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Cai o rouxinol

De como Atticus Finch, baluarte dos direitos dos negros, involuiu para a segregação racial

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

18 Julho 2015 | 16h00

Com 3.190.000 acessos no Google, Atticus Finch fechou a semana no topo das celebridades mais buscadas na internet. Esqueçam Huckleberry Finn, Anna Karenina, Holden Caulfield; Atticus bateu todos esses totens da literatura. E também deixou muitos figurões do mundo real comendo poeira. O primeiro-ministro Alexis Tsipras? Embora bastante acessado nos sites de busca desde o início da crise na Grécia, quantos se lembrarão dele daqui a 50 anos? Atticus Finch já bateu esse recorde. Completou 55 anos como um dos “10 melhores personagens literários do século 20” e o tipo mais inesquecível de um legião de americanos.

Quem não lhe foi apresentado em sua fonte original, o romance To Kill a Mockingbird, de Harper Lee (prêmio Pulitzer de 1960, 40 milhões de exemplares vendidos até hoje, traduzido no Brasil pela Civilização Brasileira e republicado recentemente pela José Olympio), conheceu-o através do cinema, num filme também lançado entre nós com o título de O Sol é Para Todos. Não era um bom filme - acadêmico, teatral, sentimentaloide, algo caricato e totalmente tributário do carisma e da imponência de seu intérprete principal - mas deu os tubos na bilheteria, ajudou a consolidar a mística do livro e proporcionou ao ator Gregory Peck o único Oscar de sua carreira.

Best seller permanente e leitura recomendada até hoje nas escolas (menos nos estados do Sul dos EUA), O Sol é Para Todos é um romance edificante sobre a inocência infantil e o preconceito racial numa imaginária cidade do Alabama, Maycomb, durante a Depressão. Seu alegórico título deriva de uma crença popular, segundo a qual não se mata um rouxinol, pois seu único papel neste mundo é nos encantar com seu canto. Maycomb é uma cópia de Monroeville, onde Harper Lee nasceu há 89 anos, e seu herói, Atticus Finch, uma figura inspirada no pai da escritora, advogado famoso por defender réus negros nos tribunais do Alabama.

Atticus entrou para os anais da mitificação como um modelo de retitude moral, um paladino da Justiça, uma espécie de compasso moral contra o racismo, um folk hero dos círculos jurídicos. Tratado como uma pessoa real, tornou-se ídolo e inspiração para mais de uma geração de advogados. Juízes e professores confessaram ter aprendido mais sobre a essência do direito e da advocacia lendo o romance de Lee do que compêndios jurídicos, reconhecimento eternizado numa estátua erguida em Monroeville pela Ordem dos Advogados do Alabama.

Pais desejosos de uma carreira exemplar para seus filhos nos tribunais inflacionaram de Atticus o censo demográfico. Há quatro anos o causídico de O Sol é Para Todos ainda liderava a lista de nomes de bebês inspirados em personagens ficcionais, à frente de Darcy (o Mr. Darcy de Razão e Sensibilidade), Holden (de O Apanhador no Campo de Centeio) e do fitzgeraldiano Gatsby. Aguardemos a próxima pesquisa; ela promete surpresas.

O prestígio de Atticus Finch caiu um bocado nas últimas semanas, mais acentuadamente depois da divulgação de um segundo romance de Lee que enfim chegou às livrarias na quarta-feira passada. Em Go Set a Watchman, o herói de O Sol é Para Todos reaparece 20 anos mais velho e com outra postura diante do segregacionismo e da igualdade social. Numa guinada de 180 graus, Atticus chegou à década de 1950 como um sujeito amargo, de alma confederada e adversário da campanha pelos direitos civis. Inúmeras mães já tornaram público seu arrependimento pelos Atticus que batizaram.

Satisfeita com a repercussão de O Sol é Para Todos, Lee prometera jamais escrever outra obra de ficção, e cumpriu a promessa. Go Set a Watchman (citação bíblica: “Vai, põe uma sentinela”, Isaías, 21:6) foi escrita antes, como um teste para seus possíveis dotes literários, e guardada no cofre de um banco. É um caso sui generis de continuação prévia: a sequência de um romance escrito antes e ambientado duas décadas depois, ao longo das quais seu protagonista aparentemente “involui”, revelando-se o oposto do que era.

A história de como o manuscrito foi encontrado é cheia de contradições. Por que ninguém sabia de sua existência? Por que Lee não o publicou? Por que só este ano o desengavetaram? Confinada num retiro para idosos desde que sofreu um derrame em 2007, a autora não está habilitada a prestar os esclarecimentos necessários. Falam por ela seu agente, seus editores e os advogados da editora HarperCollins, todos suspeitos de haver montado um ruidoso carnaval midiático para um artefato literariamente inferior, visando engordar suas contas bancárias.

Só a polêmica em torno da queda de Atticus de seu pedestal valeu a fuzarca. De qualquer modo, há pelo menos duas décadas diversos estudiosos já viam Atticus com reservas, como um liberal paternalista, um racista enrustido, a quem a idade, como aconteceu a tantos sulistas afligidos pelos conflitos raciais dos anos 1950, não fez nada bem. À luz dessa restrição, vários críticos estão considerando o romance abandonado superior, mais sutil e historicamente mais coerente que O Sol é Para todos.

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