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Walter Craveiro/Flip
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Braulio Tavares, um mestre da ficção científica brasileira, tem clássicos reeditados

As coletâneas de contos 'A Espinha Dorsal da Memória' e 'Mundo Fantasmo' ganham novas edições após anos fora de catálogo

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2020 | 16h00

“Primeiro, dum pulo bruto, eu já estava lá, pegando minhas roupas, armado prestes. E vi o mundo fantasmo.” É assim que o jagunço Riobaldo descreve a surpresa que teve ao se ver em meio a um tiroteio numa das cenas finais de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. O mundo fantasmo, essa irrealidade brusca, é para onde o escritor, poeta, cordelista, dramaturgo e compositor paraibano Braulio Tavares leva o leitor com sua ficção científica que reflete o estranhamento diante do mundo. Como ele mesmo já afirmou: “De agora em diante, tudo é virtual, tudo está no silêncio, tudo está no chip, na nuvem”.

Em setembro de 2020, a editora Bandeirola lançou uma campanha de financiamento coletivo para relançar duas obras clássicas de Braulio: A Espinha Dorsal da Memória (1989), livro vencedor do Prêmio Caminho de Ficção Científica em Portugal; e Mundo Fantasmo (1996), que dá nome a um blog atualizado pelo autor desde 2003. A campanha foi bem-sucedida, arrecadando mais de 150% da meta proposta e viabilizando assim a publicação das novas edições desses livros que estavam há anos fora de catálogo.

Ambas as obras são coletâneas de contos que percorrem os diversos subgêneros da literatura especulativa, matizando fantasia, ficção científica e horror. A Espinha Dorsal da Memória tem duas partes, uma com narrativas insólitas mais gerais, abordando vários temas, e a outra contendo contos que se passam num mesmo universo e narram as etapas do contato da humanidade com uma civilização alienígena extremamente avançada.

A edição da Bandeirola conta ainda com uma seleta da fortuna crítica, reunindo resenhas e entrevistas publicadas na imprensa brasileira e portuguesa a respeito da obra de Braulio à época do lançamento original, incluindo textos assinados por José Paulo Paes e José Nêumanne no Estadão em 1990. 

No conto Os Ishtarianos Estão Entre Nós — que, aliás, já havia sido publicado no Jornal da Tarde do Estadão antes de ser lançado nessa coletânea —, Braulio demonstra sua capacidade de transformar temas banais em matéria-prima para narrativas fantásticas. Por meio de um fluxo de consciência metalinguístico, ele retrata o processo criativo de um escritor de ficção científica a elaborar uma história sobre uma raça alienígena que invade a Terra. É interessante que o tema do conto não é a invasão, mas sim os percalços cotidianos do escritor enquanto se debate com sua ideia, que se imiscui à realidade em seu entorno: “Lucas vai até à geladeira e abre o congelador, onde uma boa parte dos Ishtarianos tentou evadir-se mas acabou perecendo na vastidão inóspita da Sibéria”. 

História de Maldun, o Mensageiro, mostra a versatilidade de Braulio como escritor. O conto narra uma trama medieval, situada na Espanha tomada pelos mouros, com contornos épicos e enredo com toques de fantasia. Apesar disso, o autor rompe com convenções da literatura fantástica e  e o narrador-personagem desdenha da própria história, como que zombando do leitor: “Estais silenciosos… talvez desapontados. Não devíeis ter esperado muito da memória de um velho. Já visitastes cemitérios, já vistes aquelas lápides inscritas? É fácil resumir numa única frase uma vida humana, mas para narrar um só dos seus dias precisaríamos de muitas, muitas páginas.” 

Já em Cão de Lata ao Rabo o autor lembra os melhores momentos de Philip K. Dick ao narrar o experimento de um físico que cria um portal interdimensional. No entanto, como Braulio nunca escreve de modo cômodo, esse conto é feito inteiro em uma única frase, um rompante de prosa poética: “(...) o principal agora era a demonstração prática da sua fórmula que unificara várias teorias físicas, os buracos negros e buracos brancos, o monopolo magnético e os antipolos gravitacionais, os táquins e os tárdions, o giro da galáxia e o spin do elétron, a natureza revers-espelhada da matéria-energia, tudo, tudo entretecido e simplificado numa fórmula de meridiana clareza, irretorquível, invulnerável (...)”. 

Mare Tenebrarum apresenta uma família de retirantes marítimos que vive numa casa-barco tragada por um maremoto, conto tristemente premonitório à luz da crise migratória que acossa o mundo nos últimos anos. Já Sympathy for the Devil faz uma releitura sci-fi do recorrente motivo literário do pacto com o diabo: “O inferno não é uma masmorra com instrumentos de aço e oxigênio em combustão: o inferno é tudo que há de más memórias em sua mente”. A diversidade de temas sobre os quais Braulio se debruça desestabiliza as bases do leitor, que nunca sabe o que aguardar do próximo conto.

No poema Matéria de Poesia, Manoel de Barros escreve: “As coisas que não levam a nada/têm grande importância/ (...) Tudo aquilo que a nossa/civilização rejeito, pisa e mija em cima,/serve para a poesia”. Pois Braulio Tavares parece partir dessa noção para compor suas inventivas histórias de ficção científica. É como se ele parafraseasse Manoel de Barros e dissesse que “cada coisa sem préstimo/tem seu lugar/na ficção científica”. E assim ele cria seus enredos a partir do banal, do cotidiano, do sutil, transformando-os em matéria-prima para o fantástico, o insólito, o grandiloquente.

 

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