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Cada um com seus loucos

Em sua absoluta insanidade, republicanos representam os EUA melhor que Hillary

Lee Siegel, O Estado de S. Paulo

15 Agosto 2015 | 16h00

Não há um único pré-candidato na lista dos republicanos que concorrem à presidência (atualmente são 17 - são tantos que posso até imaginar meu dentista e nossa babá anunciando sua candidatura) que, na minha opinião, esteja apto a governar o país. Trata-se de pessoas inexperientes, intolerantes ou ideologicamente rígidas, ou insensíveis, incompetentes, ou simplesmente estúpidas, ou tão alheias ao momento em que os Estados Unidos se encontram que poderiam perfeitamente estar vivendo no século 19.

Ao mesmo tempo, não conseguimos tirar os olhos deles. Seja Donald Trump e sua ópera-bufa, ou Rand Paul, que chama outro destacado republicano de mentiroso, ou Marco Rubio e sua esposa, com sua maneira temerária de dirigir, ou Mike Huckabee, afirmando que o acordo de Obama com o Irã levará Israel “à boca do forno”, ou Scott Walker, que compara os sindicalistas e suas reivindicações a terroristas do Estado Islâmico. Onde quer que olhemos, os republicanos conseguem ser fascinantes e envolventes em sua absoluta insanidade.

O fato essencial é que, embora os republicanos não sejam aptos a governar o país, representam o país de uma maneira mais precisa do que Hillary ou os outros candidatos democratas. O único democrata que constitui alguma ameaça a Hillary é Bernie Sanders, e na realidade não constitui qualquer ameaça. Votei nele sem pestanejar - e, se morasse em Chicago, onde a máquina eleitoral tende a adquirir vida própria, votaria outra vez -, mas ele tem praticamente a mesma chance de se tornar presidente que o meu dentista. Socialista, sua estratégia política é também muito distante da maneira de sentir da sociedade americana como um todo. O país estava pronto para um presidente negro, e está pronto para uma mulher presidente, mas não está pronto para um presidente social-democrata. Identidade é uma coisa. Economia é outra completamente diferente.

A maioria considera que Hillary obterá a indicação dos democratas para a presidência, e esse é um dos seus problemas. Os americanos preferem eleições a consagrações. Também gostam de candidatos sem chances e gente de fora do establishment, desde que tenham alcançado uma respeitabilidade convencional. Esse é outro obstáculo com que Hillary terá de se defrontar. Quantos mais republicanos entrarem na disputa, mais cada um deles precisará lutar para vencer. Terão de acordar todas as manhãs, arregaçar as mangas e trabalhar duro para conseguir a indicação do seu partido. A maioria dos americanos também acorda todas as manhãs e trabalha duro para tentar conseguir o que quer e aquilo de que necessita. Hillary projeta a aparência de alguém que dorme tarde, acorda e tem tudo o que quer e de que precisa numa bandeja de prata.

Mas o problema mais complicado de Hillary é que ela não tem uma história nova para contar. Quando eu era menino, antes do advento da televisão a cabo, as três redes de TV costumavam fechar no verão e passar três meses reprisando programas que já haviam sido exibidos. Eram as chamadas “reprises de verão”.

Hillary é uma reprise de verão. Poucos casais da Casa Branca atraíram e conseguiram prender a atenção do país como Hillary e Bill. O escândalo Lewinsky os elevou ao status de mito. As especulações em torno das condições psicológicas do seu casamento continuaram por vários meses, senão anos. A esta altura, o país está saturado de Hillary. Não só isso. Hillary terá um trabalho insano para fazer a transição da condição de mito à de uma pessoa de carne e osso.

Ocorre que ela teve várias encarnações desde que estava na Casa Branca com o marido e isso não a ajudará. Primeira-dama, senadora, candidata democrata à presidência em 2008, secretária de Estado - os americanos ficaram saturados da sua figura e perplexos quanto ao que ela pretende de fato. Todos têm certeza de que ela é movida pela ambição de poder. Mas essa qualidade também afastará muitos eleitores, principalmente porque a pura e simples ambição numa mulher é ainda menos aceitável do que num homem, por mais triste e feio que isso seja. 

Finalmente, há ainda o enorme problema representado pelo próprio Bill Clinton. Ninguém na realidade acredita que uma vez que se instale novamente na Casa Branca, Bill, que é o animal mais político da política americana, será capaz de manter as mãos longe das alavancas do poder. A última coisa que os americanos querem neste momento de insegurança em tantas frentes - economia, raça, classe, terrorismo nacional e internacional, ascensão da China - é que as conversas sobre a disputa presidencial se tornem um assunto de especulação e de ansiedade nacional. 

E há ainda os republicanos. Cada um dos 17 tem sua própria personalidade. Cada um representa uma fase distinta de vida americana: os filhos de imigrantes hispânicos que alcançaram o sucesso (Ted Cruz e Marco Rubio); o financista temerário e agressivo (Trump); o tradicionalista do Sul possivelmente gay (Lindsay Graham); o libertário absolutamente estranho e surpreendente (Rand Paul); a CEO bem-sucedida (Carly Fiorina); o neurocirurgião negro (Ben Carson); o pregador objetivo (Mike Huckabee); o flagelo sem escrúpulos do liberalismo (Scott Walker); o valentão boquirroto (Chris Christie); o descendente de uma poderosa dinastia política (Jeb Bush) com uma atuação relativamente abaixo do esperado, e assim por diante. Cada qual sem a menor qualificação para ser presidente. Entretanto, toda vez que um deles abre a boca, monopoliza as atenções do país por dias seguidos.

Até mesmo um abominável maluco como Donald Trump presta um valioso serviço político para o seu partido. Ele faz lembrar a antiga frase trotskista: “quanto pior, melhor”. Quanto mais o seu comportamento é intolerante, mais capazes e dignos os outros candidatos parecem ser. E o simples fato de ele, incrivelmente, estar à frente dos outros pré-candidatos republicanos nas pesquisas de opinião significa que os eleitores apreciam mais o espetáculo do que o conteúdo.

No final, eles oferecem um espetáculo tão variado, dramático e colorido que aumentam o fascínio da história americana. O eleitor republicano, ou o possível eleitor republicano, é levado a se sentir parte de um Snapchat da vida americana e, independentemente de quem for o indicado, ao votar na cabine ele não estará apenas escolhendo um candidato, mas participando da grandiosa novela da existência americana. Hillary não tem absolutamente nada desse tipo de intimidade e de instantaneidade.

O colorido e a vivacidade sem nenhuma integridade ou competência talvez sejam o material de que é feita a demagogia. Mas pressinto que essa poderá levar a melhor.

/TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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