Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Cada coisa em seu lugar

Pode-se louvar a Deus com dinheiro sujo, dinheiro de corrupção, dinheiro na cueca ou transferido para conta secreta?

SÍRIO POSSENTI, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2012 | 02h07

Os discursos são organizados com bastante rigidez. Às vezes parece que não. Numa cidade, por exemplo, parece que se vê de tudo em todos os lugares. Mas, observando as coisas mais de perto, vemos que há muita ordem. Não há luminosos em qualquer lugar, não há outdoors em qualquer lugar. E, principalmente, não se lê Banco do Brasil em um prédio do outro banco nem o nome de outro banco num do Banco do Brasil.

Numa banca de revistas, as coisas podem parecer misturadas, mas procurando um pouco - às vezes, isso nem é necessário - encontram-se as revistas femininas aqui e as de língua portuguesa acolá. Mais: ao abrir uma delas, descobre-se que cada texto, cada propaganda e cada carta de leitor(a) fazem sentido nessa e não naquela revista.

É bastante raro que os textos estejam fora do lugar. Outdoors com a inscrição "Deus os fez macho e fêmea", espalhados pelo pastor Silas Malafaia, são uma raridade. Estes só foram possíveis em uma campanha contra homossexuais e, ainda mais, porque a defesa de seus direitos foi lida como tentativa de imposição a todos de uma opção sexual de minorias.

É um pouco por causa dessa ordem dos discursos que corre um debate a respeito da inscrição da frase "Deus seja louvado" em cédulas de nossa moeda. Essa frase, em um templo ou em texto religioso, não causa estranheza. Mas o que ela faz numa cédula?

Uma hipótese é que uma sociedade profundamente religiosa (na verdade, cristã, pelo menos atualmente, por mais que se queira forçar as interpretações apelando para a história ou para vaguidades como "a palavra designa qualquer divindade ou força superior") se sinta compelida a louvar a Deus sempre e em qualquer lugar.

Observe-se bem: trata-se de louvar. A frase não é "Deus nos ajude", mas "Deus seja louvado".

Deus, em sociedades como a nossa, de tradição católica, tem diversas serventias: pede-se a ele proteção ou ajuda (às vezes, automaticamente, quando o avião decola), agradece-se quando acontecem coisas boas (ou milagrosas) ou, mais modestamente, se não acontece nenhuma desgraça. Quando essas ocorrem, aliás, muitos praguejam ou blasfemam, e perdem sua fé.

Desinteressadamente. Há versões do cristianismo que se dedicam a louvar. Outras, a pedir. Algumas levam a viver com Deus uma relação especial, como fazem os monges. Louvar é uma ação que decorre fundamentalmente da crença de que Deus possui todos os predicados que o fazem superior. É uma ação sem interesses. Louva-se graciosamente, porque Deus é onipotente. Aliás, monges louvam muito.

Mas esse sentido está preservado pela inscrição no dinheiro que se ganha e se gasta de mil maneiras, muitas pouco religiosas? Significa que não é só nos templos que se pode orar, que se pode fazer isso em qualquer lugar, mesmo no dinheiro? Que Deus seja louvado porque recebi esta grana por meu trabalho ou porque tenho dela o suficiente para pagar minhas contas, sem pedir esmola ou, pior, um empréstimo bancário, com suas pouco louváveis taxas de juro? Pode-se louvar a Deus com dinheiro sujo, dinheiro de corrupção, dinheiro na cueca ou transferido online para uma conta secreta? Dinheiro do suor, dinheiro do pó, dinheiro das máfias: será que Deus aceita o louvor de todas as granas, ou só do sagrado dinheiro do dízimo e das doações para a construção do templo?

A discussão está nas mídias. Membro do Ministério Público quer retirar a inscrição das notas. A frase atentaria contra os princípios da igualdade e da não exclusão de minorias. Além disso, o Estado é laico. Portanto, não pode misturar nada com igrejas (o argumento foi mobilizado há algum tempo para tentar retirar crucifixos dos tribunais).

O argumento da defesa (do BC) foi invocar a Constituição, que inclui a expressão "com a proteção de Deus". Mas não se pergunta como foi parar lá.

Como se dá com quase tudo que ocorre nos últimos 30 anos, Sarney está no meio da disputa. A frase teria ido parar nas notas a pedido dele. O curioso é que foi mantida por FHC, quando ministro da Fazenda. O argumento seria que se trata de "tradição da cédula brasileira". Logo FHC, o ateu, que por isso perdeu uma eleição em São Paulo.

Há quem argumente que até a moeda americana traz inscrição semelhante: "In God we trust". Pode bem ser que esta seja a versão para o americano comum. Para os que têm dólares em penca, a inscrição deveria ser "We trust in trusts".

Segundo uma fonte, o MP pede que a Justiça Federal estipule multa diária de R$ 1 se a União não cumprir a decisão. O que não está dito é se deve ser paga em moedas com ou sem a inscrição.

 

* SÍRIO POSSENTI - PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE LINGUÍSTICA / INSTITUTO DE ESTUDOS DA LINGUAGEM DA UNICAMP E AUTOR DE QUESTÕES PARA ANALISTAS DE DISCURSO (PARÁBOLA)

 

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