SHANNON STAPLETON/REUTERS
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'Cala essa m... de boca'

O conflito entre a necessidade de se manter a ordem pública e o anseio de liberdade é o mais antigo e letal perigo da democracia

Lee Siegel, O Estado de S. Paulo

10 Janeiro 2015 | 16h00

O massacre terrorista na redação do Charlie Hebdo em Paris ocorreu durante um momento estranho do outro lado do Atlântico. O prefeito de Nova York, Bill de Blasio, se encontra num impasse sem precedentes com o departamento de polícia da cidade. Faz décadas que as democracias ocidentais não parecem tão vulneráveis como agora, mas nunca houve - ao menos não nos Estados Unidos - um antagonismo maior entre a população e a polícia da qual aquela depende para sua proteção.

Para os nova-iorquinos, a execução do policial parisiense que jazia ferido na calçada implorando pela vida, baleado em seguida de maneira deliberada e fria pelos terroristas em fuga, lembrou o assassinato de dois policiais em Nova York dentro de sua viatura pouco antes do Natal. O responsável pelas mortes, Ismaaiyl Brinsley, disse que atirou neles como vingança pela morte de dois negros nas mãos da polícia - Michael Brown, em Ferguson, Missouri, e Eric Garner, em Nova York. Em ambos os casos, o tribunal do júri deixou de indiciar os policiais responsáveis pelas mortes, resultando em furiosas manifestações por todo o país, principalmente em Ferguson e Nova York.

De Blasio, casado com uma mulher negra com quem tem dois filhos, manifestou solidariedade com os manifestante e disse se preocupar com um encontro entre seu filho e a polícia. Isso enfureceu o NYPD. Após o assassinato duplo, quando De Blasio chegou para discursar no enterro dos oficiais mortos, multidões de policiais deram as costas a ele. O presidente do sindicato dos policiais chegou a dizer publicamente que De Blasio tinha as mãos sujas de sangue.

O antagonismo entre prefeito e polícia se tornou ainda mais intenso nos dias mais recentes, quando ficou claro que o NYPD estava retardando deliberadamente as operações policiais mais corriqueiras. O trânsito, os boletins de ocorrência e as averiguações das denúncias simples foram quase interrompidas. Os tribunais nova-iorquinos, conhecidos pelo agito quase insuportável, apresentam uma calma suspeita.

O impasse entre o prefeito e os policiais ocorre dentro de um contexto mais amplo, que ninguém parece se preocupar em apontar em meio aos comentário frenéticos a respeito dos eventos imediatos. Semanas atrás, o Congresso tornou público seu relatório envolvendo a tortura de suspeitos de terrorismo por parte da CIA. Não faz muito tempo, Edward Snowden revelou que a Agência de Segurança Nacional dos EUA andava espionando os americanos. Parece que, em toda parte, as pessoas estão se insurgindo contra o que consideram ser uma autoridade abusiva, desde o mais alto escalão do governo até a delegacia de polícia mais próxima.

Ao mesmo tempo, as pessoas exigem proteção. O conflito entre a necessidade de manter a ordem e a necessidade de ser livre é o mais antigo e letal perigo da democracia. É a isso que as pessoas se referem quando falam na “crise do liberalismo”. A situação lembra a Europa dos anos 1930 e a América Latina dos anos 1960 e 70. Os Estados Unidos estão agora a poucos passos de confrontar esse quadro pela primeira vez.

É claro que a situação em Nova York é muito diferente do contexto de segurança nacional. Mas parece que De Blasio foi influenciado pela atmosfera criada pelas revelações de Snowden e a recusa generalizada contra a autoridade abusiva. Tudo que De Blasio precisava fazer era falar de maneira apaixonada e sincera a respeito do sacrifício feito todos os dias pelos policiais nova-iorquinos, usar a mesma paixão e sinceridade para se dirigir ao manifestantes e, então, discretamente, longe dos olhos do público, conter os excessos da polícia. Em vez disso, ele acenou peremptoriamente para os riscos enfrentados pelos policiais e então discursou emocionado para as pessoas que os estavam denunciando.

Partilho da revolta contra a tortura e do desagrado diante do fato de americanos serem vigiados por seu próprio governo, e partilho da raiva contra táticas abusivas empregadas pela polícia. Mas preciso ser sincero: também sou grato pelo fato de os EUA não terem sofrido nenhum ataque terrorista em seu território desde o 11/9, apesar das guerras e das operações secretas americanas no Oriente Médio, que deixaram centenas de milhares de mortos e feridos. Parte da razão por trás da segurança nos EUA foi sem dúvida o programa de vigilância da NSA. Não sei se a tortura também desempenhou um papel. Espero que não. Se tiver desempenhado, prefiro não saber.

Quando à morte de Eric Garner e a força excessiva às vezes empregada pelo NYPD e por policiais em todo o país, estou do lado dos manifestantes. Nunca vou me esquecer de ter sido xingado e ameaçado com um cassetete por um policial quando era menino, nem de quando fui enquadrado e jogado na cadeia por uma noite em Chicago por ter cometido uma infração de trânsito na adolescência. No auge do reino do prefeito Giuliani em Nova York - que coincide com o auge da brutalidade policial - lembro-me de quando perguntei a um capitão de polícia numa viatura com outros policiais se ele poderia fazer algo para consertar um sinal de trânsito na minha rua, e a resposta foi “cala essa m… de boca”. Sempre que meu filho de 8 anos, fã incondicional da polícia, me arrasta para conversar com um policial, quase tenho um ataque de pânico.

Mas também me lembro de morar na Nova York dos anos 1980, quando as pessoas eram esfaqueadas na rua em plena luz do dia. Nova York é hoje uma das cidades mais seguras do mundo. Isso é em grande parte consequência da vigilância da polícia.

É difícil ver qual será o desfecho dessa situação. Conforme o país se torna mais hedonista, conforme a cultura comercial estimula novos e mais numerosos apetites, conforme a internet permite que mais e mais pessoas se afastem das amarras sociais, a revolta contra a autoridade - e contra a autoridade policial - só vai aumentar. E o mesmo vai ocorrer com a necessidade de policiamento, conforme as pessoas saírem do controle. E conforme as pessoas se revoltarem cada vez mais contra a autoridade, elas condenarão o exercício secreto do poder por parte do governo. Mas também exigirão, como parte da crescente sensação de merecer direitos, serem protegidas em todo momento.

Coloco-me ao lado da razão, da sanidade e da decência. Mas a polícia diz o mesmo, assim como os manifestantes contra a polícia; e também os vigilantes da sociedade, e aqueles que os condenam. O partido da segurança e o partido da liberdade afirmam ambos falar em nome da razão, sanidade e decência. Essa é, em resumo, a crise do liberalismo. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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