Bush é fraco em História, mas gosta de usá-la

Na analogia Iraque-Vietnã, ele omite que a intervenção dos EUA é que gerou banho de sangue, nos dois casos

Ian Buruma*, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2007 | 12h28

O presidente George W. Bush não é famoso por ter um profundo conhecimento histórico. Mas isso não o impede de usar a História para justificar suas políticas. Num discurso recente a veteranos de guerra em Kansas City, ele defendeu seu objetivo de "manter o rumo" no Iraque citando as conseqüências da retirada americana da Guerra do Vietnã. Também mencionou a ocupação do Japão pós-1945 e a Guerra da Coréia como exemplos de sucesso do esforço americano para levar liberdade à Ásia e, por extensão, ao mundo.Historiadores, democratas e outros críticos de Bush logo denunciaram seu discurso - particularmente a referência ao Vietnã - como interesseiro, desonesto e equivocado.Desta vez, contudo, Bush acertou na analogia histórica. A Guerra do Vietnã, é claro, difere da guerra no Iraque em quase todos os aspectos. Ho Chi Minh não era Saddam Hussein. No Vietnã, os Estados Unidos não invadiram um país, e sim defenderam um aliado autoritário e corrupto contra um regime comunista agressivo. Mas o que Bush disse foi que a retirada americana da Indochina deu lugar a um banho de sangue no Camboja e à opressão brutal no Vietnã. Uma retirada do Iraque, insinuou ele, resultaria num banho de sangue parecido ou pior.Isso é quase uma certeza. Mas o que Bush não disse foi que os assassinatos em massa no Sudeste Asiático e os potenciais assassinatos em massa no Iraque não ocorreriam sem o caos provocado pela intervenção americana.E quanto às histórias de sucesso na Ásia - no Japão, Coréia e outros lugares sob proteção americana? Bush estava certo ao louvar o papel dos EUA na conquista da liberdade desses países? Como ele disse aos veteranos em Kansas City: "A geração de americanos de hoje resistirá à tentação da retirada? E faremos no Oriente Médio o que os veteranos desta sala fizeram na Ásia?"O que exatamente os EUA fizeram na Ásia? Os primeiros anos da ocupação do Japão foram, de fato, uma vitória notável para a democracia. Em vez de ajudar os japoneses da velha-guarda a restaurar um sistema autoritário, a administração do general Douglas MacArthur ajudou os liberais japoneses a restaurar e melhorar suas instituições democráticas anteriores à guerra.Os sindicatos ganharam influência. As mulheres, o direito ao voto. As liberdades civis avançaram. E o imperador japonês, um semideus, foi trazido à Terra. Grande parte do crédito é dos próprios japoneses e dos idealistas e esquerdistas defensores do New Deal no governo de ocupação de MacArthur que os apoiaram.No entanto, quando a China caiu nas mãos dos comunistas de Mao e a Coréia do Norte obteve apoio chinês e soviético para uma invasão do Sul, o idealismo democrático foi barrado repentinamente. No Japão, criminosos de guerra foram libertados, "vermelhos" foram expurgados e governos de direita liderados pelos mesmos criminosos de guerra receberam apoio entusiasmado dos EUA. A democracia, em vez de nutrida, foi distorcida, com o encorajamento ativo dos EUA, para garantir que a direita permanecesse no poder e a esquerda ficasse à margem.Os sul-coreanos certamente têm muito a agradecer aos americanos. Sem a intervenção da ONU na Guerra da Coréia, liderada pelos EUA, o Sul teria sido dominado por Kim Il-sung, o Grande Líder, e a liberdade e a prosperidade de hoje jamais teriam surgido.Mas a democracia sul-coreana não foi um presente dos Estados Unidos e nem sempre contou com o apoio americano. Do fim dos anos 40 ao fim dos 80, os EUA toleraram e por vezes apoiaram ativamente governantes anticomunistas autoritários, que tomaram e consolidaram o poder por meio de golpes violentos e supressão da dissidência.O mesmo valeu para as Filipinas, Taiwan, Indonésia, Tailândia e, na verdade, o Oriente Médio, onde a democracia ainda não criou raízes. Enquanto durou a Guerra Fria, os governos dos EUA favoreceram dirigentes militares e ditadores civis em nome do combate ao comunismo - tudo para manter a esquerda sob controle, incluindo o tipo de esquerda que seria considerado simplesmente liberal no Ocidente democrático.É verdade que, para a maioria das pessoas, a vida sob dirigentes autoritários e direitistas era melhor, em geral, que a vida sob Mao, Pol Pot, Kim Il-sung ou mesmo Ho Chi Minh. Mas chamar os cidadãos governados por Park Chung-hee, Ferdinand Marcos ou pelo general Suharto de livres é uma abominação. O fato de os sul-coreanos, filipinos, tailandeses e taiwaneses terem se tornado livres, ou ao menos mais livres, não se deve tanto aos EUA quanto às pessoas que lutaram pela própria liberdade.Foi só no fim dos anos 80, quando o império comunista ruía, que os governos americanos apoiaram ativamente políticos e manifestantes democráticos em Seul, Taipé ou Manila. Mas os heróis da democracia são asiáticos, não americanos.Bush está certo ao afirmar que o povo do Oriente Médio gostaria de ser tão próspero e livre quanto os sul-coreanos. Mas sua idéia de que a guerra no Iraque seja simplesmente uma continuação das políticas dos EUA na Ásia não poderia ser mais equivocada. Na Ásia, como no Oriente Médio, a estratégia dos EUA foi apoiar ditadores contra o comunismo até que o próprio povo os derrubasse. Hoje, no Oriente Médio, a estratégia é temerária e radical: invadir um país, arruinar suas instituições e esperar que a liberdade floresça em meio à conseqüente anarquia.Confundir essas empreitadas e fingir que são iguais é errado, perigoso e também decepcionante para quem ainda considera os EUA uma força benéfica. *Ian Buruma é professor de Democracia, Direitos Humanos e Jornalismo no Bard College e autor, mais recentemente, de Murder in Amsterdam: The Death of Theo van Gogh and the Limits of Tolerance (Assassinato em Amsterdã: a morte de Theo van Gogh e os limites da tolerância)QUINTA, 13 DE SETEMBROGradual e limitada "Graças ao sucesso obtido" , vai começar o regresso de soldados americanos do Iraque, anunciou o presidente Bush. A retirada será gradual e limitada. Bush deixou claro que os EUA continuarão mantendo nos próximos anos um grande envolvimento no Iraque.

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