Brincando de odiar

'Iniciativas culturais' como o Proibidão realimentam o desrespeito ao diferente numa sociedade marcada pela discriminação racial

Noemi Moritz Kon e Sergio Kon, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2012 | 03h09

O preconceito se manifesta das formas mais diversas e com infinitas nuances. Podemos imaginar que estaremos livres da alcunha de racistas quando, ao promovermos um show de humor, alertamos nosso espectador do conteúdo imoral das piadas e gestos que apresentaremos, convidando-o inclusive a assinar um termo que eximirá a todos de quaisquer responsabilidades frente às coisas terríveis - mas certamente engraçadas - que diremos em cena e ouviremos na plateia. Afinal, trata-se de um espetáculo de humor e tudo não passa de brincadeira, não é?

A celeuma do Proibidão não estaria instalada, nem o caso ganharia tamanha repercussão, não fosse por duas ocorrências não programadas: 1) um músico, negro - que por estar a trabalho no show não assinou o termo de compromisso -, sentindo-se ofendido por uma anedota, prestou queixa contra o autor da piada; 2)um dos humoristas daquela noite, negro, declarou dias depois ter estranhado o comportamento do músico, já que este havia se ofendido apenas por o autor da piada ser de descendência asiática.

O Proibidão requereu o direito de usar a escatologia, a crueldade e a discriminação por meio de um termo de responsabilidade. O que não o torna automaticamente preconceituoso, nem lhe dá, de resto, autorização para sê-lo. Porém, ao exigir imunidade jurídica num espetáculo sem roteiro, compromisso ou freio ético, reiterou-se a alienação.

Querendo, ou não, essas e outras "iniciativas culturais" realimentam o desrespeito ao diferente em uma sociedade como a nossa, historicamente marcada pela escravatura e pela discriminação racial e social.

A população negra, que inclui todos os afrodescendentes, por exemplo, compõe mais da metade da brasileira. No entanto, apenas um terço dos jovens que completam o ensino médio são negros, pouquíssimos têm a oportunidade de cursar uma faculdade e raros são os que atingem os postos de trabalho de destaque e mais bem remunerados nas nossas empresas. Pode-se dizer o mesmo da população indígena e seus descendentes. São os que recebem as punições mais pesadas da Justiça, e os que morrem mais cedo, por doença ou assassinato. Sabemos dos episódios de bullying contra crianças e jovens de origem asiática, dos mendigos assassinados nas ruas e dos atos homofóbicos que vicejam na cidade. Sabemos que moradores de periferia são vistos com desconfiança pelos do centro e que jovens ricos são prejulgados culpados em incidentes dramáticos. Podemos imaginar sem muito esforço as piadas que se poderiam ouvir no Proibidão explorando essas situações.

O humor em sua potência crítica é essencial para denunciar desvios e abusos de comportamento cultural. Faz-nos ver o ridículo de situações que, de outro modo, passariam despercebidos. Quando a motivação é o alerta ou a denúncia, ele até pode flertar com as fronteiras da discriminação. Aí sim ele será, mais do que politicamente incorreto, um fator construtivo de transformação.

Não se trata de demonizar essa plateia, de jogar pedras em outras "genis". Nossa questão é a da aceitação do outro como igual, em quaisquer circunstâncias. O esforço que se impõe é o de formar uma sociedade mais próxima da civilidade.

Como reagiria essa plateia (e seus humoristas) se entremeássemos a diversão com relatos pungentes de pessoas que foram e são discriminadas - por sexualidade, gênero, idade, credo, cor, classe social? O espetáculo prosseguiria ou a piada perderia a graça, expondo aquilo que realmente somos e o apartheid em que estamos mergulhados? A piada ferina se revelaria como fomentação do horror. Difícil rir!

Importante é disseminar a reflexão sobre a discriminação à brasileira, sempre dissimulada, que induz à reprodução irrefletida de uma ética da exclusão, à manutenção de privilégios, à naturalização e à reificação da desigualdade, como se essa fosse mero resultado de capacidades e incapacidades individuais. A manutenção de tal estado de coisas passa também por certo tipo de humor de mercado e traz nefastas consequências para a construção da subjetividade do brasileiro.

O preconceito, afinal, é o principal combustível das piores formas de violência no mundo. É nossa responsabilidade combater esse mal, cotidianamente, cada um de nós, em cada uma de nossas ações. 

NOEMI MORITZ KON É PSICANALISTA, AUTORA DE A VIAGEM: DA LITERATURA À PSICANÁLISE (COMPANHIA DAS LETRAS)

SERGIO KON, ARTISTA GRÁFICO, PLÁSTICO, É AUTOR DE IMAGEM: DA CAVERNA AO MONITOR, A AVENTURA DO OLHAR (MELHORAMENTOS)

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