Braços abertos e um pé atrás

Merkel diz que ficará feliz em receber o novo presidente socialista francês e concorda em trabalhar com uma agenda de crescimento, mas não abre mão do pacto de austeridade que Hollande quer renegociar

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2012 | 03h08

Há 15 dias, a chanceler alemã, Angela Merkel, recusava-se friamente a receber o adversário de Nicolas Sarkozy nas eleições presidenciais francesas. Mas, após a vitória de François Hollande, Merkel rapidamente telefonou a ele para dizer como ficará feliz em recebê-lo "de braços abertos" em Berlim, no dia 16.

É compreensível que Merkel lamente a derrota de seu bravo Sarkozy: ele obedecia sem se melindrar a todas as ordens dela. Além disso, Sarkozy compartilhava a filosofia político-econômica da chanceler: liberalismo, liberalismo e mais liberalismo. E, para pôr na direção certa países "mal-educados", como a Grécia, Merkel e Sarkozy receitavam o mesmo remédio: rigor, rigor e mais rigor.

Enfim, Sarkozy desaparece e Hollande o substituirá no dia 15. Angela Merkel é realista. Portanto, vai receber Hollande "de braços abertos". Muito gentil. Aliás, vale notar que, no plano humano, aos olhos de Merkel Hollande tem alguns requisitos superiores em comparação com Sarkozy.

Para começar, Sarkozy, que é um sujeito emotivo, não consegue deixar de tocar no braço, no ombro ou no peito das pessoas que deseja convencer. No caso de Merkel, uma senhora luterana educada na Alemanha Oriental, essas mãos apalpando não agradam. Ela levou anos até se conformar.

Acrescente-se que Merkel e Hollande têm um ponto em comum: são adeptos de uma vida simples. Angela vai todos os sábados ao supermercado fazer compras. E François, até agora, fazia o mesmo. Certamente ela se sentirá mais à vontade com o "presidente banal" que Hollande pretende ser, do que com o "presidente bling-bling" (vulgar e ostentatório) que foi Sarkozy.

Em outros pontos, porém, a concordância entre a alemã e o francês será mais difícil. Hollande renegou o plano aplicado por Merkel e Sarkozy para salvar a Grécia e, indiretamente, o euro. Esse plano é de uma simplicidade absoluta: dar bilhões de euros à Grécia para salvá-la da falência, com a condição de que os gregos adotem uma austeridade desumana. É o "memorando", assinado por todos, incluindo a Grécia, em fevereiro.

O enfoque de Hollande é menos seco. Como muitos economistas, e constatando que os 380 bilhões fornecidos à Grécia se evaporaram deixando o país ainda mais demolido que há dois anos, Hollande acredita que não basta só austeridade. Ela precisa ser compensada com a retomada do crescimento.

As divergências não se limitam ao salvamento da Grécia. Elas derivam de duas filosofias. Hollande, embora não ponha em dúvida o capitalismo, pretende que ele não seja tão selvagem e submisso ao mercado, ao mundo das finanças. Por isso, para pilotar a zona do euro, as soluções de Merkel não são as mesmas de Hollande.

Em março, Merkel impôs aos 25 países europeus (menos a Grã-Bretanha, que é esperta) uma "regra de ouro", um "pacto orçamentário" que obriga os signatários a reequilibrar suas contas. Hollande disse que "renegociará" esse pacto, acrescentando uma vertente de crescimento. Merkel recusa-se a isso: "Não é negociável". Ela concorda em trabalhar com uma agenda de crescimento, mas não em "renegociar" o pacto firmado.

Com o agravamento da crise europeia (alcançando Grécia, Espanha, Portugal, Irlanda, Itália e Holanda), a modesta revolta de Hollande teve forte ressonância. Ele próprio parece ter ficado espantado. Grandes economistas, como Paul Krugman, do New York Times, e muitos outros, condenam o rigor extremo. Na Europa, cidadãos sacrificados pelos planos adotados por Merkel e Sarkozy se rebelam, levando seus países ao caos.

Toda a esquerda europeia, bem entendido, aprova François Hollande, mas também, o que é inédito, uma grande parte da direita. Mario Monti, primeiro-ministro italiano, que não é um homem de esquerda, denunciou o rigor. "É preciso ser mais flexível", afirmou. Assim, Hollande, sem o pretender, e de maneira surpreendente, vê-se encabeçando o grupo daqueles que querem afrouxar a coleira posta por Angela Merkel no pescoço dos 25 países que compõem a matilha europeia.

Membros do alto escalão de Bruxelas parecem contentes em ouvir outras vozes que não as de Merkel-Sarkozy. Por isso na quarta e quinta-feira Hollande recebeu dois pesos-pesados da União Europeia: o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, e o presidente da zona do euro, Jean-Claude Juncker (que detesta a chanceler alemã).

Mas hoje todas essas estratégias estão prejudicadas pela nova síncope da Grécia. O país, sem governo e sem dinheiro, sem nada exceto neonazistas e comunistas radicais, encontra-se no abismo. E nos próximos dias será preciso agir, se a intenção é evitar ou a saída de Atenas da zona do euro ou o caos, com risco de um golpe militar no país. François Hollande não podia chegar num momento pior. É verdade que ele só assume o governo no dia 15. Até lá, Sarkozy está no comando. É preciso agir rápido.

Toda a Europa está simpática a Hollande. O jornal espanhol El País afirma que ele "faz nascer uma outra Europa", o que é evidentemente falso. A capacidade de intervenção do novo presidente é ínfima. E, sobretudo, é preciso evitar que a austeridade mortal propugnada por Angela Merkel seja substituída por uma tolerância excessiva, negligência, resignação, que também são mortais. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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