Editora Veneta
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'Caligari!' mostra os efeitos da hipnose coletiva alemã em quadrinhos

Indicada ao prêmio HQ Mix, a graphic novel, baseada no filme clássico expressionista 'O Gabinete do Doutor Caligari', foi desenhada por Alexandre Teles

Donny Correia *, Especial para O Estado

25 Agosto 2018 | 16h00

Indicado ao prêmio HQ MIX na categoria Melhor Adaptação para Quadrinhos, Caligari! (Editora Veneta), do artista gráfico Alexandre Teles, realizado a partir do filme clássico expressionista O Gabinete do Dr. Caligari (1920), rejeita fórmulas próprias de uma quadrinização, quer dizer, não recria movimentos a partir da contiguidade dos quadrinhos numa página, e nem tenta colocar diálogos nas bocas dos personagens, algo comum em edições do gênero. Ao contrário, Caligari! apresenta ao leitor uma espécie de livro de arte, no qual a decupagem proposta configura um storyboard às avessas, como se pensado a priori, mas executado por último. 

Na esteira dos diálogos possíveis entre linguagens da arte, é possível enxergar a obra de Teles até mesmo como um livro objeto, se levarmos em conta uma das funções que cumpre ao discutir as imbricações que envolvem suportes distintos de produção artística. Neste caso, o cinema, a literatura, as artes visuais etc. Caligari! evidencia, ainda, as possíveis narrativas que criam a polifonia das culturas pop e geek.

O autor explica em seu posfácio o complexo processo da monotipia, técnica de produção de gravuras a que se dedicou por quatro anos para obter as tantas reproduções das cenas do filme. São sequências de imagens que citam e emulam gravuras expressionistas como as de Emil Nolde (1867-1956) ou de Käthe Kollwitz (1867-1945), mas com uma marca estética muito pessoal. Em sua pesquisa e execução, tentou reproduzir até mesmo as imperfeições do filme na película já muito castigada pelo tempo.

Por trás dessa “mimese autoral”, numa camada narrativa mais abstrata, própria da obra de arte, há uma espécie de Ekphrasis do elo de ligação entre determinados momentos da História. Mais precisamente das “forças ocultas” recorrentes em torno de determinadas culturas. E isto fica evidente quando nos damos conta de que Teles se valeu do argumento original escrito pelos jovens heróis da 1ª. Guerra Mundial, Carl Mayer e Hans Janowitz, não da montagem final proposta pelo produtor do filme, Eric Pommer. 

Explico: ambos conceberam a trama sombria passada no vilarejo de Holstenwall, Alemanha, quando um misterioso hipnólogo, Dr. Caligari, surge com seu sonâmbulo Cesare, um fiel “soldado” que passa a cometer crimes por ordem de seu mestre. Um jovem curioso, Francis, que perdera o amigo num dos crimes cometidos por Cesare, resolve investigar o que vem causando ruído na paz de seu vilarejo. Os autores do argumento pretendiam que a história se encerrasse quando o espectador descobrisse que o velho hipnólogo não é o verdadeiro Dr. Caligari, mas um louco obcecado por certo Caligari, que perambulava pela Itália com um sonâmbulo a tiracolo por volta do século 11. No filme, uma vez desmascarado, o velho louco é encerrado num hospício. Mayer e Janowitz pretendiam enfatizar por metáfora a desgraça coletiva deflagrada pela obediência cega a uma forma de autoridade com contornos quase sobrenaturais, num país devastado pela guerra e marcado por vários levantes que culminariam na ascensão do nazismo.

Por sugestão de Fritz Lang – cogitado para dirigir  Caligari, mas que declinou da função por conta de outro projeto –, Pommer, convencido, embalou a ideia original numa narrativa moldura. Assim, ao final do filme, descobrimos que o louco obcecado por Caligari é Francis, na verdade. Ele é quem acaba trancafiado no manicômio e examinado pelo hipnólogo, agora revelado diretor da instituição para lunáticos. O velho afirma, assim que descobre qual mal assombra o perturbado Francis, que agora pode curá-lo. A ideia original se perdeu completamente. Ao invés da crítica, agora temos o elogio de uma força coerciva predestinada a regrar e condicionar o inconsciente coletivo representado pelo jovem.

Por outro lado, ao nos voltarmos para a deteriorada condição das relações de nossa pós-utopia, percebemos que não há muito de distância entre o obscuro sarcófago do sonâmbulo Cesare e nossa histeria cotidiana travestida de causas. Talvez, nossa natureza seja, ainda hoje, expressionista: sisuda, fria e descrente. Afinal, se vistos de perto, Weimar, o Crash, o Nazismo, a Guerra Fria, Bush, o Terrorismo, Trump ou, claro, nossa novela nacional, são marcos artificiais que nos servem de mero didatismo escolar. A massa multiforme e homogênea da História é uma camada a mais na profundidade da leitura no Caligari!.

Se pensarmos na sofisticação que atingiu a arte das HQ’s, o hibridismo estético dessa edição propõe um novo gênero dentro do gênero. Como dito, indicado à categoria de melhor adaptação, Caligari! pode ser melhor descrito como uma uma releitura sincrônica possível por meio da arte. Está, assim, além de uma dupla tradução intersemiótica, e se situa na fronteira sutil entre o visual, o fílmico, o narrativo e o filosófico.

* Donny Correia é mestre e doutor em Estética e História da Arte pela USP

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