Brecht narra 2.ª Guerra Mundial do ponto de vista dos refugiados

Brecht narra 2.ª Guerra Mundial do ponto de vista dos refugiados

Dramaturgo alemão tem livro 'Conversas de Refugiados' lançado no País

Flávio Ricardo Vassoler*, Colaboração para o Estado

19 Agosto 2017 | 16h00

Uma estação é um local de trânsito, um antilocal por excelência. Apenas os nômades e condenados da terra – artistas itinerantes e mendigos, viciados e prostitutas – buscam abrigo nas estações entre o vaivém e a indiferença da legião de transeuntes. Entretanto, contextos históricos de fratura do cotidiano tendem a transformar as estações em refúgios e bunkers. Os fugitivos de pogroms, epidemias e guerras acreditam que as estações possam resguardá-los, ainda que já não haja mais para onde e como escapar. 

Em meio à devastação da 2.ª Guerra Mundial, o poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956) nos narra, em Conversas de Refugiados, que “dois homens [dois dissidentes alemães] estavam no restaurante da estação ferroviária de Helsinque e falavam de política, tomando sempre o cuidado de olhar para os lados. Um deles [o físico Ziffel] era alto e gordo e tinha as mãos alvas, o outro [o proletário Kalle] era atarracado e tinha as mãos de um metalúrgico.” (É preciso sempre olhar para os lados: conseguiremos fugir – ou pior, teremos a chance de nos suicidar – antes que a metástase da Blitzkrieg hitlerista comece a nos torturar?)

Resguardados (momentaneamente) do descalabro nazista, os refugiados brechtianos se põem a dissecar algumas historietas supostamente menores e despidas de sentido, historietas que, a bem dizer, nos revelam as mediações entre a sociopatologia da vida cotidiana e a ascensão democrática do partido de Hitler ao poder em 1933. 

Era uma vez, para Ziffel, uma lição sobre darwinismo social já em seu primeiro dia na escola: “Ao entrarmos na sala de aula, fomos colocados de pé junto à parede, e então o professor ordenou: ‘Procure cada um o seu lugar’, e corremos para as carteiras. Como houvesse um lugar de menos, um dos alunos não achou o seu e, depois que os demais se haviam sentado, ele se deteve no corredor entre as carteiras. O professor flagrou-o ali parado e lhe deu um bofetão. Tivemos a excelente lição de que não se pode ter má sorte.” 

Era uma vez, para Kalle, a vinculação entre a compulsão – ou melhor, a tara – pela ordem, o sumo machismo e a ejaculação do sadismo: “O homem mais ordeiro que conheci na vida se chamava Schiefinger, um soldado da SS no campo de concentração de Dachau. Contava-se dele que não permitia à namorada balançar o traseiro noutro dia que não fosse o sábado e noutro horário que não fosse a noite, nem mesmo por descuido. Na taverna, ele não podia pôr a garrafa de limonada na mesa, se a base do vasilhame estivesse molhada. Quando nos açoitava com o chicote de couro, agia de modo tão consciente que os vergões que causava obedeciam a um padrão que, submetidos a um teste, seriam milimetricamente aprovados. O sentido da ordem era-lhe de tal maneira entranhado que ele preferiria não açoitar a fazê-lo de forma desordenada.”

Era uma vez, para o físico Ziffel, as afinidades sumamente eletivas entre a pequenez e o anonimato do Zé Ninguém e a grandiosidade e a onipresença do Führer: “Tive um auxiliar de laboratório, o senhor Zeisig, que mantinha tudo em ordem, e isso lhe dava muito trabalho. Arrumava as coisas continuamente. Toda manhã as mesas brilhavam de tão limpas. Ele olhava para nós com seus olhos transparentes, nos quais não se percebia um único grão de inteligência; tínhamos pena dele. Nunca imaginei que o senhor Zeisig pudesse ter uma vida privada, mas tinha. Quando Hitler chegou ao poder, descobriu-se que o senhor Zeisig havia sido o tempo todo um velho combatente. Na manhã do dia em que Hitler foi nomeado chanceler, ele disse, enquanto cuidadosamente pendurava meu casaco: senhor doutor, agora haverá ordem na Alemanha.” 

É como se Brecht nos ensinasse que o substantivo Führer provém do verbo führen, que significa conduzir, levar e guiar, dirigir, liderar e estar à frente. Em diálogo com as historietas de Brecht, vale lembrar que o psicanalista alemão Wilhelm Reich (1897-1957), em sua obra Psicologia de Massas do Fascismo (1933), analisa com minúcia, por meio de exemplos análogos às historietas presentes em Conversas de Refugiados, as afinidades sumamente eletivas (e cotidianas) entre o Führer e a legião de homens e mulheres a serem conduzidos. 

As tragédias históricas do século 20 já nos deveriam ter ensinado como e por que contextos de crise chocam o ovo da serpente e liberam anseios sumamente autoritários – anseios que se envergonham cada vez menos de vociferar que: (i) a democracia não sabe ensinar a cada um o seu lugar; (ii) os condenados da terra jamais deveriam ter tido voz; (iii) as coisas só devem mudar para que permaneçam precisamente como sempre foram. Não à toa, Bertolt Brecht chegou a sentenciar que “a cadela do fascismo está sempre no cio”.     

*Flávio Ricardo Vassoler é doutor em letras pela USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA)

Conversas de Refugiados

Autor: Bertolt Brecht

Tradução: Tercio Redondo

Editora: 34

160 páginas

R$ 45

Mais conteúdo sobre:
Literatura Bertolt Brecht

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