Brasil tem um filme representante no Festival de Locarno

Brasil tem um filme representante no Festival de Locarno

Com idiomas arcaicos, bebês sobrenaturais e distopias, evento põe a criatividade do cinema em primeiro plano

The Economist, O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2017 | 16h00

Locarno é uma trincheira para as produções cinematográficas que não receiam a classificação “filme de arte”. As películas selecionadas sempre desafiam o público com inovações formais ou ideias novas sobre o cinema. Suas primeiras edições foram dominadas por cineastas italianos, com filmes como Roma, Cidade Aberta (1945), de Roberto Rossellini. Em 2006, o cinema alemão brilhou com A Vida dos Outros. E, em 2009, a cineasta e romancista sino-britânica Xiaolu Guo conquistou o principal prêmio do festival com Ela, Uma Chinesa. Diretores cujas obras se destacam por seu caráter experimental sabem que dificilmente serão tão bem acolhidos em outras grandes mostras de cinema.

Em sua 70.ª edição, o festival deste ano não foi exceção. Lola Pater, escrito e dirigido pelo franco-argelino Nadir Moknèche, investiga o relacionamento de um jovem com o pai, que abandonou a família logo após o nascimento do filho e agora é uma mulher transgênero. Em Chien, Samuel Benchetrit acompanha um homem com depressão que se esforça para transformar-se em cachorro (durante sua exibição, cenas de crueldade contra cães e seres humanos fizeram algumas pessoas sair da sala). Noomi Rapace faz o papel de sete irmãs idênticas em Onde Está Segunda?, thriller ambientado num regime distópico, onde os casais só podem ter um filho.

Por sua vez, o canadense Denis Coté faz de seu Ta Peau Si Lisse um exercício em subverter as expectativas do público. Por mais sugestivo que seja o título (“Tua Pele Tão Lisa”), não há no filme um único grama de carne sexualizada; a pele em questão pertence a seis fisiculturistas. Coté não está interessado na estética deles ou no potencial homoerótico de sua nudez. E não se pode dizer que o tema seja propriamente o fisiculturismo: o filme não tenta entender os motivos que levam alguém a se “bombar” com esteroides e construir uma vida em torno da exibição de seus bíceps e abdomens.

Coté se concentra nas questões pessoais e aspirações dos seis homens. Um deles, lutador profissional, está perdendo a confiança em si mesmo e fica macambúzio diante da mulher. Outro tem uma vida familiar agitada, mas, em razão de sua dieta rigorosa, prefere se isolar para fazer suas refeições ricas em proteína animal. Os seis passam juntos um breve feriado no interior antes de enfrentar um novo desafio profissional. Com material tão sui generis, Coté consegue fazer um filme ao mesmo tempo singular e fascinante.

Outras produções vão além das premissas inusitadas para transitar entre gêneros. O brasileiro As Boas Maneiras parece ser uma comédia urbana. E, de fato, começa assim. Ana (Marjorie Estiano), paulistana de classe média alta, está grávida e seleciona babás para o filho. Escolhe Clara (Isabél Zuaa), uma mulher negra da periferia. O filme segue sem intercorrências até que Ana aborda sexualmente Clara e seus olhos mudam ameaçadoramente de cor. Então o espectador se dá conta de que o bebê que ela tem no ventre é de linhagem sobrenatural.

As alusões a Um Lobisomem Americano em Londres (1981) e O Bebê de Rosemary (1968) são evidentes, mas, com sua mistura única de terror e comédia, os diretores do longa, Marco Dutra e Juliana Rojas, conseguem fazer um filme de assombração extremamente original. De fato, pode-se dizer que As Boas Maneiras faz jus a seus antecessores famosos: ficou com o prêmio especial do júri do festival.

Mas o grande destaque deste ano foi Iceman, escrito e dirigido por Felix Randau. Inspirado em “Ötzi”, corpo de um homem de 5,3 mil anos, descoberto numa geleira dos Alpes, em 1991, o filme acompanha a trajetória de Kelab, chefe de uma tribo pré-histórica. É uma evocação das origens selvagens da civilização ocidental, um mergulho numa era de disputas territoriais diminutas, quando os homens se matavam ao sinal da mais mínima provocação. O que distingue o filme de outras produções ambientadas na pré-história, como Apocalypto (2006), de Mel Gibson, e o absurdo Mil Séculos Antes de Cristo (1966), é que todos os diálogos são travados em rético, uma língua morta. Não há legendas.

Longe de confundir ou distrair o espectador, ouvir os personagens se comunicando em rético, é fascinante. O filme não carece desse ponto de apoio, uma vez que a trama é facilmente deduzível pelo contexto. A intenção de Randau é mostrar que um filme bem encenado e visualmente arrebatador — aqui com o auxílio de uma paisagem alpina e cenas de violência brutal — consegue contar sua história com clareza e intensidade. O expectador torce para que Kelab vença, sobreviva, e o impulso fundamental que o move é que torna tão hipnótico esse filme inovador e tartamudo.

Esse tipo de experimentação é essencial para evitar que o cinema se torne uma arte convencional e repetitiva. Ainda que muitos dos filmes exibidos em Locarno jamais cheguem ao circuito comercial, são um verdadeiro bálsamo numa época marcada por remakes e sequências. Não seria nada mal que o espírito criativo presente em Locarno extrapolasse o nicho dos filmes de arte.

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