Brasil sobe de 'muderno' para moderno

Profunda mudança de ethos ocorre na sociedade brasileira: um indício é haver três bons candidatos disputando a Presidência

Carlos Guilherme Mota, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2010 | 01h35

A nova sociedade civil parece despertar de seu sono neste brumoso período de transição em que as candidaturas à Presidência vão sendo definidas. A atuação dos candidatos e suas equipes ganha velocidade, os projetos adquirem maior nitidez e as empresas que oferecem resultados de pesquisa de opinião começam uma batalha renhida pela conquista de espaço no cenário nacional.

É um cenário turbulento, dado que ponderáveis interesses econômico-financeiros se mobilizam no curto, médio e longo prazos - turbulento e cada vez mais complexo esse cenário, quando se anunciam novos solavancos no plano econômico internacional, com inevitáveis repercussões negativas na vida do País, que poderão alterar resultados nos movimentos da chamada "opinião pública".

Não importa por ora analisar os muitos desacertos e escassos acertos do Datafolha, Vox Populi, Sensus ou Ibope e os confrontos entre os resultados obtidos por tais institutos. Nem comentar suspeitas de manipulação ou até de "conspiração", pois afinal tais institutos existem para oferecer dados "objetivos" (aspas e mais aspas) numa guerra em que os inimigos são os outros? Tudo é possível na sociedade do espetáculo exacerbado neste subsistema periférico brasileiro no qual, com arrogante domínio, a cultura do marketing tem todas as prioridades, pautando posturas e ideologias dos candidatos.

É verdade que, nos últimos 20 anos, nem todos os candidatos aceitaram os termos e modelos impostos pelos marqueteiros, a começar pelo professor Fernando Henrique, quando candidato à Presidência. Mas houve quem, nas últimas eleições, ingenuamente "entrasse na jogada" de marqueteiro que até levantou suspeita de homossexualidade de candidato a posto executivo em São Paulo. Aqui, Bertrand Delanoë, o notável prefeito de Paris, passaria aperto se assessorado por tal "conselheiro"?

A despeito das diferenças nos resultados da pesquisas de opinião, devemos hoje aplaudir a profunda mudança de ethos que vem sendo operada na sociedade brasileira a que assistimos na atual conjuntura, capitaneada pelo segmento mais educado e politizado da população. Mudança de mentalidade coletiva, sinalizada com a aprovação do projeto da "Ficha Limpa". Apesar de suas ambiguidades (a versão do tempo verbal sujou um pouco o projeto), é um progresso para o qual a Nação desperta. E, na perspectiva da história das mentalidades, constata-se que o País vive momento de profunda viragem mental, em que o novo e o velho se confrontam "como nunca antes"?

Uma nova ética se afirma, em inúmeras frentes hoje espalhadas pelo País, desde universidades e sindicatos a várias agências do Estado. "Sem populismos", como queria o jurista-historiador Raymundo Faoro, amigo de Lula? Nessa perspectiva, o Brasil vai melhorando, de Itamar, Cardoso e Lula até o momento atual, e as discussões sobre a sucessão presidencial sinalizam um novo período histórico.

Despontaram na cena nacional três personalidades que, a exemplo dos dois últimos presidentes, provêm da esquerda, com "ficha limpa" e serviços reconhecidos na luta pela atualização do País. Sem dúvida, candidatos com boa formação, excelente até em face do cenário político-cultural do país, da América Latina e de outros países.

Pois, no cômputo geral, Dilma é mas bem formada, mais transparente e menos ardilosa que José Dirceu (que se preparava para a corrida presidencial até a trombada com Roberto Jefferson); menos conciliador e mais rodado, José Serra tem maior densidade e espírito renovador e cosmopolita que o discreto Geraldo Alckmin; e Marina Silva, força da natureza com projeção internacional, com discurso novo que preserva sua integridade religiosa, mas defende, explicitamente o Estado laico.

Com Marina Silva algo de novo se desenha, pois associou-se a ela um empresário de mente aberta, Guilherme Leal, o bilionário da Natura. Por seu lado, o candidato José Serra deverá ampliar a pauta de discussões sobre a questão nacional, focalizando o problema da construção efetiva de uma nova cidadania fundada na educação, sem os ranços do pseudossocialismo tucano. Sua experiência no Chile de Allende e nos centros de estudos de Terceiro Mundo pelos quais passou servirão para relocalizar o Brasil no mundo e atualizar seu partido.

Como nos anos 50, o Brasil poderá escolher novamente entre o arcaico e o moderno. Entre o "muderno" e o moderno, enfim. Ou então será necessário inventar um conceito novo para definir mais do mesmo. Pois o fato é que, como dizia Joaquim Nabuco em 1877, "muitas vezes um país percorre um longo caminho para voltar cansado e ferido, ao ponto donde partiu".

CARLOS GUILHERME MOTA, HISTORIADOR, PROFESSOR DA FFLCH/USP E TITULAR DE HISTÓRIA DA CULTURA DA FAU-MACKENZIE, É AUTOR, ENTRE OUTROS, DE HISTÓRIA DO BRASIL. UMA INTERPRETAÇÃO (SENAC), COM ADRIANA LOPES

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