, no entanto, sua lucidez analítica o fez, junto de Gorin, realizar uma autocrítica da esquerda, uma psicanálise – a verborragia do filme parece mirar o divã do espectador – às vezes fria, às vezes sarcástica e violenta. A cena final, um longo e esmerado plano-sequência que passeia pelos caixas de um supermercado multinacional é a síntese da adesão compulsória à economia do mercado e do consumo em massa. Um filósofo de esquerda faz um discurso diante de uma gôndola em que estão vários exemplares de seu livro e é criticado por uma cliente, já que tenta vender ideias libertárias como se fossem frutas numa barraca de feira. Um grupo de jovens invade o local e começa a praticar um saque de mercadorias, sem encontrar maiores resistências. Godard pinta o episódio como algo ingênuo e inútil, algo abatido pela ressaca dos anos seguintes.

O diretor também não poupa o próprio meio cinematográfico. A metalinguagem examina falácias comuns nas grandes indústrias sobretudo no que diz respeito a soluções fáceis, como ter vedetes no elenco para garantir o sucesso da fita, ou uma história de amor ser suficiente para fazer uma trama caminhar por si só.

O Fundo do Ar É Vermelho (1977), de Chris Marker, pela primeira vez lançado no Brasil em sua cópia original, com três horas de duração, é outro filme-ensaio de rara beleza. Marker se vale de colagens de cenas de arquivo para rever o impacto de maio de 68 à luz das várias revoluções e guerras que sucederiam naquele ano. Da ofensiva do Tent no Vietnã, passando pelo maoísmo, pela França, por Praga, e terminando nas revoluções latino-americanas, o filme oferece um catálogo longo e detalhado para se compreender aquele momento. Um filme em cuja História, a protagonista, fala por si só.

Assim também é o documentário, 1968, de Patrick Rotman, realizado em 2008, portanto com mais distanciamento ainda, que analisa os fatos com maior objetividade, guarnecido por farto material de época.

De uma maneira abrangente, Maio de 68 no Cinema explora visões opostas e delicadas sobre o ímpeto da juventude naqueles dias de transgressão. Deixa claro, ainda, que o impulso da renovação mina a si mesmo, quando conduzido de maneira pouco uniforme e tomada de paixões irrestritas. 

*Donny Correia é mestre e doutor em estética e história da arte (USP). Poeta, autor de 'Corpocárcere' e 'Zero nas Veias' 

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