Pierre Boulat/Companhia das Letras
Pierre Boulat/Companhia das Letras

Caixa reúne todos os contos do escritor argentino Julio Cortázar

Escritor criou espaço ficcional para seus personagens com um caminho que dá voltas como a fita de Moebius

Sérgio Medeiros, Especial para o Estado

03 de julho de 2021 | 15h00

No primeiro volume da caixa Todos os Contos, de Julio Cortázar (escritor argentino nascido na Bélgica em 1914 e falecido na França em 1984), o conto O Filho do Vampiro, de 1945, descreve o parto extraordinário de Lady Vanda, que fora violentada por um vampiro. Ela se transforma no próprio filho, que nasce, assim, adulto: “Então, quando soaram as doze horas, o corpo de quem havia sido Lady Vanda e era agora seu filho ergueu-se docemente no leito e estendeu os braços na direção da porta aberta”. 

À ambiguidade espacial (o que está dentro está fora) se soma a ambiguidade temporal (a criança é o adulto), um traço típico de toda a obra do escritor, que também foi grande romancista, tendo publicado, entre outros, O Jogo da Amarelinha (1963). 

No segundo volume da caixa, já perto do final, o conto Anel de Moebius (1980) narra o encontro casual entre uma professora inglesa e um vagabundo francês, ambos muito jovens, e, como já ocorrera no conto anterior, concebido aos 31 anos de idade, acompanhamos uma cena de violência sexual descrita em detalhes, a qual, depois, se prolonga infinitamente, embaralhando os conceitos de vida e morte, vigília e pesadelo.

Essa narrativa da maturidade, que foi publicada quando o autor já havia completado 66 anos, destaca uma das figuras favoritas de Cortázar: o espaço ficcional que possui um só lado e cria para seus personagens um caminho sem fim nem início, infinito. Essa noção é representada pelo famoso anel ou fita de Moebius, como o título do conto, aliás, já revela ao leitor. 

Numa das narrativas mais breves e famosas do escritor, Continuidade dos Parques, publicada em 1957, o leitor de um romance se transforma também em personagem, penetrando num círculo mágico (e potencialmente perigoso, já que o protagonista dessa história planeja um assassinato) no qual a fita de Moebius novamente oferece o modelo. A confusão de identidades que esse paradoxo espacial propicia foi explorada por outro grande escritor argentino, que Cortázar considerou um mestre: refiro-me a Jorge Luis Borges, que no breve conto Borges e Eu (1960) descreve a fissura entre o narrador e a sua persona pública, entre a vida e a ficção, mas conclui que essas dicotomias estão fadadas a se confundir inextricavelmente: “Não sei qual dos dois escreve esta página”. 

Na América Latina, o lado único da fita de Moebius foi explorado por outros artistas da geração de Cortázar, como a artista brasileira Lygia Clark, que trabalhou com o conceito de linha infinita. A sua obra Caminhando, de 1963, é uma performance com uma tesoura que percorre justamente “o objeto não orientável” de um só lado. Não por acaso, nesse mesmo ano, Clark criou a escultura O Dentro é o Fora. Em Cortázar, “o fora” poderá ser o inumano (o fantasma ou o animal), mas ele logo se torna “o dentro”, ao tomar posse do sujeito que, então, não pode mais decidir de que lado está.

Esse é precisamente o tema de Axolotes (1951), uma narrativa famosa de Cortázar que parece dialogar com o conto O Zahir (1949), de Borges, que fala de “seres ou coisas que têm a terrível virtude de ser inesquecíveis e cuja imagem acaba por enlouquecer as pessoas”. Diante dessas formas larvais mexicanas (larva significa máscara e também fantasma, lemos no conto), o narrador descobre que ele próprio é um axolote. O axolote, no conto, não é mais um animal, nem o narrador um ser humano.

Poderia multiplicar os exemplos de abolição das dicotomias tradicionais na ficção de Cortázar (O Outro Céu, de 1966, que se passa entre Paris e Buenos Aires, é, nesse aspecto, uma de suas realizações supremas), mas, para não repetir o óbvio, gostaria apenas de chamar a atenção para o papel ativo dos protagonistas que percorrem a fita de Moebius.

Num dos melhores contos do autor, intitulado O Perseguidor (1959), surge o seu personagem mais memorável, a meu ver: um músico norte-americano, o saxofonista Johnny Carter, inspirado em Charles Parker, a quem o conto é dedicado. 

Escrito por um crítico de jazz, que é também autor da biografia do músico, lemos que Johnny “não está fugindo de nada, que não se droga para fugir, como a maioria dos viciados, que não toca sax para se entrincheirar atrás de um fosso de música, que não passa semanas trancafiado nas clínicas psiquiátricas para sentir-se protegido das pressões que é incapaz de tolerar”. Johnny, que vaga entre a arte e o delírio, é alguém que avança para explorar a si mesmo (a sanidade e a loucura, assim como o som e o silêncio, estão do mesmo lado), enquanto revoluciona a música moderna. “Suas conquistas são como um sonho”, conclui o perplexo biógrafo, “ele as esquece ao despertar”...

Duas tradutoras experientes e premiadas verteram esses contos para o português: Heloisa Jahn e Josely Vianna Baptista, o que assegura a qualidade literária da publicação.

É PROFESSOR DE LITERATURA NA UFSC. PUBLICOU, ENTRE OUTROS, ‘O ACUMULADOR’ (ILUMINURAS, 2021) E 'O BARRACO DAS LETRAS E DOS HIERÓGLIFOS’ (ARTE & LIVROS, 2020)

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