Brasil, um país de investimentos

Ganhamos credibilidade lá fora. Mas nossa sociedade ainda se divide entre os que trabalham e os que desfrutam

José de Souza Martins*, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2008 | 22h12

O presidente da República, em discurso no VII Fórum dos Governadores do Nordeste, na véspera do 1º de Maio, comentou a atribuição de grau de investimento ao Brasil pela Standard & Poor?s, empresa internacional de assessoria de investidores. Os títulos brasileiros saem da chamada maldição de país não recomendado para investimentos e passam a ser recomendados no nível mais prudente de recomendação. Um salto positivo, sem dúvida, essa espécie de aval não formal ao estado de receptividade da economia brasileira ao eventual interesse dos que têm dinheiro para aplicar. Difícil explicar o que isso significa aos milhões de brasileiros que não investem na bolsa, nunca compraram uma ação e, provavelmente, nunca comprarão. Mas Lula, com sua proverbial e reconhecida facilidade para explicar o inexplicável, explicou que essa reclassificação da recomendação dos títulos brasileiros à confiança dos investidores das bolsas se deve à sua sorte pessoal. Não fosse ele o presidente da República e continuaríamos chafurdando na areia movediça da falta de credibilidade: "E quis Deus que fosse exatamente neste momento em que o presidente de sorte assumisse a Presidência da República. E Deus queira que nunca mais o Brasil eleja um governante que não tenha sorte". Como ele é o único que tem tido sorte, estamos diante de um mau presságio, o do terceiro mandato.Porém, a S&P, que assessora investidores internacionais de trilhões de dólares, não se pauta por critérios do jogo do bicho. Muito ao contrário. Tenta reduzir o azar e a fortuna de países como o nosso a variáveis racionalmente calculáveis para dizer a seus clientes se vale a pena ou não correr risco financeiro com a economia brasileira. Neste momento, diz que sim, que vale a pena. Mas apresentou, também, uma lista de ressalvas que apontam para o risco de que a situação atual mude e que, mais adiante, tenha que dar o dito pelo não dito se a pequena probabilidade de reversão do cenário sugerir que é melhor mudar o endereço das aplicações. A auto-indulgente pedagogia mística de Lula já teve o antecipado questionamento da própria S&P, que deu aos investidores mais sensatas explicações. A mudança de gradação do Brasil nas avaliações da empresa se justifica por "um histórico de continuidade política, em meio a transições de poder, sob um regime de metas inflacionárias e de câmbio flutuante..." Ou seja, as mudanças econômicas implantadas com o Plano Real e confirmadas no governo de Fernando Henrique Cardoso. "A manutenção de uma abordagem macroeconômica consistente (...) depois da transição política de 2002/3, vem servindo como apoio essencial às classificações soberanas do Brasil." E conclui o documento da empresa: "Essa promoção reflete o amadurecimento das instituições e da estrutura política brasileira". Portanto, não foi a sorte de Lula, mas o azar e a fragilidade do Partido dos Trabalhadores que assegurou a continuidade da política econômica, partido que não viu acolhidas pelo governo as demandas e pressões de sua militância no sentido de dar o calote na dívida externa e de reestatizar as empresas privatizadas no governo anterior. Toda a sorte de Lula esbarra nos acordos políticos que sustentam seu governo e que dependem de clientelismo e populismo e, portanto, de muito dinheiro público. As previsões da empresa, aliás, incluem, justamente, avaliações negativas que afetam sua avaliação de conjunto, como a de que a dívida líquida geral do governo equivalia a 47% do Produto Interno Bruto no final de 2007, uma das maiores fraquezas do Brasil.Essa onda de suposta bondade da economia não tem se refletido em outros âmbitos da realidade social. Se há um incremento no número de empregos formais, com carteira assinada, há também um declínio no salário médio dos trabalhadores com registro. Não é necessariamente boa a notícia de que menos de uma centena de empresas brasileiras tem, nos últimos meses, mediante negociação, reposto o salário deteriorado pela inflação nos últimos anos. Isso não é melhora salarial, e sim recuperação do que fora perdido anteriormente.A notícia, difundida há poucos meses, de que 20 milhões de brasileiros ingressaram na classe C, oriundos das classes sociais D e E, mais baixas, à primeira vista sugere que estamos em face de um franco processo de ascensão social dos pobres. De fato, quase 13 milhões de pessoas mudaram de categoria socioeconômica num prazo curto. Mas, se levarmos em conta que um acréscimo de apenas R$ 10 por mês nos rendimentos de cada pessoa seria suficiente para possibilitar essa mudança e que o Bolsa-Família está atendendo 11 milhões de famílias com donativos financeiros para complementação de renda, não temos como considerar esse número um êxito de política social. Por outro lado, dos 20 milhões de novos membros da classe C, 4,7 milhões de pessoas são originárias das classes A e B que caíram de condição social. Estamos, pois, em face de um brutal processo de descenso. No conjunto, entre os poucos reais da reclassificação social dos que subiram na vida, em parte por subsídio do governo e não por melhora na distribuição de renda, e o número dos que não tiveram condições de manter a renda e o padrão de vida, o cenário é de afluência econômica com incremento de pobreza. Os dados sociais negativos se confirmam quando agências internacionais constatam e difundem a má qualidade da educação brasileira, a falta de conhecimento para manejar o básico da matemática ou para compreender o mínimo do português. No fundo, mesmo, o governo optou por políticas de crescimento econômico que dão visibilidade à cornucópia brasileira, mas não dão visibilidade ao preço que por ela se paga. Essa contradição sugere que estamos caminhando para um modelo de economia dualista, como a da China, da Índia, de Cuba, em que a sociedade se divide em duas humanidades, a dos que trabalham e a dos que desfrutam. Essa é a realidade do crescimento econômico sem desenvolvimento econômico e social. *José de Souza Martins, professor de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP, é autor de A Sociabilidade do Homem Simples (2ª edição revista e ampliada, Contexto, 2008) e A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34, 2008)

Tudo o que sabemos sobre:
brasilinvestment gradealiás

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.