Bye, bye, USA

A propaganda antiimigração está mandando os brasileiros residentes na América de volta para casa

Lúcia Guimarães*, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2007 | 00h50

Imagino o sorriso de Lou Dobbs quando abriu o New York Times da última terça-feira e leu a manchete que se propagou como rastro de pólvora na Internet - "Brasileiros Desistem do Sonho Americano". Deve ter sido um momento de glória barata para o confesso populista Dobbs. Todas as noites na CNN, ele comanda um comício contra a imigração e o comércio livre travestido em programa jornalístico. Seu audiência está tão alta que a cada vez menos confiável rede de notícias plantou inúmeras perguntas sobre imigração no debate republicano que moderou no dia 28 passado . Não é preciso ser estatístico para saber que as maiores fontes de angústia do público americano hoje são a guerra no Iraque e a recessão - já em curso -, depende do economista que ouvirmos. "Lou Dobbs está vencendo", declarou em novembro o colunista conservador David Brooks, no New York Times. Brooks lembrou que, não faz muito tempo, a maioria da opinião pública americana era a favor da liberalização da política de imigração. Até Hillary Clinton teve que desmentir uma declaração recente, por ter tido a audácia de apoiar uma iniciativa do governador novaiorquino Eliot Spitzer, a favor da concessão de carteiras de motoristas para ilegais. O argumento do governador, que também teve que fugir da briga com o rabo entre as pernas, era óbvio: quanto mais motoristas sem carteira nas estradas, mais mortes no trânsito. A vitória evidente da propaganda antiimigrante (que os americanos liberais lamentavam como um problema europeu) e seus desdobramentos é uma das origens da decisão de milhares de brasileiros que tomam o caminho de volta, antes mesmo de ter acumulado o mínimo de poupança para recomeçar a vida no Brasil. A migra, como é conhecida a temida divisão de meganhas encarregados dos arrastões, está visível como nunca. Havia um pacto hipócrita que permitia aos pequenos e médios empresários americanos empregar a necessária mão-de-obra ilegal, pagar-lhes salários mais baixos e burlar leis trabalhistas. Mas a virada populista e uma enxurrada de leis estaduais antiimigração (um recorde de 170 leis aprovadas este ano) deram impulso às batidas. Pizzarias na Califórnia, padarias em Massachusetts, fábricas no Colorado, as ações policiais começaram a pipocar, separar famílias e criaram um clima de insegurança enorme. Hoje há uma espera muito maior em todos os processos burocráticos envolvendo imigrantes. Mas a mudança cultural, ainda que difícil de medir, é um ator psicológico evidente que cria desconforto entre os imigrantes, mesmo os que têm seus papéis legalizados. Hoje, em cidades com grande presença brasileira como Boston, muitos têm medo de aparecer até para uma festa de 7 de setembro. Quando desembarquei em Nova York para passar um ano, em 1985, a atmosfera era outra. Os novaiorquinos se preocupavam com o crime comum e a polícia se ocupava de tráfico de drogas e da Máfia. Havia uma sensação de segurança, uma falta de preocupação em ser destacado como estrangeiro. Em 1990, com a passagem do Ato de Imigração, os Estados Unidos aumentaram a cota anual de imigrantes para 700 mil, num reconhecimento da importância do trabalho estrangeiro na economia progressivamente globalizada. A elite americana continua empregando exércitos de ilegais para tarefas domésticas para as quais não há mão-de-obra nativa. Ao contrário da bile expelida por oportunistas como Lou Dobbs, ironicamente um graduado em economia de Harvard, veio da alma máter do âncora um dos estudos mais citados sobre o impacto da imigração ilegal nos Estados Unidos. Os estimados 12 milhões de ilegais não roubam empregos dos americanos. Apenas os trabalhadores que não completaram o segundo grau tiveram uma perda de 8% nos seus salários, possivelmente por causa da presença da mão-de-obra estrangeira. Mas, conclui o mesmo estudo, certos pequenos negócios nem existiriam não fosse a oferta de mão-de-obra barata dos ilegais. Um detalhe que Dobbs não cita na sua diatribe noturna: em Ohio, o estado com menor população imigrante do país, os trabalhadores sem diploma de segundo grau perderam 31% do valor de seus salários. Não à toa a cineasta Tania Cypriano escolheu, para divulgar seu novo filme, a famosa frase de Tom Jobim quando ele também desistiu do sonho americano em 1990: "O Brasil é uma merda, mas é uma maravilha. Os Estados Unidos são uma maravilha, mas são uma merda". Tive o privilégio melancólico de ouvir pessoalmente o comentário do maestro em Manhattan quando agonizava sobre a minha própria condição de expatriada. O melhor retrato recente da esperança e do descontentamento do expatriado brasileiro está no filme de Tania Cypriano, ainda inexplicavelmente inédito no Brasil. Minha Avó Tem uma Câmera de Vídeo, peço licença para repetir-me, é um marco no documentário da diáspora brasileira. O filme foi produzido graças às 600 horas de vídeo acumuladas pela avó de Tania, Dona Elda, 91 anos, que hoje vive em São Paulo depois de três mudanças para os Estados Unidos a partir da década de 80. Dona Elda é uma precursora do YouTube. O documentário acompanha uma família que cobre todo o espectro do exílio na América - trabalho braçal, afluência, legalização, clandestinidade, solidariedade, choque cultural, nostalgia e deslumbre pelo consumo. "Cristina", catarinense de Florianópolis, onde se formou em jornalismo, desembarcou em Nova York em 2005 com um visto Q1 que dava direito a trabalhar num parque de diversões. Quando o visto expirou, transformou-o num visto de estudante e freqüentou cursos na New York University e em outras escolas , enquanto se sustentava como garçonete. Graças ao número de Social Security, equivalente ao nosso CPF, empregou-se até como estagiária na reportagem de um dos principais jornais de Nova York. Cristina está de malas prontas para voltar ao Brasil. "Vai ser melhor para minha carreira", diz ela. "Há muita gente começando muita coisa interessante no Brasil. Vim para melhorar o meu inglês e adquirir experiência. Cumpri meu propósito. Não quero continuar a trabalhar em restaurante. Espero que o que eu aprendi aqui vá me abrir portas no Brasil. Não sou jaded (blasée)", diz ela, traindo a assimilação rápida da juventude, "quero fazer parte do que acontece lá". Aos 25 anos, ela sabe que tem fôlego e tempo para ir. E voltar. *Lúcia Guimarães é correspondente em Nova York desde 1985. Dirigiu documentários para o GNT e é produtora e participante do programa Manhattan Connection, exibido pelo mesmo canal

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