BRANCO NO BRANCO

Para crítico cultural, a elite americana preparou uma cama podre pra si mesma; e agora terá de deitar nela

Lee Siegel, O Estado de S.Paulo

15 Novembro 2015 | 07h00

Lee Siegel

Quase comecei este artigo como a nota de um suicida. Ocorre que sou um americano branco, de meia idade, e, segundo um novo estudo, a taxa de suicídios na minha faixa etária está crescendo vertiginosamente.

Não se preocupem, estou ótimo. Por enquanto. Prometo que se decidir “alcançar a mais perfeita quitação com a ponta de um punhal” – para citar Hamlet – contarei a vocês antes.

O estudo realizado por dois professores da Princeton University, um dos quais, Angus Deaton, ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 2015, tornou-se o foco de inúmeros comentários e preocupações. O estudo concluiu que as taxas de falecimentos entre americanos brancos de meia idade em geral aumentou significativamente, e que a morte por suicídio, álcool e abuso drogas e abusos de analgésicos são as causas principais de destruição. Na mídia impressa, na TV e nas redes sociais, foram inúmeras as pessoas que apresentaram razões para explicar essa tendência preocupante.

Não é difícil entendê-las. Foi citado imediatamente o emprego terceirizado, a transformação para uma sociedade tecnológica baseada na informação que deixou para trás trabalhadores brancos que não estavam preparados, uma cultura jovem que deixa cada vez menos espaço a pessoas mais velhas. Mas, como grande parte da mídia é liberal, a causa mais significativa da destruição e da autodestruição dos americanos brancos de meia idade não foi mencionada.

Ocorre que entre a maioria das elites brancas, criadoras dos parâmetros e das referências culturais, ser branco tornou-se algo insignificante.

Antes de você pôr os pés prudentemente no tema da discriminação contra os brancos, terá de provar a si mesmo que é uma pessoa cosmopolita, culta, com as maiores credenciais progressistas. Aceito o desafio. Acho que a prisão em massa de jovens negros é um crime nacional, que a atrocidade da escravatura produziu um efeito na vida dos negros que provavelmente jamais se apagará, que um número enorme de negros ou foi depositado nas prisões, ou relegado a projetos de habitação e a escolas públicas de nível inferior que praticamente lhes garantem uma vida à margem da sociedade pelo resto de suas vidas. Todas as políticas sociais e econômicas que procuram sanar essas condições perversas têm meu apoio – e também os políticos que as adotam.

Mas o que não fingirei adotar é a ideia de que toda pessoa branca é responsável pelas medidas e por costumes enraizados na história americana que bloqueiam a vida das pessoas de cor, principalmente dos negros.

Quando, certa vez, mencionei a um amigo progressista, um escritor branco extremamente cético e inteligente, que eu pretendia escrever uma defesa dos brancos, evidentemente repleta da necessária malícia e ironia, ele colocou firmemente uma mão sobre meu braço e afirmou: “É melhor você não fazer isso”. Outro amigo, também escritor profundamente inteligente, acenou ao assunto da raça, e me disse que achava que todos os crimes da história poderiam ser atribuídos aos brancos. “Tenho vergonha de ser branco”, declarou.

Entretanto, nenhum desses amigos, pessoas indubitavelmente admiráveis, têm amigos pretos, ou estão particularmente envolvidos na cultura negra. Ambos moram em comunidades brancas, e os filhos do último deles frequentam principalmente escolas e universidades brancas.

A cultura liberal desistiu dos brancos. Existe um consenso segundo o qual os brancos prepararam uma cama podre para si mesmos, e terão de deitar nela.

Essa convicção se origina em grande parte na perversa oposição racista a Obama desde sua primeira eleição. Noite após noite, os noticiários de TV mostraram os rostos dos Estados Vermelhos, dos membros do Tea Party, da direita irada. O rosto do Partido Republicano, que obstruiu toda e qualquer iniciativa, da reforma da saúde à expansão do programa previdenciário para os idosos, os doentes e as crianças, é em grande parte branco e de meia idade.

O resultado foi a execração dos americanos de meia idade, brancos. Todos os melhores brancos fazem isso. Os efeitos desse estigma são sentidos em incontáveis graus, explícitos e sutis, na maneira como os políticos falam a respeito da sociedade, na maneira como os filmes e a TV retratam a sociedade, na maneira como os comentaristas opinam sobre a sociedade.

Não faz muito tempo, o colunista Nicholas Kristof do The New York Times, escreveu uma série de colunas intituladas When Whites Just Don’t Get It (“Quando os brancos não conseguem entender”, numa tradução literal). Ele atribuía os males dos negros à maldade e à insensibilidade brancas. Se você fosse um branco que cresceu ouvindo McCoy Tyner e Miles Davis, trabalhando com negros, apaixonando-se por pessoas negras, teria lido Kristof e se sentido diminuído e humilhado. O próprio Kristof mora em Scarsdale, pequena cidade do Estado de Nova York, onde também educou seus filhos. Scarsdale é tão branca que quando neva não se enxergam as pessoas que moram lá.

Estigmatizar os brancos de classe média tornou-se uma tática utilizada pelas elites brancas que competem com aquela por empregos e pelo status. Funciona como um feitiço.

Um resultado concreto dessa indiferença, e um fator que está por trás da popularidade de republicanos sem qualificação que concorrem ao cargo de presidente, é que as reformas da saúde do presidente Obama sanaram em parte a terrível situação dos negros pobres, mas, ao fazer isso, sacrificaram a classe média. Os prêmios e/ou os descontos desse último grupo alcançaram proporções punitivas. A classe média branca está sendo literalmente sacrificada no altar das intenções hipócritas. É alguma surpresa que os brancos de classe média tenham ficado desesperados por acharem que não há ninguém na vida pública que represente seus interesses?

O que facilita essa indiferença para com os brancos é o atual consenso na elite branca. Quando, meses atrás, escrevi uma coluna para o jornal The New York Times protestando contra a carga da dívida dos estudantes que onera a classe média branca, fui criticado violentamente por ter frequentado uma universidade da Ivy League. E o argumento usado foi que os negros pobres frequentam faculdades públicas. Por que, me perguntaram, isso não foi bom para você também? Nem é preciso dizer que os que fizeram a pergunta eram todos ricos, privilegiados e brancos, e todos tinham frequentado uma escola da Ivy League, ou universidades de elite.

Os únicos que me defenderam eram negros.

Como um meu amigo negro me diz (eu sou o único banco do meu grupo social que tem grandes amigos negros): “Brancos... Vocês não descem do salto!” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

LEE SIEGEL, ESCRITOR E CRÍTICO CULTURAL AMERICANO, ESCREVE NO JORNAL "THE NEW YORK TIMES" E EM REVISTAS COMO "NEW YORKER" E "THE NATION". É TAMBÉM AUTOR DE "VOCÊ ESTÁ FALANDO SÉRIO?" (PANDA BOOKS)

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.