DAVIDE BONADONNA/REUTERS
DAVIDE BONADONNA/REUTERS

Brontovérsia

Existência de dinossauro herbívoro é confirmada por estudo que reacende disputa jurássica

Elif Batuman, NEW YORKER

11 Abril 2015 | 16h00

Pela primeira vez em mais de um século, os admiradores do brontossauro não precisam mais defender seu amado dinossauro das acusações de não existência.

Desde 1903 o consenso científico sempre foi no sentido de que o brontossauro não era realmente diferente do apatossauro para merecer sua própria subdivisão biológica. Mas um novo estudo taxonômico divulgado na terça-feira afirma o oposto. Pesquisadores de Portugal e do Reino Unido analisaram 81 fósseis diplodocídeos - incluindo espécimes do Apatossauro Ajax (o primeiro apatossauro descrito) e o Apatossauro Excelsus ( dinossauro antigamente conhecido como brontossauro) - num total de 477 características morfológicas. “As diferenças que constatamos entre o Brontossauro e o Apatossauro foram tão abundantes quanto as encontradas entre outros gêneros de uma mesma família”, afirmou Roger Benson, professor de paleobiologia na Universidade Oxford.

O fato de a legitimidade do brontossauro ter sido sempre colocada em dúvida pode ser uma novidade para alguns leitores. O nome “apatossauro” , que traduzido do grego seria “lagarto enganador”, por causa de um osso com um formato curioso na parte inferior da cauda, jamais decolou. Não se sabe claramente a razão pela qual as pessoas apreciavam tanto o brontossauro - a simpática métrica do termo ou a ressonância do significado da palavra, “lagarto trovão”. E então Fred Flintstone pôde continuar a encomendar suas costeletas de brontossauro.

Em seu ensaio Bully for the Brontosaurus, o paleontólogo Stephen Jay Gould qualificou a controvérsia sobre o nome (uma brontovérsia?) como “o legado direto da mais famosa inimizade na história da paleontologia dos vertebrados”, a rivalidade entre Edward Cope e Othniel Marsh.

A Guerra de Ossos, como essa fase da história natural americana ficou conhecida, teve início logo após a Guerra Civil, quando os dois paleontólogos da Costa Leste seguiram para o oeste para investigar ossos gigantes desenterrados durante a construção da ferrovia Union Pacific. Ela terminou somente nos anos 1890 com a ruína e morte dos dois personagens centrais.

No curso de suas carreiras, Cope e Marsh coletaram milhares de espécimes: lançaram as bases da paleontologia moderna. Mas, em seu desespero para ter a primazia sobre o outro na descoberta de dinossauros, ambos recorreram à espionagem, suborno, sabotagem, ataques públicos e à destruição de fósseis; em 1879, Marsh, que tinha entre outros parceiros de pesquisa Buffalo Bill, ordenou que um poço de dinossauro fosse dinamitado para não dar chance a Cope. Os dois acabaram destruindo suas respectivas reputações e fortunas pessoais.

Como Cope e Marsh “queriam se apropriar do maior número de nomes”, escreve Gould, “frequentemente nomeavam fragmentos que podiam não estar bem caracterizados”. Em 1903, Elmer S. Riggs, do Field Museum de Chicago, examinou dois espécimes descritos apressadamente por Marsh - o Apatossauro de 1877 e o Brontossauro de 1879 - e concluiu que pertenciam ao mesmo gênero. O nome mais recente, Brontossauro, seria descartado em favor do mais antigo.

“O brontossauro foi ressuscitado como um gênero distinto”, disse-me Frank T. Krell, da International Commission on Zoological Nomenclature. Mas a palavra final sobre o assunto caberá à comunidade dos paleontólogos. “Já soube que vêm ocorrendo debates arrebatados entre os pesquisadores de dinossauros e isso é bom”, disse ele. 

Quem lamentará pelo gênero Apatossauro se ele perder o Excelsus, seu mais carismático membro? Fazendo uma retrospectiva, talvez tenha sido uma premonição a decisão de Marsh de batizar seu primeiro espécime Apatossauro com o nome do herói grego Ajax. Segundo maior guerreiro depois de Aquiles, Ajax combateu Heitor duas vezes, mas não o matou, lutou com Ulisses, mas não venceu, cortejou Helena, mas não foi escolhido. No final foi induzido em erro pela deusa Atena, confundindo um rebanho de ovelhas com seus inimigos. “Invencível, ele foi subjugado pela sua aflição”, escreveu Ovídio; Ajax morreu pela sua própria espada. Não é fácil ser preterido.

 / TRADUÇÃO DE TEREZINHA

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