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'Burning the Books' mostra um mundo assustador

Recém-lançado, livro de Richard Ovenden fala de ataque aos livros e as consequências dessa intolerância

André Caramuru Aubert , Especial para o Estado

02 de janeiro de 2021 | 16h00

Livros sobre ataques a livros (e à cultura em geral) surgem, de tempos em tempos, muitas vezes em reação a épocas sombrias. Em 2004, o venezuelano Fernando Báez, aturdido com o grau de destruição do patrimônio histórico que viu no Iraque, como enviado da ONU após a invasão norte-americana, publicou o já clássico Uma História Universal da Destruição de Livros – da Antiga Suméria ao Iraque Moderno (Ediouro). Agora, assustado com os tempos de pós-verdade de Trump e correlatos, o inglês Richard Ovenden acaba de lançar Burning the Books – A History of the Deliberate Destruction of Knowledge (Queimando os Livros – uma História da Destruição Deliberada do Conhecimento, em tradução livre).

Diretor da Biblioteca Bodleian, da Universidade de Oxford, fundada em 1598 e uma das mais importantes do mundo, Ovenden conhece bem a matéria. Mas ele não pretende, como Báez, contar de maneira cronológica a história de destruições de livros desde os sumérios até hoje. Ainda que, como seu antecessor, comece pelos povos mesopotâmicos (afinal, a biblioteca de Nínive, no século VII a.C, é a primeira de que se tem notícia, e pouco dela sobrou) e discuta o trágico destino da biblioteca de Alexandria (até hoje a mais famosa e paradigmática de todas, por onde circularam pensadores como Arquimedes e Euclides), o livro se parece mais com uma coletânea de ensaios, no qual cada capítulo pode ser lido separadamente. Essa estrutura, nas mãos de um autor erudito como Ovenden, de maneira alguma o deixa menos interessante. E a presença da Bodleian, na maior parte dos capítulos (e de Sir Thomas Bodley, o fundador, no capítulo 4), é tão frequente que seria apropriado que ela fosse mencionada no título.

O ataque aos livros não é a única preocupação de Ovenden. Seu olhar transita por temas como o universo digital em que vivemos (com sua abundância de conteúdo e, ao mesmo tempo, ameaças e fragilidades) e a destruição de documentos “comprometedores”, seja para antigas potências em relação a suas ex-colônias, seja para a reputação de algum escritor morto (ou de seus parentes: ficou famoso o caso do poeta Ted Hughes, viúvo da também poeta Sylvia Plath, que destruiu parte dos diários desta depois que ela se suicidou). O capítulo Chamas do Império mostra guerras fazendo livros mudarem de mãos, como quando a biblioteca do bispo de Faro, em Portugal, acabou na Inglaterra (e, claro, na Bodleian), ou quando a biblioteca de Heidelberg, na Alemanha, foi parar no Vaticano. No capítulo A Brigada do Papel, Ovenden conta a história de um grupo de judeus, na Lituânia ocupada pelos nazistas, que conseguiu salvar um número razoável de documentos e obras raras. Ainda que muita coisa tenha sido destruída (e que quase todos os membros da “brigada”, mortos), o heroísmo daquelas pessoas não foi em vão. 

Os capítulos mais dramáticos são os que falam de vandalismo, em geral por razões políticas ou ideológicas. Sarajevo Mon Amour relata como, em 1992, os invasores sérvios buscaram, intencionalmente, destruir a biblioteca nacional da Bósnia, em Sarajevo. Canhões com bombas incendiárias castigaram por dias, certeiros, o prédio da biblioteca, enquanto atiradores de elite miravam qualquer pessoa que tentasse sair do prédio carregando livros. Estima-se que o acervo destruído esteja na casa dos dois milhões de volumes, além de centenas de milhares de documentos únicos, alguns dos quais antiquíssimos. Destino semelhante teve a biblioteca da Universidade de Louvain, na Bélgica, uma das mais antigas da Europa (fundada em 1425), intencionalmente destruída por militares alemães em 1914 e, depois de reconstruída, com as doações de outras bibliotecas e de filantropos de todo o mundo, novamente arrasada pelos nazistas em 1940.

E há neste livro, também, algum combustível para velhos debates. Em A Chegada das Trevas – Como os Cristãos Destruíram o Mundo Clássico, Catherine Nixey defendia a tese de que foi por um deliberado processo de destruição, por parte dos fundadores do cristianismo, de livros e obras de arte, que o legado clássico greco-romano só chegou em fragmentos até nós. A tese é polêmica e não poucos autores discordam, argumentando que obras clássicas simplesmente foram deixando de ser lidas e preservadas. Ao contar o que aconteceu na Europa com a chegada do protestantismo, um milênio depois dos fatos narrados por Nixey, Burning the Books acaba trazendo, indiretamente, uma nova luz ao debate, evidenciando o poder destrutivo do fanatismo cristão: na Inglaterra do século 16, a fúria dos reformadores protestantes, para os quais só a Bíblia tinha valor, fez com que inúmeras bibliotecas de mosteiros, algumas contendo livros e documentos únicos, tenham sido queimadas ou saqueadas.

Burning the Books não tem a densidade de Uma História Universal da Destruição dos Livros: traz capítulos desiguais e baseia-se, talvez um pouco excessivamente, em exemplos britânicos e/ou relacionados à história da biblioteca Bodleian. Ainda assim, é erudito, assustador e sugere estratégias de preservação. O tempo passa, as coisas mudam, mas livros continuam a soar ameaçadores (e a servir de alvo) para ditadores, postulantes e simpatizantes.

BURNING THE BOOKS

AUTOR: 

Richard 

Ovenden. 

EDITORA: 

Harvard 

University Press

320 págs, 

US$ 29.95

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