MANUEL BALCE CENETA/AP
MANUEL BALCE CENETA/AP

Caiu a xerife

Por que ativistas pró-maconha comemoram saída de chefe da agência antidrogas americana

Cláudia Trevisan | Washington, O Estado de S. Paulo

25 Abril 2015 | 16h00

Michele Leonhart parecia desconectada de seu tempo. Enquanto opinião pública e vários Estados americanos se tornavam mais abertos ao uso medicinal e recreativo da maconha, ela seguia implacável em seu combate no comando da DEA, a agência americana de repressão ao tráfico de substâncias ilícitas.

Nomeada em 2007 por George W. Bush, ela foi mantida no cargo por Barack Obama. Na semana passada, o Departamento de Justiça anunciou sua saída para maio, na esteira do escândalo da participação de funcionários da DEA em orgias com prostitutas pagas por cartéis de droga na Colômbia.

Com formação em Direito, Michele começou sua carreira policial em 1978 em Baltimore. Dois anos depois, foi aprovada em concurso da DEA, onde se tornou agente modelo e atuou em operações que levaram ao desmantelamento de redes de tráfico e prisões de chefões da droga. Casada e mãe de dois filhos, foi a segunda mulher a comandar a DEA. Mas sua postura combativa começou a se chocar com as transformações da sociedade americana e as posições do próprio chefe. Em reunião da Associação Nacional de Xerifes, no início de 2014, ela criticou declarações de Obama de que maconha não é mais perigosa que álcool.

Mesmo antes do escândalo, seu afastamento já era exigido por entidades pró-legalização da maconha. No fim, Michele caiu por não ter adotado em relação a subordinados o mesmo rigor que defende no combate às drogas. Em desastroso depoimento na Câmara dos Deputados em 14 de abril, ela se disse impossibilitada de aplicar penas mais severas que dois a dez dias de suspensão aos participantes da orgia. “Com apenas sessões de aconselhamento e suspensão de duas semanas ou menos por más condutas, que incentivos as funcionárias mulheres (da DEA) terão para relatar casos de assédio sexual de seus supervisores?”, perguntou o deputado Elijah Cummings. Após o depoimento, 24 dos 38 integrantes do Comitê de Supervisão do Governo da Câmara divulgaram carta na qual declaram ter perdido a confiança em Michele e em sua habilidade de punir os responsáveis pelo escândalo.

Ainda não se sabe quem a substituirá nem se a troca levará a uma mudança de posição da DEA em relação à maconha. Mas os que defendem a legalização veem uma oportunidade para promover suas posições. Em depoimento no Congresso em 2012, Michele se recusou a comparar os danos à saúde causados por crack, heroína ou metanfetamina em relação à maconha. “Acredito que todas as drogas ilegais são ruins”, declarou.

A intransigência se refletiu nas políticas da DEA, que rejeitou sucessivos pedidos para reclassificar a maconha na escala de substâncias ilícitas, mesmo depois que seu uso medicinal foi aprovado em 23 Estados e o recreativo, permitido em quatro. Entre as cinco categorias usadas pela agência, a 1 engloba as drogas mais perigosas, com potencial de provocar severa dependência e dano físico e psicológico. É nela que está a maconha, ao lado de heroína, mescalina e LSD. A cocaína aparece na escala 2 e é considerada menos prejudicial que a maconha.

“A DEA de Leonhart reflete uma abordagem ultrapassada e desastrosa, que Obama diz que pretende deixar para trás”, disse o diretor da Drug Policy Alliance, Bill Piper. A entidade é uma das principais defensoras da legalização da maconha e de mudanças no sistema criminal, que viu a população carcerária explodir nas últimas décadas em razão da guerra às drogas.

A postura de Michele também estava em descompasso com a orientação do Departamento de Justiça, ao qual sua agência está subordinada. Em 2013, o secretário de Justiça, Eric Holder, anunciou que a administração Obama não tentaria obrigar os Estados a cumprir a proibição federal de consumo de maconha. Holder também orientou procuradores federais a se concentrar em casos prioritários, como venda da substância a menores.

Levantamento do Pew Research feito em março mostrou que 53% dos entrevistados apoiam a legalização da maconha. Nos anos 1990 eram apenas 16%. Pior para Michele Leonhart.

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